Yellow Sounds #66 – Astral Weeks (1968)

Se não conhece, não o subestime. Este é um dos melhores discos de todos os tempos

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A primeira coisa que pensei quando ouvi Astral Weeks foi não julgue um álbum pela capa, mas talvez pelo título. Isso porque não me importou que o conceito por trás da arte visual tenha sido devidamente elaborado para representar o mesmo que o título ou as canções; algo mais profundo. Simplesmente não me é atraente. “Astral Weeks”, sim, me é atraente porque eu que gosto dessas coisas meio místicas. Porém, isso não vale para várias outras pessoas, e assim, sem se dar conta do que essa é a obra prima de Van Morrison (ou até mesmo sem se dar conta de quem é Van Morrison), o álbum podia passar despercebido na sua vida, não fosse por esta Yellow Sounds. Agradeça-me depois.

Sir George Ivan Morrison nasceu na Irlanda do Norte, em berço musical (sua mãe era cantora de jazz). Assim sendo, está nesse meio desde sempre e, quando apareceu a chance, já reunia habilidades suficientes para atravessar o oceano com o Them – sua primeira banda séria, digamos assim – e fazer parte da British Invasion. A banda rendeu certo sucesso e uma boa dose de tretas decepções que quase fizeram Van desistir da música. Convencido a ficar, ele gravou o hit Brown Eyed Girl – seu maior sucesso até hoje – que alavancou o álbum Blowin’ Your Mind (1967).

Van ainda precisou lidar com outras tretas dificuldades antes de Astral Weeks: problemas com a gravadora, morte do empresário, restrições contratuais, disputa legal. Só depois de tudo isso ele conseguiu entrar no estúdio para as duas ou três sessões que deram origem ao álbum.

Hoje, aos 71 anos, Van Morrison continua fugindo daquilo que é senso comum no universo musical, dispensando, inclusive, a ideia de que seu Astral Weeks seja um dos mais importantes álbuns da história. Seu estilo não se define com uma palavra, é uma mistura de sons – jazz, blues, soul, r&b, folk -, com seu jeitão avesso que o eleva ao nível do rock.

Astral Weeks reúne quase todas essas influências e eu insisto em dizer que sinto o astral da música celta aqui. Diferente de outros clássicos que são uma boa pedida a qualquer hora, Astral Weeks é um desses álbuns que pedem gentilmente para ser ouvido no momento certo. E é o tal sentir que demanda isso. Durante as gravações, Morrison mal interagiu com os demais músicos. A um deles, disse apenas que tocasse qualquer coisa que sentisse que devesse tocar.

Van Morrison, sua voz e violão são as constantes. Há, também, uma banda de jazz, e meu destaque vai para flauta, para o vibrafone, para o sax… Para a junção maravilhosa de sons que permite que Astral Weeks seja uma viagem espírito-temporal (e não espaço-temporal). Um movimento de próprio Van que foge das atribulações de sua vida nos Estados Unidos para resgatar, de forma poética – verbal e sonora – sua Belfest, cidade natal, e outras lembranças.

São apenas oito faixas, todas escritas por um jovem Van de 22 ou 23 anos. A maioria é longa, por isso destacarei apenas quatro: Beside You, as masterpieces Cyprus Avenue e Madame George e, por fim, Ballerina. Escolha o momento e embarque nessa viagem.

Quando do lançamento, Astral Weeks não fez sucesso com o público, mas agradou bastante à crítica e esse reconhecimento só cresceu ao longo dos anos. Sem dúvida, vale a pena ouvir!

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lrmatta

Lari Reis é um ser de outro planeta que acredita que se transformará em purpurina roxa quando morrer. Até lá, passa o tempo tentando aprender algo sobre música.