Vikings (2013), bárbaros e o valor das séries históricas

Finalizei a primeira temporada de “Vikings” recentemente e a série me levou a ponderar sobre algumas coisas. Atualmente, com o mercado dos seriados em alta, tem-se dado oportunidade para que vários estilos de história tenham seu lugar ao sol. Devido ao volume de produções, a quantidade de séries de qualidade é consideravelmente maior que a de uma década atrás, embora, para se alcançar o sucesso seja necessário um número de fracassos ainda maior.

Produções históricas encenam acontecimentos relevantes em períodos importantes da história da humanidade. Na vanguarda do gênero está “Band of Brothers”, da HBO, que trata dos percalços enfrentados por um esquadrão do exército americano, desde o treinamento até o fim da segunda guerra mundial. A partir desse seriado de 2001, séries históricas ganharam mais destaque e qualidade, em especial as que têm como pano de fundo algum período marcante da história européia como “Roma”, “Spartacus”, “Os Bórgias”, “The Crown” etc.

Embora não tenha feito tanto sucesso quanto poderia, “Marco Polo” também fez uma boa contribuição para os romances históricos nas telinhas. Por mais que tenha um pé nos limites eurocêntricos da cultura, a série foca nos costumes cosmopolitas do império mongol, no sonho de dominância deixado por Gengis Khan ao seu neto Kublai Khan e nas consequências cabíveis às movimentações políticas e sociais da época. É realmente uma pena que o seriado não tenha tido um número sustentável de espectadores. Creio que, em tempos de Jonerys, Marco Polo pudesse satisfazer os anseios dos apreciadores da memória medieval apresentando um pouco da história asiática.

Já “Vikings” fala sobre… bom, é autoexplicativo. O diferencial de “Vikings” é o ponto de vista. Nós crescemos estudando os fatos históricos de Roma, Grécia, França, Inglaterra, etc. A maneira como estudamos, porém, é repleta de viéses. Enquanto “Marco Polo” é, em última instância, uma série sobre o desbravador Marco Polo, italiano, fruto do centro do mundo, “Vikings” cede o protagonismo aos coadjuvantes da História.

Por volta dos séculos IV e V, o contato do povo romano com os bárbaros ganhou um caráter mais agressivo. “Bárbaro” era o nome que se dava a todo o povo não-civilizado, em outras palavras, a quem ainda não aderira aos costumes da sociedade romana, que ativamente escrevia a História que estudamos hoje nas escolas. Por ter sido um povo que valorizava a guerra e por reproduzir costumes pouco… higiênicos, não era surpresa que o império romano fosse receoso quanto a presença dos nórdicos em seu território. Sabemos, historicamente, que quando dois povos muito distintos se encontram, a diplomacia não é a forma de contato mais comum. Isso é muito bem ilustrado na série.

vikings

A primeira invasão víquingue à Inglaterra, comandada por Ragnar Lothbrok, é repleta de misticismos. Como supracitado, o legal de “Vikings” é o ponto de vista diferenciado. Enquanto que em diversas outras produções a religiosidade cristã é sempre mostrada como a correta e eficaz em detrimento das outras, aqui o poder reside majoritariamente no panteão de deuses nórdicos.  Odin, Freya, Thor, Heimdal e outros deuses, são muito “presentes” no cotidiano do povo, assim como as escrituras bíblicas representam um poder invisível, porém sensível, para os cristãos.

Outro ponto que achei fantástico na série – na verdade são duas cenas bem sutis – foi o enfrentamento cultural entre os nórdicos e os ingleses. Na primeira invasão, o grupo de Ragnar é descrito pelos padres ingleses como “monstros enviados por Deus para punir os pecados dos cristãos”. Num segundo momento, eles são descritos como “demônios gigantes enviados pelo diabo”. Essas duas cenas mostram duas características distintas: primeiro que a diferença física entre os dois povos é tão grande que causa estranheza; segundo que esse tipo de “preconceito” racial era fomentado pelas mitologias de cada religião, além, é claro, de ser reforçado pelas fronteiras geográficas.

Como um espectador recente de uma série de 2013, devo dizer que fiquei decepcionado comigo mesmo por não tê-la assistido antes. “Vikings” é o tipo de série que eu certamente recomendo a todos.

 


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Leandro Bezerra

Editor, redator e um serumaninho quase legal.