Wet Hot American Summer (2001/2015): todos os nossos acampamentos

Um fracasso com os críticos e uma bomba nas bilheterias: foi isso que “Wet Hot American Summer” encontrou ao ser lançado em 2001. Distribuído no Brasil sob o título de “Mais um Verão Americano”, o filme buscava ser uma paródia dos muitos longas que caçoavam os filmes com as tradicionais colônias de férias estadunidenses em um acampamento para adolescentes transarem; em outras palavras, “Wet Hot American Summer” veio como uma paródia de paródias. Ganhando um patamar de cult com o tempo, teve série da Netflix em 2015, “Wet Hot American Summer: First Day of Camp”, que servia como um prequel para a história original, e agora viaja dez anos para o futuro em “Wet Hot American Summer: Ten Years Later”.

Se parece confuso, relaxa: é mesmo. Vamos (tentar) entender melhor do que se trata essa obra (?) – e porque não há meio termo entre odiá-la ou amá-la.

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Uma diversão honestamente imbecil

“Wet Hot American Summer” saiu há 16 anos e foi massacrado por público e crítica. Mesmo esgotando quatro sessões ao ser exibido no Festival de Filme de Sundance, o filme não conseguiu um distribuidor para que pudesse passar nos cinemas. Tendo custado quase dois milhões de dólares, foi vendido meses depois para a USA Films em um contrato que pagou somente $100.000,00 pelos direitos de distribuição. Enquanto os produtores tomaram um prejuízo milionário pelo filme, a USA Films ainda conseguiu tirar um troco, depois que “Wet Hot” fechou sua bilheteria em quase $300.000,00.

O público não foi ver, e a crítica, no geral, preferia não ter visto. O principal problema do longa, como apontou Roger Ebert à época numa crítica destruidora em forma de música, residia no fato de “Wet Hot American Summer” ser uma paródia de filmes de acampamento com adolescentes tarados – os quais, por sua vez, também eram paródias de filmes de acampamento tradicionais. Assim sendo, “Wet Hot” queria ridicularizar algo que já era ridículo. Assim, alienou (imensa) parte da audiência, caindo em um limbo de filmes que nem odiados conseguem ser.

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Mas não por todos. Enquanto um grupo esculachou o filme como trabalho (e outros como hobby), “Wet Hot American Summer” gerou um contentamento instantâneo no público que compunha seu nicho. Alguns críticos pontuais de grandes revistas, como a Entertainment Weekly e a Newsweek, apontaram que o filme era incrivelmente idiota, mas apaixonante e muito divertido.

E aqui temos as três palavras mais importantes para quando falamos sobre “Wet Hot American Summer”: diversão, paixão e, certamente, idiotice. Tendo desde latas falantes a cenas de sexo quase explícito sem qualquer sentido, o filme tentava exacerbar os absurdos das produções que parodiava para efeito cômico, mas sempre fazendo isso com mais alma do que a média das paródias que vimos – e vemos.

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Isso se dava principalmente ao elenco envolvido, composto por estrelas de calibre maior: Amy Poehler, de “Parks & Recreation”; Paul Rudd, de “Homem-Formiga“; Bradley Cooper, de “Sniper Americano“; Molly Shannon, de “Eu, Você e a Garota que Vai Morrer“; Elizabeth Banks, de “Power Rangers“; e H. Jon Benjamin, dublador do protagonista em “Archer” são só alguns dos atores muito famosos hoje que compunham o elenco. Mesmo que parte deles não fosse tão relevante para a indústria na época, todo o talento deles já é visível em cena, e o fato de estarem obviamente se divertindo em cena transpassa a tela e nos atinge em cheio – se você estiver aberto à babaquice que inevitavelmente faz parte desse processo.

Essa química em cena é o que segura “Wet Hot American Summer” e fez com que ele ganhasse status de cult, em vez de só mergulhar rumo ao limbo dos filmes que ninguém viu. Ao ser adicionado ao catálogo da Netflix, a produção ganhou uma sobrevida, sendo descoberta por um novo público que jamais ouvira falar dela (incluindo este que vos fala) com tanta força que ganhou uma série derivada.

O espírito (bizarro) do acampamento

Como não poderia deixar de ser, a Netflix logo se aproveitou do status cult da produção e do seu elenco impressionante para criar uma série derivada, “Wet Hot American Summer: First Day of Camp”. Seguindo a ideia de absurdos proposta pelo original, “First Day of Camp” se passa no início do verão mostrado no filme, de forma que todo o elenco interpreta os mesmos papeis um ano mais jovens – embora todos os atores e atrizes estejam quinze anos mais velhos, e sem um grão de maquiagem no rosto.

Na lógica de uma prequela, a série explora, por oito episódios, o histórico de seus personagens, respondendo perguntas que nunca fizemos – como um cozinheiro virou uma lata falante, por exemplo. Acrescentando ao elenco nomes como Michael Cera (“Arrested Development”), Jason Schwartzman (“Scott Pilgrim Contra o Mundo”), Chris Pine (“Mulher-Maravilha“), Jon Hamm e John Slattery (ambos de “Mad Men“), Josh Charles (“Unbreakable Kimmy Schmidt“), Kristen Wiig (“Caça-Fantasmas”), “Weird Al” Yankovic e Jayma Mays (“Trial and Error“) – ufa -, a série não abriu mão de toda a sua idiotice, reconhecendo de onde saíra, mas realçando o quão confortável seus atores estão ali.

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Não é sem motivo. Enquanto parte do elenco se conecta através do programa de variedades “Saturday Night Live” (do qual Amy Poehler e Kristen Wiig, além de Tina Fey, já fizeram parte), outra parte se esbarrou por outras comédias e produções do canal NBC – como Josh Charles e Jon Hamm, ambos já tendo feito parte de “Unbreakable Kimmy Schmidt”… A qual é uma série co-criada por Tina Fey. Em outras palavras, estão todos em família, tendo se conhecido em outros acampamentos.

Essa paixão pela imbecilidade que estão fazendo de corpo e alma ganha mais corpo em “First Day of Camp” principalmente na trilha sonora. Enquanto o filme original trazia clássicos dos anos 80, como “Juke Box Hero”, do Foreigner, “Beth”, do Kiss e “Jane”, do Jefferson Starship, a série contou com várias músicas originais compostas para o programa. Dentre elas, se destaca a incrível “I Am a Wolf, You Are the Moon”, que você poderia jurar que era de algum clássico da Sessão da Tarde.

O futuro do acampamento

Assim como “Arrested Development”, a glória de “Wet Hot American Summer” também é a sua desgraça: o sucesso de suas estrelas. Se “Wet Hot” é o que é, é por causa de seu elenco – o qual, entre estrelar filmes da Marvel e produzir/atuar/escrever séries e filmes de comédia, tem dificuldade de alinhar suas agendas para dar continuidade a história. Além disso, o nicho extremamente específico da série dificulta qualquer progresso significativo na conquista de público. Considerando como a crítica repetiu o número de 2001 em 2015, quando a série estreou, e, no geral, destruiu “First Day of Camp” – ou por não entender a proposta da série ou por simplesmente não curtir mesmo.

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De uma forma ou de outra, a Netflix surpreendeu a todos com o anúncio de “Wet Hot American Summer: Ten Years Later”; de alguma forma os custos de produção compensaram e a história ganhou mais um fôlego na Gigante Vermelha. Contudo, o futuro é sempre negativo para produções dessa magnitude: quanto mais atores famosos, mais difícil é conciliar as gravações – “Sherlock” que o diga. Ainda assim, acabando agora ou tendo novos episódios a cada dois (ou dez) anos, a única certeza é que “Wet Hot” vai continuar queimando na memória e na afeição daqueles que, como eu, gostam muito de uma idiotice honesta, modesta e bem feita.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.