“Wildness” (2018) e continua essa eterna transição do Snow Patrol

O Snow Patrol sempre dançou no limiar entre o mainstream e o alternativo com a irregularidade de um bêbado bem treinado: a banda sabia que andava nessa corda bamba, e assim manteve-se desde que veio a ter destaque com “Final Straw”, em 2003. Desde então chegou a ser taxada de “banda de uma música só”, primeiro por “Run” e depois por “Open Your Eyes” – talvez o maior hit da banda, nascido de “Eyes Open”, disco de 2006. Apesar da ironia de ser chamada de “banda de uma música só” por mais de uma canção, o Snow Patrol carregou esse estigma até a atualidade, e neste trabalho a crítica parece ressoar com mais sentido do que antes. Repleto de tentativas pouco coerentes, “Wildness” é um esforço, mesmo que incerto de para onde quer ir – de novo.

wildness
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Digo isso porque a banda irlandesa/escocesa tem buscado respirar novos ares há algum tempo. “Fallen Empires”, seu lançamento de 2011, flertou com vários gêneros, tendo um caso ardente com música dançante através do single “Called Out in the Dark“, que balançou (mesmo que num ritmo meio lento) as baladas indies mundo afora. Depois disso, o compositor e vocalista Gary Lightbody entrou em um bloqueio criativo que durou cinco anos, até ele começar a escrever as faixas deste disco, as quais ele chegou a descrever como “enlouquecedoras”, no ótimo sentido.

Porém chegou “Wildness” e o disco é consideravelmente menos do que isso. É necessário dizer que não é um registro ruim; pelo contrário, é tecnicamente efetivo e o equivalente a um filme agradável de fim de noite. O problema crucial que “Wildness” enfrenta é o de provar que o Snow Patrol é, normalmente, uma banda de uma música só – por álbum. O grupo tem uma zona de conforto muito óbvia dentro do qual ele opera. Toda vez que ele sai dali, uma moeda é jogada para o alto, e os deuses decidem o futuro daquela faixa.

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A banda há uns anos.

Claro, pode-se argumentar que este é o perigo que se assume ao arriscar-se: a incerteza do que se terá como resultado. Ainda assim, é interessante pensar como há tentativas e tentativas. É difícil afirmar que se trata do mesmo risco, por exemplo, como o Foo Fighters se testou em “Concrete and Gold” versus o que o Snow Patrol faz em “Wildness”. Lá, Dave Grohl e companhia experimentam coerentemente em todo o disco com a segurança de quem banca as chances de estar cometendo um erro. Aqui, o grupo de Lightbody repete o que fez em “Fallen Empires” e dispara em várias direções, não havendo uma coerência em suas experiências. A uniformidade neste álbum é encontrada primária – e quase unicamente – no efeito de distanciamento aplicado ao canto do vocalista.

O resultado disso é um número de acertos menor que os discutíveis erros. “Heal Me” e “Dark Switch” destacam-se como as melhores do disco, em ótimos desempenhos com indie pop e outro pop rítmico com cores de Ed Sheeran, respectivamente. “Life on Earth“, “Empress” e “A Youth Written in Fire” têm boas construções, mas não alcançam o ápice prometido e acabam dando a sensação de que nunca começaram de fato. “What If This Is All The Love You Ever Get?” é tão deprimente quanto seu nome sugere, mas está deslocada no álbum e não tem a força e o impacto emocional que outras músicas realmente tristes do grupo conseguem, como “Somewhere a Clock Is Ticking“, “Make This Go On Forever“, a clássica “Chasing Cars” e a já citada “Run“.

Ao final de “Wildness”, a sensação é de que o Snow Patrol continua buscando o que fazer doravante, visto que a sonoridade indie-pop-meio-triste do início dos anos 2000 – safra da qual também é cria Keane e a fase inicial do Coldplay, por exemplo – ficou esquecida no tempo, uns bons oito a dez anos atrás. Como outras bandas daquela época, o amadurecimento do grupo e a mudança do cenário de consumo musical os deixou dando tiros no escuro, sendo “Wildness” mais um desses disparos às cegas. Sendo esta uma das bandas da minha pré- e adolescência, fica a sensação – e a expectativa – de que foi só mais um momento de busca para o Snow Patrol e que, logo menos, a banda se encontra, e sai deste seu perpétuo processo transitório. Quem sabe um dia.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.