Resenha: Vergel (2017) e a condução da intensidade pela estética

Essa resenha sobre “Vergel” contém conteúdo para maiores de 18 anos. Não siga em frente se não for o seu caso, e vai fazer seu dever de casa.

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Título: Vergel

Diretor: Kris Niklison

Ano: 2017

Pipocas: 8/10

Narrativas tradicionais tendem a se debruçar sobre uma história e usar todas as ferramentas à sua disposição para esse fim. Do plot twist ao jump scare, a avalanche de termos em inglês que vez ou outra explodem em nossas telas e fones de ouvidos demonstram como a história tem um propósito final de demonstrar um ponto, seja ele narrativo ou moral. Mais raro, contudo, é um filme que busque ser um canal para intensidade de emoções. É nesse último recorte que se enquadra “Vergel”: único, muito intenso e, como a diretora descreveu, “livre”, “Vergel” é uma janela que nos permite sentir um mundo paralelo durante sua hora e meia de duração com sucesso, mesmo que outras partes de sua composição como filme não sejam tão bem sucedidos.

“Vergel” conta a história de uma mulher que não é nomeada durante a trama (embora possamos deduzir seu nome numa troca de emails), interpretada por Camila Morgado. Durante uma viagem de lazer com seu marido na Argentina, o mesmo morre em um acidente, e a mulher passa a estar presa em um pequeno apartamento em um país estrangeiro, refém de uma ligação que finalmente finde a burocracia e permita que ela leve o corpo de seu marido de volta ao Brasil. Enclausurada entre aquelas paredes, a mulher se vê obrigada a se reconstruir em meio ao caos corrente de sua vida.

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O luto é o principal tema do filme. Embora a capacidade destrutiva dele já tenha sido demonstrada à exaustão em diversos filmes e muitas séries, “Vergel” inova exatamente por mudar o ângulo com o qual se vê o luto, apontando-o como um sentimento contraditório: é inevitavelmente triste, mas tem um grande potencial criador em si.

Para demonstrar isso, a diretora Kris Niklison, com seu currículo extremamente variado que inclui desde direção de teatro a espetáculos circenses do Cirque du Soleil, traz uma abordagem estética, quase no sentido plástico da palavra, sempre colaborado para mostrar a tristeza profunda da sua personagem enlutada. Seus quadros são pinturas que retratam cenas longamente estáticas; seus ângulos expandem largamente o apartamento de 38m² da própria diretora no qual “Vergel” foi filmado; seus takes são contemplativos, e suas cores, em tons intensos de amarelo e vermelho, aliados ao verde das plantas da varanda, parecem gritar “vida” enquanto a mulher de “Vergel” contempla os resultados da morte.

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É nesse luto que a mulher se vê absolutamente livre para explorar quem ela é. Quem já passou por qualquer tipo de luto – desde o término de um relacionamento à morte de alguém amado – se encontra em um vácuo de ser após a perda. Uma convivência longa passa a definir, ao menos em partes, quem você é: você se torna “namorado/namorada de X”, “filho de Y”, “melhor amigo de Z”, e quando essa variável se vai, o resultado de nossa identidade pode ser uma incógnita. A mulher de Vergel, presa nesse purgatório de uma espera aparentemente eterna pelo corpo do marido, tenta descobrir quem é além dela mesma. Seria ela uma amante de origami? Será que ela gosta de plantas? Será que ela se sente sexualmente atraída por mulheres?

O filme de fato é livre a explorar essas possibilidades, com uma entrega singular de Camila Morgado. Ela se mostra totalmente ali, seja assistindo apaticamente a um tedioso programa sobre dobraduras japonesas falado em espanhol ou se tocando frente a uma câmera em um ângulo que nada esconde (embora um pouco desfoque, visto que o foco real são as sensações pelas quais a mulher passa, não sua genitália). Todos estes retratos se combinam para criar “Vergel”, permeados por diálogos que pouco acrescentam ou interessam.

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Reside aí, inclusive, o principal problema de “Vergel”: as cenas não trabalham em conjunto de maneira fluida. Os diálogos variam entre rasos e pouco expressivos em suas execuções (salvo aqueles entregues por Morgado com maestria), e por vezes é possível se perguntar se “Vergel” não seria ainda melhor se fosse um filme mudo. Embora o marasmo das cenas seja proposital, o filme caminha em uma tênue linha entre o interesse e a ausência dele, sendo bem sucedido principalmente por sua curta duração.

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Com um senso estético forte e inegável, embora contando com um baixo domínio da linguagem cinematográfica, “Vergel” é um peça de arte que nos faz refletir sobre o luto enquanto contemplamos belas cenas. Construído com muito carinho e paixão, “Vergel” é um bom filme, e uma obra viva e pulsante sobre a morte – uma prova de que das veias abertas da América Latina continuam sangrando arte de qualidade em todas as suas vertentes.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.