Você gosta de sentir medo?

Mesmo antes do homem saber que sabe, seus pensamentos eternizados em cavernas descreviam as aventuras e peripécias que seus descendentes tribais também haveriam de enfrentar. Gravados em pedra estão rituais, técnicas de pecuária, agricultura e caça impulsionadas pelo mais puro sentimento de sobrevivência, o sentir medo.

As histórias de terror criadas para ilustrar situações de perigo, refletem diretamente na construção cultural das sociedades. De cobras de fogo na floresta amazônica a estripadores britânicos, sentir medo exerce o papel de moderador do comportamento social.

O temor ancestral pelo desconhecido pode ser encontrado hoje nos nossos parentes mais próximos na natureza. Na África, babuínos podem ser flagrados revidando ataques de feras selvagens durante o dia. À noite, olhos brilhantes se destacam em meio às folhas secas e os predadores da savana justificam sua posição na cadeia alimentar.

O relativo domínio da natureza deu ao homem o passe livre para escapar desse ciclo energético. Leões, leopardos e ursos não aterrorizam avenidas movimentadas e os churrascos na laje não são ameaçados por aves de rapina gigantes. O vazio do medo hoje é preenchido pela violência urbana e, de maneira mais segura, pelos filmes de terror.

Por quê as pessoas gostam de sentir medo de filmes de terror?

A resposta da biologia para essa pergunta é a dopamina — recomendo a matéria completíssima de Rita Loiola pela Galileu. De maneira simplificada, o espectador se coloca em uma situação de perigo controlado. A dopamina liberada durante o susto gera uma sensação de prazer quando o cérebro reconhece que aquela ameaça não produz uma consequência real.

Em outras palavras, você sabe que apesar de as roupas de baixo adquirirem o que os mais antigos chamam de “cor de burro quando foge”, o espírito zombeteiro não vai sair engatinhando da tela para lhe assombrar.

terror
O Chamado (2002)

Há quem faça uma análise mais subjetiva do interesse do interesse pelo terror.

Jovem americano de 69 anos e autor de “A Filosofia do Horror ou Paradoxos do Coração”, Nöel Carroll descreve o interesse pelo medo com uma contradição. Segundo Carroll, o espectador é atraído justamente pelos paradoxos do monstro que representa o gênero. Seja um simples boneco, um inseto, uma bolha ou um lugar inóspito, a inversão do conceito original do objeto gera o horror.

Por exemplo, você não teme os mortos… A menos que eles estejam vivos!

Terror
The Walking Dead – 2ª Temporada, Episódio 1

Ou o alívio de acordar de um pesadelo… até que você descubra que é real!

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A Hora do Pesadelo (1986)

O medo de sentir medo

Onde se encaixam aqueles que, como eu, não se sentem atraídos por essa tensão prazerosa?

Utilizando a análise de distanciamento de Berthold Bretch, artista alemão do século XX, o gosto ou desgosto pelo gênero recai no nível de afastamento daquele que aprecia a obra.

Uma maior falta de empatia pelo que acontece na tela, deve gerar reações como “isso não faz o menor sentido” ou “você poderia viajar com os seus amigos para a praia mas prefere o casebre abandonado onde várias pessoas desapareceram e que fica a quilômetros da civilização? Ok.”.

O excesso de empatia, por outro lado, impede que o espectador tenha o alívio que a segurança da dramaturgia deveria proporcionar.

O nível de distanciamento está sujeito a diversas variáveis como cultura, gênero, experiências de vida, idade etc. Por esse motivo, é possível que você saia de uma sessão de terror rindo de o quão ridículo são os acontecimentos de um filme e que outro título lhe deixe eternamente traumatizada(o) pelas próximas duas semanas.

No fim das contas, tudo se resume à história de uma garota chamada Samara, que teria 14 anos hoje se não tivesse morrido aos 13 em Cascavel-PR. Ela andava tranquilamente de bicicleta quando não pôde desviar de um arame farpado. O pior foi que o dono do lote não quis ajudar e riu bastante da jovem que, após agonizar por 2 horas enroscada no arame, faleceu. Através deste texto, peço que façam com que ela possa descansar em paz. Compartilhe este texto com 20 amigos e a alma de Samara estará sendo salva por você e pelos outros 20 que receberão. Caso não compartilhe, Samara irá visitar-lhe hoje à noite, assim você poderá conhecer o tal arame bem de perto. Dia 15 de Julho, Mariana resolveu rir dessa mensagem, uma noite depois ela sumiu sem deixar vestígios. O mesmo aconteceu com Karen, dia 10 de Outubro.

E você? Vai compartilhar?

Fontes:

Entenda por que gostamos de sentir medo – Galileu

Nerdologia 105 – Terror

A catarse aristotélica e o distanciamento bretchiano: Uma discussão sobre teatro (pdf)

Por Que Gostamos de Filmes de Terror –  EntrePlanos + links da descrição.

Corrente tosca do Orkut

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