Análise | Por que os vilões secundários em Star Wars são mal aproveitados?

Star Wars é, sem sombra de dúvidas, uma das maiores franquias das últimas décadas; com 40 anos de estrada, a saga conquistou fãs e admiradores em todo mundo. Mas por que ainda toleramos alguns erros que a série insiste em cometer? Dentre eles, talvez o mais incômodo dentre aqueles que tanto aqueles que não gostam da franquia quanto os fãs podem apontar com bastante segurança: a má utilização dos vilões secundários na cinessérie.

Relacionar o termo “vilão” com a saga Star Wars remete qualquer indivíduo ao majestoso e imponente Darth Vader, com seu sabre de luz vermelho e sua magnitude ao controlar a Força. Contudo, dentre os nove filmes lançados até então, apenas três contam com a presença do vilão em tempo integral e outros dois trazem de forma saudosista a imagem do vilão por durante um curto período de tempo.

boba fett and captain phasma

A saga Star Wars se mostra cada vez mais competente para apresentar vilões profundos, intensos e claramente aterrorizantes ao longo de sua jornada, mas ainda comete o mesmo erro ao desperdiçar o potencial de seus vilões secundários e abandoná-los ao longo de seus filmes.

Os vilões secundários da saga: Primeira Trilogia

Os primeiros filmes de Star Wars traziam arquétipos muito bem definidos, traçando toda a trajetória da Jornada do Herói e usando de todos os recursos que acentuassem a caracterização de suas personagens. Transitando entre o vilão e o anti-herói, Boba Fett foi um deles, conquistando o público por ser uma lenda dentro do universo de Star Wars.

Porém, muita da admiração criada pelo personagem foi criada sem embasamento, tomando como verdade aquilo que fora dito por outros personagens, mas que não fora mostrado com tanta maestria. Como espectadores, nós acreditamos que Fett era uma lenda entre os caçadores de recompensa e permanecemos nessa ilusão até a chegada das HQs e do possível filme contando a origem do herói.

É notável que o tempo em tela possui grande peso, especialmente quando se trata de personagens secundários e que trazem um papel pontual no enredo, contudo, Boba Fett fora o primeiro vilão cujo protagonismo cresceu através da especulação. Embora ainda haja teorias que questionem a morte do personagem, fica mais do que claro que a oportunidade de ver o jovem mandaloriano em ação foi desperdiçada ao longo dos três primeiros episódios da saga.

Os vilões secundários da saga: Segunda Trilogia

Com a chegada do CGI e a ânsia dos fãs para conhecer mais sobre o Lado Sombrio da força e suas inúmeras possibilidades, nasce Darth Maul: o sabre duplo, aparência aterrorizante, maestria sobre a Força e com excelente domínio de sua arma durante às lutas. Darth Maul foi (e por enquanto ainda é) o vilão caricato que mais teve repercussão após Darth Vader em todos os filmes de Star Wars, e um dos vilões secundários mais assustadores da cultura pop.

Todavia, quando analisamos a presença do vilão, é possível concluir que todo o seu potencial foi reduzido aos minutos de luta que desencadearam sua morte. Não há quem duvide que Darth Maul tenha sido um grande Sith, mas pouco se sabe sobre o vilão. Assim como Boba Fett, muito é especulado sobre Darth Maul e cabe aos fãs recorrer ao universo expandido para conhecer, através das novas HQs mais dessa figura tão simbólica. É inegável que todos esperavam ver muito mais de Darth Maul em ação, mas esse sonho morreu de forma e precisa tão rápida quando o corte de um sabre de luz.

Star Wars e seus vilões secundários hoje

Durante 2015 muito se foi especulado acerca da Capitã Phasma, líder do exército da Primeira Ordem, mas como sendo uma figura de pequena importância para o enredo do filme. Phasma conseguiu um alto posto dentro da academia de stormtroopers, algo que denuncia sua alta capacidade e seu diferencial em relação aos demais combatentes. O instinto de liderança e a imponência de sua personagem fazem com que o espectador trace todo um panorama de sua história e sobre como conquistou tal posto.

Contudo, sua aparição no Episódio 7 é sutil e até mesmo relaxada quando levamos em conta seu valor como vilã dentro da saga. Ao contrário do General Hux, Phasma demonstra estar constantemente em combate, além de conhecer seu exército e as falhas nele existentes. De toda forma, a capitã ainda demonstra grande poder diante das decisões da Primeira Ordem, algo até então visto apenas com Vader na primeira trilogia.

Uma vez que a personagem já fora apresentada em seu auge, é certo de que sua história não será recontada nos cinemas, criando entre o público e o vilão um vazio que exige mais, mas que ao mesmo tempo tem ciência de que aquele vilão não será o principal antagonista e está sendo utilizado apenas como recurso de roteiro (e para vender mais bonecos, claramente).

Esses três exemplos apontam, em cada uma das gerações de Star Wars, a forma como a franquia nunca suportou mais que um vilão icônico, talvez por medo de perder a qualidade e entregar dois personagens sem personalidade ou até mesmo por considerar que os grandes vilões secundários são apenas uma forma do vilão principal escalar e alcançar os verdadeiros objetivos da trama.

Tanto os spin-offs quanto a presença do universo expandido dos livros e HQs tentam tampar a lacuna criada pela má colocação de tais personagens dentro dos filmes, mas será que esse recurso é realmente eficiente quando se trata de uma franquia que alcança um público tão amplo e diverso quanto Star Wars?

Como George Lucas matou seu maior vilão

Após analisar todo o trajeto de todos os vilões secundários de Star Wars, é inegável a percepção de que mesmo que o Lado Sombrio esteja fadado ao fracasso, quem realmente mata os personagens são aqueles que realizam o filme por trás das câmeras.

Após a construção de Darth Vader e a consolidação de seu legado em todo o mundo, George Lucas decidiu elaborar uma nova trilogia para contar aquilo que hoje estamos cansados de ver em filmes de heróis: a historia de origem. No entanto, muito do que vive em Star Wars se dá ao misticismo criado ao redor da saga, na área cinza que permanece após o encerramento dos créditos, deixando que o próprio espectador crie suas teorias sobre personagem X ou Y.

Com a criação da segunda trilogia, George Lucas simplesmente retirou a penumbra que cercava a história do tão aclamado vilão e colocou em seu passado uma trajetória que não faz jus ao personagem, que o coloca em uma posição sem equivalência ao que Vader se tornara anos depois.

vilões secundários

O misticismo da origem do Lorde das Trevas era a grande carta na manga que George Lucas poderia carregar ao longo de sua vida; ao contrário dos demais vilões, Vader jamais seria meramente enterrado e simplesmente esquecido ao longo dos anos. Os episódios 2 e 3 (até os instantes finais) foram o golpe certeiro que derrubaram o esplendoroso Darth Vader nos tentáculos de um Sarlacc.

Darth Vader viria a renascer, enterrando no passado o que a trilogia dos anos 2000 tentou trazer à tona, e mantendo em relevância um dos maiores vilões da história do cinema. Ainda assim, o trato com seu maior antagonista não só contradiz como realça o problema que a saga tem com seus vilões secundários: o limite rotineiramente cruzado ao ignorá-los e descartá-los sumariamente. Resta ver se no futuro a saga Star Wars estará apta a se corrigir ou se continuará escolhendo explorar personagens somente em mídias paralelas em detrimento do desenvolvimento delas em seus filmes.

 


Marília Molinari é graduanda em Letras e viciada em comprar livros. Leitora apaixonada de Ayn Rand e Bukowski, tem preguiça de séries de TV muito longas e não entende muito de tecnologia. Você pode segui-la no Twitter e no Instagram.