Yellow Sounds #52 – Close To You (1970)

“Minha independência parece desaparecer na neblina…”

Karen Carpenter


A frase acima é uma  tradução livre de Help!, música dos Beatles regravada pelo The Carpenters. Não sei se pelo relacionamento tardio com o quarteto britânico ou pelo recém-descoberto interesse por Karen Carpenter, mas a versão dela com o irmão Richard falou mais diretamente comigo.

Foi lendo A Garota da Banda, livro de Kim Gordon, e conhecendo um pouco a história de Karen – que faz “my independence seems to vanish in the haze” ter sentido – que me interessei mais por sua música.

O primeiro álbum lançado pelo The Carpenters foi originalmente intitulado Offering. A versão deles para Ticket to Ride, também dos Beatles, não só rebatizou o disco como fez com que os irmãos atraíssem atenção suficiente para receber novas oportunidades que culminaram na gravação do segundo álbum.

Close to You é o único título do The Carpenters na lista-guia dos “1001 discos para ouvir antes de morrer”. Nele, está o single de mesmo nome ou (They Long to Be) Close to You. Uma canção de Burt Bacharach/Hal David que só se tornou sucesso após o cover dos irmãos Carpenter, recebendo certificado de disco de ouro e garantindo a eles mais de uma década de sucesso.

Quando do lançamento de Close To You, Karen ainda não lidava – ao menos, não visivelmente – com seus problemas com a anorexia nervosa, doença que levou à sua morte em 1983, quando tinha apenas 32 anos. Precisava lidar com Richard que, aparentemente, sempre foi um workaholic que controlava todos os passos do duo.

O contato de Richard com a música começou bem primeiro e, pelos anos de dedicação acumulados, fazia sentido que ele liderasse o caminho. Karen, que só se interessou após constatar o crescente talento do irmão, descobriu um dom natural para a bateria e, posteriormente, aprendeu a explorar sua bela voz. Características que fizeram dela uma das maiores artistas de todos os tempos.

Em Close To You, a impressão é que qualquer disfunção no relacionamento dos irmãos ainda não lhes era verdadeiramente danosa. É isso ou, desde aquela época, Karen usava de sua habilidade em (tentar) se esconder, aliada à vista grossa que a indústria faz(ia) às questões pessoais.

A música de abertura do álbum, We’ve Only Just Begun, é o outro single que também recebeu certificado de disco de ouro. Desde já, percebe-se que o soft rock do The Carpenters é um som muito mais agradável, leve e limpo do que as questões que marcaram a vida do duo fora dos palcos.

A maioria das as faixas do álbum são covers. As demais, Maybe It’s You – um de meus destaques -, Crescent Noon, Mr. Guder  e Another Song, foram escritas por Richard e John Bettis. Todas elas, num geral, foram entendidas pela crítica como uma agradável surpresa.

Love Is Surrender, mais uma das minhas preferidas, também tem o dedo de Richard, que alterou o arranjo da música, deixando-a mais rápida e, provavelmente, mais interessante. A letra também foi alterada para eliminar as referências cristãs originais. Não se foi o próprio Richard a promover essa mudança também.

Além dessas, cito ainda Baby It’s You, meu vocal favorito, Reason To Belive, que tem uma pegada folk, e I Kept on Loving You, que ressalta os vocais de Richard.  

Com Close To You, Karen e Richard Carpenter escreveram seu nome na história ao lado de artistas como Queen, ABBA, Bee Gees, Jacksons 5, The Clash e Pink Floyd. Me é curioso pensar em como eles dois, com seu som que parecia tão distante daquilo que estaria destinado ao sucesso, conseguiram encarar toda essa turma e se tornar nomes dentre os mais relevantes dos anos de 1970. Um disco “obrigatório” para quem deseja conhecer os The Carpenters.

 

The following two tabs change content below.

lrmatta

Lari Reis é um ser de outro planeta que acredita que se transformará em purpurina roxa quando morrer. Até lá, passa o tempo tentando aprender algo sobre música.