Wish you Were Here (1975)

Sabe aqueles quarentões enxutos? Engordaram um pouco, já estão grisalhos, mas são super atuais e conservam um charme e beleza que só fica perceptível com a experiência de vários anos de estrada. Talvez essa seja uma excelente imagem para compararmos com o aniversariante de hoje. Há exatos quarenta anos, no dia 12 de Setembro de 1975, era lançado Wish you Were Here, disco do Pink Floyd que sucedeu o grandioso Dark Side of the Moon  e precedeu o interessantíssimo Animals.

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Capa do Disco

Logo de chegada, o disco já tinha uma missão complicadíssima. Atender às expectativas de um público que havia testemunhado, apenas dois anos atrás, o surgimento de um dos álbuns mais icônicos, não só da carreira da banda, mas de toda a história do rock. O resultado de “Wish you Were Here não deixa nada a desejar para Dark Side of the Moon, embora algumas pessoas achem o álbum um pouco mais complicado de digerir por causa de algumas experimentações que a banda fez. 

A Equipe

Roger Waters seguia como “maestro” da banda, cantando e compondo em parceria com David Gilmour e Richard Wright. Além dos três membros icônicos que cantavam e tocavam, respectivamente, contrabaixo, guitarra e teclado, a equipe contava com Nick Manson na bateria e os convidados Dick Perry no saxofone (ele também tocou no Dark Side…), Roy Harper, que fez os vocais em “Have a Cigar” e o par de backing vocals Venetta Fields e Carlena Williams.

O Conceito

Como falar de Pink Floyd sem falar de conceito? Principalmente quando Roger Waters compunha todas (!) as letras. O disco segue dois eixos temáticos; o primeiro era a expressão de sentimentos de ausência e o segundo, uma crítica ao mercado fonográfico. Eles se relacionam brevemente na forma como o disco é montado, mas a questão da ausência é predominante inclusive na capa e no trabalho artístico do encarte original.

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Homem trajado formalmente, sem face e oferecendo um disco
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Homem nadando num deserto
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Homem mergulhando, mas água ausente de movimento

As Músicas

O disco inicia com “Shine on you Crazy Diamond (pt I a V)“. Aqui uma pausa para compartilhar uma experiência pessoal: essa foi a primeira música do Pink Floyd que ouvi consciente do que estava acontecendo, e foi um daqueles momentos em que você, sem perceber, percebe para que a música foi feita e como ela eleva a alma. Voltando à canção, ela é uma ode à Syd Barret, primeiro vocalista do Pink Floyd e membro fundador da banda. Infelizmente, Barret teve de ser afastado da banda porque o excesso de consumo de LSD havia afetado suas faculdades mentais. Apesar do afastamento, todos da banda (inclusive Gilmour, que veio a substitui-lo) tinham muito carinho por ele. Wright chegou a declarar que “a banda jamais existiria sem Barret, mas jamais teria continuado com ele”. A ausência de Barret na banda, apesar de sua importância, é o que dá o tom da letra da música. Um episódio marcante (e bizarro) ocorreu durante as gravações dessa canção, pois Barret apareceu no estúdio inexplicavelmente durante as sessões em que a faixa estava sendo gravada, já não muito lúcido e a par com a realidade, infelizmente. A melodia da música é levemente melancólica e introspectiva, cheia de teclados e sintetizadores e solos de guitarra ao longo de seus quase 9 minutos. Até taças de cristal foram usadas para a a gravação dessa canção, o que foi reproduzido no show em Gdansky que Gilmour fez com sua banda solo (veja aqui).

Em seguida começam os acordes abertos e também muito introspectivos de “Welcome to the Machine” que, ao contrário da música anterior, cantada por Waters, é cantada por Gilmour. Entretanto, aqui o vocal dele aparece num ambiente um pouco diferente; mais “gritado” passando um sentimento de revolta e de pessoa que foi enganada. O eixo temático aqui é a crítica à indústria musical. Instrumentalmente, destaca-se o pouco uso da bateria e, sem dúvida, os solos de sintetizadores muitíssimo mais agressivos do que em “Any Colour you Like”, faixa instrumental do Dark Side… . 

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Aperto de mãos metálicas, mecânicas

Dando prosseguimento à crítica ao mercado de música, “Have a Cigar” traz uma letra satírica, em primeira pessoa, na voz do empresário ganancioso que nem ao menos sabe o nome dos músicos com quem trabalha (piada expressa no verso “[…] by the way, which one is Pink?”). Os destaques nessa composição são o seu swing (que veríamos de novo em “What do you want from me?” de The Division Bell) e o fato de nem Gilmour, nem Waters, nem Wright cantarem essa faixa, e sim Roy Harper, um vocalista que Waters convidou. A explicação para isso é que Waters deveria cantar essa faixa, mas sua voz (limitada) não atingia as notas mais altas então, então ele achou que seria melhor ter uma outra pessoa cantando, visto que as vozes de Gilmour e Wright não se enquadravam bem na canção.

Chegamos então à canção homônima, aquela que até quem nem sabe o que é Pink Floyd conhece, “Wish you were here”. É curioso como normalmente existe uma tendência para que canções extremamente famigeradas caiam no limbo de músicas que ninguém suporta ouvir e “Wish you were here” foge, completamente, a essa regra. Onde quer que ela toque, paramos para ouvir e cantamos junto (mesmo que solfejando). A canção é um contra-ponto no disco, pois ela retorna aos temas relacionados à ausência e porque instrumentalmente é uma balada suave com uma letra extremamente profunda.

Por fim, o disco encerra com “Shine on you Crazy Diamond (pt VI a IX)que é a continuação da primeira canção do disco. A ideia aqui é encerrar com a impressão de ciclo, tornando ao início mas com algumas diferenças. É como se percebêssemos que a vida continua a mesma depois de uma experiência impactante, porém nossa visão está diferente. E esse é o sentimento final de quem se propõe a ouvir entender, mesmo de superficialmente, esta maravilhosa obra de arte chamada “Wish you Were Here”. Um feliz aniversário e obrigado pelo presente!

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