Resenha | Você (2018) – uma obsessão original Netflix

A obsessão é um tema que já foi retratado algumas vezes no cinema e na tv, e seja lá qual for o verdadeiro motivo que desencadeou esse sentimento e as ações que vieram a seguir, a forma como a história é levada acaba por fazer a diferença no fim das contas. “Você”, a nova série da safra de produções originais da Netflix, chegou em dezembro de 2018 para compartilhar mais uma história sobre até onde a obsessão – ou a loucura – conseguem levar alguém a uma verdadeira jaula.

Título: Você (“You“)

Criadores: Greg Berlanti e Sara Gamble

Ano: 2018

Pipocas: 7/10

Joe (Penn Badgley) é o gerente de uma livraria. Um cara de aparência simples e que se mostra extremamente inteligente ao decorrer dos dez episódios da série. Ele busca mostrar para Beck (Elizabeth Lail) o quanto ele realmente é o cara certo para ela, afinal, ele faria tudo por amor. Esse é um tema bastante recorrente na adaptação do livro de Caroline Kapnes, que tenta debater, do ponto de vista de Joe, até onde ele iria para “proteger” e provar o amor que ele sente por Beck, passando muitas vezes de limites que ele mesmo se considerava incapaz de ultrapassar.

A série lida com a obsessão de Joe do ponto de vista dele próprio. Ele praticamente narra tudo o que vai acontecendo ao longo do percurso – salvo as ocasiões em que a série resolve fazer uma ligeira troca e passear um pouco pela cabeça de Beck em alguns dos seus momentos mais pessoais – para ajudar a ampliar um pouco mais a história da personagem e entender alguns de seus conflitos. Isso é um recurso muito bacana já que nós temos acesso direto aos pensamentos de cada um deles – na grande maioria os de Joe, já que Beck só tem mesmo dois momentos em que a série caminha pela perspectiva dela, em dois episódios distintos – e isso ajuda a transparecer algumas características deles.

Penn e Elizabeth foram duas escolhas muito boas. A química dos dois é instantânea na tela, o que traz muita credibilidade para o que está sendo mostrado, tirando o fato de que ambos mandam muito bem em seus respectivos papéis, conseguindo caminhar bem pelos momentos mais casuais até os de explosão dos personagens. O que também fica bacana de ver é a caracterização da personalidade de Joe, que em vários momentos beira um tom mais cômico sem perder a seriedade do que está se passando na cabeça dele.

Sem sombra de dúvidas o maior acerto de “Você” é desenvolver a relação entre os seus personagens principais. Não existem sobras aparentes quando falamos das intenções deles, muito menos vácuos. Quando estamos dentro da cabeça de Joe, recebemos exatamente as informações que ele precisa carregar para lidar – ou não – com o que está acontecendo ao redor dele. Em momentos distintos conseguimos ver repetidamente o confronto interno de seus pensamentos, intenções e valores quando ele acredita ser necessário interferir para assegurar que Beck permaneça segura e se mostra um ser extremamente calculista, mesmo que uma ou outras das suas ações mais sérias acabem sendo geradas por impulso.

Para alguns dos coadjuvantes, conseguimos até absorver algumas coisas, mas tendo em vista que todos os outros personagens da história são basicamente complementares para auxiliar no andamento da narrativa – tirando talvez Paco (Luca Padovan), que já tem um pequeno arco próprio que é usado para fazer um certo paralelo com quem Joe foi no passado. Esse paralelo é interessante porque é possível ver um ciclo entre os personagens de Joe, Paco e o Sr. Mooney (Mark Blum). Uma relação que se assemelha a de um mentor, sempre ensinando quem viria a ser o seu sucessor, mas que não se concluiria necessariamente.

Em um determinado momento, a série também adiciona uma segunda ideia de obsessão com a  melhor amiga de Beck, Peach (Shay Mitchell), que não acompanha os mesmos passos do que vemos de Joe. Isso acaba dando ainda mais destaque para a seriedade do que se passa na cabeça do personagem. É interessante ver que em algumas cenas é feita uma comparação dos sentimentos de Joe com o vício de drogas e como a dependência causada por esse vício consegue aprisionar o personagem naquela condição.

O grande problema de “Você” está no número exagerado de coincidências e facilitações de situações que nunca parecem terminar. Chega a ser absurdo a forma como alguém como Joe, que passa a ideia de entender muito bem como stalkear, mas que vive se colocando em posições geográficas que seriam impossíveis de não serem notadas – as ruas de Nova Iorque podem ser escuras, mas não tem condição desse cara fazer tudo o que faz e ninguém nunca notar. Talvez se a serie fosse dois episódios mais curta, ela conseguiria não ser tão cansativa, mesmo que sempre traga alguns elementos novos para movimentar a história.

você

Num contexto mais geral, a série inicia como um produto meio genérico, até mesmo previsível, sem desencadear nada de realmente diferente de outras histórias sobre obsessão que já foram contadas algumas vezes. Dessa forma, até a metade, único grande mérito de “Você” são os seus personagens e como os conflitos são demonstrados e abordados. Mas são nos últimos três episódios que ela traz com peso tudo o que mostrou até o momento e consegue quebrar um pouco da repetição de situações a ponto de entregar, principalmente no seus momentos finais, alguma animação.

 


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Jardas Costa

PontoCaster, fã da DC e da Marvel (não DC vs Marvel), apreciador de um bom kalzone e sempre esperançoso por toda obra que está por vir, porque todo bom filme é uma boa forma de se compartilhar a vida.