What Happened, Miss Simone? (2015)

“Quero entrar nesse covil das pessoas elegantes com suas ideias velhas, presunçosas, e enlouquecê-las.”

Nina Foto 2

Título: What Happened, Miss Simone?

Diretora:Liz Garbus

Ano: 2015

Pipocas: 10/10

Em “What Happened, Miss Simone?” (“o que aconteceu, senhorita Simone?”), a diretora Liz Garbus já transmite através dessa pergunta toda a intenção da obra: dar voz à Nina Simone. O título do documentário é extraído de um artigo que a poeta Maya Angelou escreveu sobre a artista, questionando-a sobre os novos rumos de sua carreira. Só que o sentido da pergunta acaba sendo estendido no longa. Nina não precisava de introduções para marcar presença, mas ao longo do filme percebemos também o quanto poderia reprimir seus sentimentos, em um convívio conflituoso constante da liberdade com o medo.

O arco temporal adotado pelo filme passa por toda a vida da artista, indo desde sua infância marcada pelo preconceito racial na Carolina do Norte dos anos 1930, até seus últimos anos de vida, no início dos anos 2000. A infinidade de informações sobre Nina e os elementos históricos é algo que impressiona e faz com que não pareça que o documentário tem menos de duas horas. Tudo isso leva o espectador para uma grande e intensa jornada em direção ao mais profundo íntimo de Nina. Desde o começo, o documentário possui o tom de identificar e compreender o motivo (os motivos, na verdade) de Nina ter sucumbido à sua depressão e raiva ao longo dos anos. A partir disso, o filme pode ser identificado como uma variação do modo participativo de documentário, mostrando a verdade do encontro entre a cineasta e seus entrevistados, embora sem explicitar na montagem a diretora como um “ator social” da obra.

Nina Foto 1

É interessante como as informações vão sendo dispostas na linha narrativa, através de um trabalho minucioso na composição estrutural das mensagens passadas no filme. Declarações e desabafos escritos de Nina, depoimentos íntimos de família e amigos, e imagens dos acontecimentos políticos são mostrados em constante alternância com apresentações musicais fantásticas da artista. Estas são um verdadeiro deleite e também constroem a narrativa, pois estão perfeitamente encaixadas no contexto discutido, além de potencializarem as fortes emoções expostas. A sensibilidade e competência ao combinar as informações e os sentimentos faz com que o filme fique fluido, além da grande beleza estética. O fato de Nina estar o tempo inteiro presente, contando sua própria trajetória, é o grande diferencial e causa grande impacto. Além disso, há um sentido importante de empoderamento ao colocar Nina de fato como protagonista de sua própria história.

No filme, sua carreira musical assume uma espécie de pano de fundo para contar sua vida. Grandes sucessos comerciais, como as maravilhosas “I Loves You Porgy” e “My Babe Just Cares For Me” são destacados, mas o foco maior está em quando as músicas foram uma forma de Nina expressar quem realmente era e o que pensava. Isso é feito intencionalmente, pois além de a carreira de Nina (como sucesso do jazz, blues e música popular) ter começado por acaso, acabou passando por uma grande transformação ao final dos anos 1960. Nina se tornou uma engajada ativista do movimento negro pelos direitos civis e utilizou seu espaço para transmitir uma mensagem que transcendia sua arte. Pérolas como “To Be Young, Gifted and Black”, “Backlash Blues” e “Why?(The King Of Love Is Dead)” – que Nina fez homenageando Martin Luther King -, são  ressaltadas nesse sentido, mas a essência dessa faceta da artista fica por conta da sensacional “Mississippi Goddam”. Esta foi escrita por ela como um grito de indignação, abalada com o atentado que causou a morte de quatro meninas negras em uma igreja em Birmingham, Alabama, em 1963. Infelizmente, a canção se comunica de maneira assombrosa com o momento atual de tensão racial nos EUA, em meio a diversos episódios recentes de violência. Confira a música abaixo:

 

 

O documentário aborda muito bem como ao mesmo tempo em que a música era para Nina uma forma máxima de expressão, o lado perverso de sua carreira também se fazia presente. As cobranças absurdas (na exploração sobre-humana vinda de seu abusador marido e empresário) e a solidão das longas turnês anularam boa parte de sua vida pessoal. Com isso, sua carreira era fonte de alegria e fardo, liberdade e aprisionamento, orgulho e frustração – esta representada principalmente por seus sonhos não realizados no ramo da música clássica.

Somos permitidos a ser quem realmente somos? Nós mesmos nos permitimos? São reflexões interessantes levantadas ao final do documentário, que convidam o espectador a pensar sobre toda força e fragilidade de Nina e a refletir sobre si mesmo. Ela era uma mulher revolucionária e, através do documentário, temos o prazer de apreciar sua voz única e seu talento genial, durante momentos extasiantes e outros de cortar a alma. “What Happened, Miss Simone?” apresenta uma mistura de amargor e beleza (não há algo mais real do que isso na vida), em uma experiência extraordinária e inesquecível.

Bônus: Escolhemos dez músicas que aparecem no filme e montamos uma playlist!

É só dar o play e aproveitar!

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