Resenha: Um Limite Entre Nós (2016) – Sem Spoilers

“Algumas cercas protegem quem está dentro do que vem de fora

outras são feitas para unir quem está dentro delas”

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Título: Um Limite Entre Nós (Fences)

Diretor: Denzel Washington

Ano: 2016

Pipocas: 9/10

Lançado em 2016 e forte concorrente ao Oscar de 2017 em várias categorias, Um Limite Entre Nós (Fences) é um daqueles filmes que vale a pena você desligar o celular para ver, prestar atenção em todas as legendas, e não tirar os olhos da tela. O filme é a adaptação de uma premiada peça de teatro escrita em 1983 por August Wilson. O escritor, que ganhou um Pulitzer com esse trabalho, morreu em 2005, mas a peça foi estrelada na Broadway em 2010 numa reedição com o mesmo casal de atores como protagonistas, Denzel Washington e Viola Davis. Vale lembrar que ambos foram premiados com Tony’s por suas atuações.

Um limite entre nós

A história contada aqui é a de uma família afro-americana dos anos 1950 formada por Troy e Rose Maxson (Denzel Washington e Viola Davis, respectivamente). Eles moram com seu filho, Cory Maxson (Jovan Adepo) e as outras pessoas que fazem parte do seu círculo familiar são Gabe Maxson (Mykelti Willianson), irmão de Troy , Lyons (Russell Hornsby), filho do primeiro casamento de Troy  e Bono (Stephen Henderson), amigo da família. A história possui alguns arcos que giram em torno do cotidiano deles. Porém, todos os nós narrativos são dados por apenas um fator — a personalidade de Troy.

Um fato curioso é que outros diretores quiseram fazer uma adaptação da peça, porém, todas as tentativas foram embargadas pelo autor original. Ele fazia questão de que o trabalho fosse conduzido por um afro-americano. Sua vontade foi satisfeita tendo Denzel Washington não apenas atuado, mas também dirigido. Perguntado sobre o assunto pelo Hollywood Reporter, Washington afirma que acha que a vontade de Wilson não tinha, necessariamente, a ver com uma questão política ou social, mas de contexto. De fato, apesar de, aqui e ali, questões inerentes à população negra da década de 50 aparecerem, elas não são o foco da trama, apesar de contextualizarem o pano de fundo de todos os personagens.

Um limite entre nós

Uma coisa que chama atenção logo na primeira cena, e segue durante todo o filme, é o fato de se ter a clara impressão de que o que está sendo apresentado é uma peça de teatro. Os cenários são poucos, a maioria das tomadas é longa e, durante os diálogos, dificilmente acontece uma interrupção. Ou seja, apesar de os atores estarem se movimentando, o filme não é construído pelas ações, e sim pelos diálogos, que, aliás, são excelentes. Isso pode afastar um pouco o público que tem o olhar viciado nos cortes rápidos e na constante mudança de perspectiva, porém, esse ritmo dá um ar  muito charmoso de “filme antigo” para a história. A maior vantagem desse ritmo é, sem dúvidas, o holofote que é lançado sobre os protagonistas com atores inspirados em atuações impecáveis.

 Um limite entre nós

Logo na primeira tomada, Troy passa bons minutos falando. Isso já dá uma ideia da centralidade do personagem. De fato, a personalidade do agora lixeiro, mas ex-jogador de beisebol, é expansiva. Uma vez que ele esteja em cena (e ele está em todas as cenas), tudo irá gravitar em torno dele. Não é para menos, Troy é extremamente carismático. Por causa desses traços, Rose se dedica a ser a melhor esposa possível e seus filhos, Lyons e Cory, fazem de tudo para ouvir um “good job, son” — desde convidá-lo para uma apresentação com a banda, até entrar para um time universitário de futebol americano. Porém, os elogios tão esperados não vêm. Troy crê que as suas atitudes e responsabilidade para com os sua família lhe eximiam de ter que demonstrar afeto através de palavras. Assim, entre erros e acertos, jamais poderemos dizer que Troy é um pai ruim, ou um marido ruim, ou um irmão ruim, embora ele seja questionável em todos esses âmbitos.

Em conclusão, a única ressalva para essa magnífica história é que Troy, ao longo da vida, comete falhas terríveis e o seu final pode legitimá-las levemente. Mas, até nesse aspecto, a história se mostra verossímil, já que em nossas vidas, nem sempre optamos por aquilo que é totalmente certo e moral para conseguirmos conviver conosco, com as nossas falhas com o nosso próximo.

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