“Trilogy” (1980): quando Frank Sinatra foi de volta para o futuro

Frank Sinatra talvez seja a voz masculina mais reconhecível do século passado. Em meio aos seus arranjos de big band e as levadas de seus swings, Francis Albert Sinatra saiu de Hoboken, em Nova Jérsei, para se tornar um dos músicos mais famosos, bem sucedidos e referenciais da cultura ocidental. Sabe-se o quanto Sinatra impactou gerações: como ele foi influência para artistas tão diversos como Michael Bublé, Bono, Amy Winehouse e John Legend, bem como o cinema o alçou ao estrelato e a forma que suas releituras de standards e sua marca no jazz o transformaram em lenda. Em outras palavras, muito se sabe como Sinatra moldou o passado, mas pouco se ouve falar de “Trilogy” e sobre como Sinatra foi de volta para o futuro.

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Sinatra: se a palavra “clássico” fosse uma pessoa

Poucos elementos da cultura ocidental são mais tradicionais do que Frank Sinatra. A voz inconfundível e interpretações que se tornaram marcos de sua carreira – como “Fly Me to the Moon”, “My Way” e “New York, New York” – são epítomes das décadas que foram lançadas; se você quer soar ou parecer anos 50/60, você consegue esse efeito com facilidade com duas notas na voz de Sinatra.

Isso definia não só sua música, mas abrangia da maneira como Sinatra era enxergado pela sociedade da época até a forma como ele se postava nos palcos. Chamado de “Ol’ Blue Eyes” – “Olhões Azuis”, por assim dizer -, Sinatra era o símbolo do que a cultura branca gostava de exaltar: caucasiano ascendência europeia, nascido em solo americano, cheio de classe, carisma, charme e valores tradicionais, cantando músicas antigas com seu terno bem cortado. Um homem que a cultura branca queria usar como exemplo, contando com seu dom musical e ignorando seu gênio terrível.

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Musicalmente falando, Sinatra também tinha uma foto no dicionário na sessão “tradicional”. Com suas abordagens de canções muitas vezes já de sucesso, Frank Sinatra emprestava seu carisma a elas e, esporadicamente, as adotava para si. Das citadas acima, “Fly Me to the Moon” teve gravações de Nat King Cole e Peggy Lee, tendo sido gravada pela primeira vez por Kaye Ballard; “My Way” veio da francesa “Comme d’Habitude”, de Claude François; e “New York, New York” saiu de um filme homônimo fracassado – e caiu de paraquedas em “Trilogy”, mas logo mais falamos disso.

O fato é que foi o ar clássico de Sinatra que o alçou às estrelas, e foi também o motivo de sua queda. O final da década de 60 achou uma geração revoltada com a Guerra do Vietnã que buscava liberdade sexual, ruptura com os paradigmas religiosos e com os valores tradicionais da “família americana” – em outras palavras, tudo o que Sinatra representava. A ascensão da música disco, do protopunk e do glam rock nas figuras dos Stooges, Velvet Underground, David Bowie e outros baluartes do caos varreram o mundo da música e, já em meados da década de 70, a cultura disco e as performances chocantes do rock eram muito mais relevantes do que qualquer coisa que Sinatra cantasse.

Apesar das tentativas tristes de se reinventar na modernidade (como você pode ver acima), o presente não se adequava mais a Sinatra; seu último álbum da década de 70 foi lançado em 1974, o que era extremamente significativo vindo de um homem que lançava pelo menos dois a três discos por ano. Pararam de escrever músicas para a interpretação dos Olhões Azuis, e Sinatra não parecia mais ser adequado ao presente. Foi por isso que, em 1979, Frank Sinatra resolveu ir para o futuro.

 

“Trilogy”: reflexões sobre o tempo

Um álbum triplo: um sobre o passado de Sinatra com a música, outro sobre o presente e um último sobre o futuro. Conceitual, “Trilogy” não era nem de longe o primeiro disco de Sinatra com uma proposta narrativa, mas a sua concepção em si tinha ares arriscados. Dito isso, é importante limpar o ar antes de seguirmos: o fato de ser ousado não é garantia de que o álbum seja bom por si só. É marcante, e talvez “inesquecível” seja um adjetivo apropriado graças a sua ausência de qualitativo. A crítica não gostou de “Trilogy”, e até hoje não gosta, principalmente da terceira parte desta empreitada de Sinatra por águas desconhecidas. Ainda assim, apesar de sua qualidade questionável, o disco envelheceu de forma fascinante, tanto pelo momento da vida de Sinatra no qual ele surgiu quanto pelo seu caráter anacrônico e deslocado. Ouvir Sinatra e um coral cantar sobre Júpiter junto aos sons de um sintetizador é como ver um filme de ficção científica antigo: por mais que ele possa não ser objetivamente bom, é adorável enxergar como o passado via o futuro.

Além disso, pelo menos dois terços do disco são inquestionavelmente bons. A primeira parte, “Past”, nasceu sem dificuldades: Ol’ Blue Eyes olhou para seu início de carreira e aqueles clássicos de jazz que todo cantor precisava saber – os chamados standards – e escolheu aqueles que ele cria merecer sua leitura ou releitura – visto que algumas já tinham recebido o “Tratamento Sinatra”, como a veterana querida “It Had to be You”, em 1949. Sinatra se reaproximou destas canções e as selecionou para o primeiro momento de seu disco.

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Sinatra nas gravações de “Trilogy”.

Em “Present”, Sinatra deu o braço a torcer para a música contemporânea com a qual ele se relacionava. “Something”, dos Beatles, “Just the Way You Are”, de Billy Joel, e “Love Me Tender”, do Elvis, foram algumas das canções que Sinatra rearranjou no estilo swing big band, tirando-as do rock – e do mellow pop – para colocá-las no devido estilo da década de 50. Ainda assim, não se sabia que o ouro desta casa estava de fato no cover que Sinatra faria de um filme fracassado em bilheteria. Tomando emprestada a canção-título, Sinatra reinterpretou o hino da cidade que nunca dorme, transformando a música em um sucesso absoluto que catapultou a venda de “Trilogy” e se tornou discutivelmente a música mais famosa de Sinatra.

Foi assim que nasceu “New York, New York”.

Curiosamente, Sinatra se manteve clássico mesmo analisando o “Present”. Era o seu estilo e seu toque – novamente, o “Tratamento Sinatra” – para canções atuais; isso não as tornava clássicas nem fazia com que Frank agora fosse descolado. Era só o reconhecimento de que essas músicas o influenciaram e ganharam sua afeição de alguma forma – sendo “Something” reconhecidamente uma das favoritas de Sinatra da era pós-Elvis da música. Até aqui, de certa forma, Sinatra estava na sua zona de conforto. Até aqui.

“Trilogy”: reflexões sobre o espaço

“Future” é, simultaneamente, o destaque estilístico que define o tema do álbum e o principal motivo pelo qual “Trilogy” foi rejeitado pela crítica à época (e por vezes até hoje). Arranjado pelo grandiloquente Gordon Jenkins, conhecido e por vezes rejeitado pela sua paixão por composições épicas com cordas demais, foi de sua mente que saiu o conceito de Frank Sinatra visitar o propósito de sua obra – uma estranha homenagem póstuma com Sinatra ainda em vida.

É fato que Sinatra já não era nenhum mocinho nessa época; já com seus sessenta e poucos anos, a obsolescência em um mundo que já não mais se comunicava com ele o alcançava a passos largos. Ainda assim, é curioso pensar que Sinatra revisitou e repensou toda a sua carreira enquanto ainda produzia “New York, New York”; era como uma mesura de despedida com a peça ainda em andamento.

Sinatra, em 1980, canta para o maior público da sua carreira: 175 mil pessoas, no Maracanã. Ao ver a audiência, o cantor simplesmente murmurou “meu Deus”,

É exatamente este futuro que dá significado a “Trilogy”. O álbum começa com nosso cantor se apresentando: “meu nome é Francis Albert”, com vozes que o respondem com “Francis Albert Sinatra“. Ele continua dizendo que “eu canto músicas românticas, principalmente à noite, principalmente em salões”, e “Trilogy” todo passa a fazer sentido. Sinatra se apresentar para o futuro é a percepção de que ele provavelmente será um desconhecido para próximas gerações. É o maior cantor do século XX admitindo que mesmo sua fama apoteótica é passageira – e que, de certa forma, já havia passado, pensava ele.

Por mais que “Trilogy” seja um disco categorizado como “pop tradicional”, “Future” faz com que essa afirmação seja um erro. “What Time Does the Next Miracle Leave?” traz a voz de Sinatra intercalada com a resposta de violinos e harpas – “eu tive anos muitos bons” e a música cresce para espelhar seu sucesso -, bem como narrações que fazem a contagem regressiva para o lançamento de um foguete. Sinatra pede um assento à janela do próximo foguete que ia expandir mais uma vez a visão da humanidade – tendo nascido em 1915, Sinatra havia sido devidamente impactado pela chegada do homem à lua.

A contagem regressiva acaba e subitamente somos lançados num cenário de ficção científica; parecemos estar ouvindo a trilha de filmes como “O Monstro da Lagoa Negra“. “What Time Does the Miracle Leave?” se estende por 10 minutos, enquanto Sinatra visita planeta por planeta, considerando Vênus na primavera com sua amada, Uranos sendo o céu e Plutão sendo “o Hades” (com clara afeição pelo drama).

E agora, Francis?

Se isso não fosse experimental o suficiente para um homem que passou a vida cantando clássicos do jazz e do swing, em “World War None!”, Sinatra clama pelo fim das guerras em nome da saúde das crianças. Quando entramos na tríade “The Future”, Sinatra versa sobre computadores e tecnologias futuristas, mas é em “I’ve Been There!” que ele salta ao passado dentro de sua viagem futurista. Ele olha os amantes de coração partido, as “músicas jovens”, boas e ruins, e, do futuro, para todos aqueles que um dia o ouviriam em um futuro-mais-além, faz uma recomendação:

Deixe-se viver, deixe-se amar, deixe-se ir… Eu estive lá, e eu sei.

Na épica “Before the Music Ends”, também com dez minutos, Sinatra descreve sua vontade de voltar a Hoboken mais uma vez e revisitar o garotinho magricela italiano que ele fora um dia, e segue para agradecer a Verdi, Beethoven e Puccini por suas influências nos seus gostos musicais e carreira e ainda pede um último “ataque” a Vegas, para jogar seus amados dados.

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A música morre aos poucos, e “Trilogy” se fecha com uma despedida majestosa. Sinatra já apreciou o impacto que deixou no passado, demonstrou onde estão seus amores no presente e já lançou uma carta na garrafa para o futuro – para que o conheçam. “O futuro mostra sua face apreensiva”, e as vozes interpelam:

Mas e agora, Francis, o que diabos você vai fazer, Francis?

Não mais “Frank Sinatra”. Francis. No futuro, não há mais a glória – principalmente porque a glória não faz sentido se você mesmo não existe mais. Em “Trilogy”, depois de ir ao passado e se lançar de volta para o futuro, Sinatra se despe de si: o seu ar clássico cai sob os sintetizadores e os testes sonoros compostos por Jenkins, as baladas e standards dão lugar para peças longas de dez minutos e nem mesmo “Frank” ele é.

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Frank, uma criança em Hoboken.

Ele foi ao passado para buscar o rapazinho italiano. Encontrou em Hoboken suas raízes, voltou ao futuro e se apegou ao que lhe definia: a música. Nos últimos versos de “Trilogy”, ele canta que quando o ceifador vier puxar a manga de sua camisa, ele estará cantando quando se for.

As vozes, mais uma vez, relembram quem este viajante do tempo é. Mais do que Frank ou Francis Albert; mais do que a glória ou as raízes, ele é um músico – e, de certa, ele é a música. E, assim, o disco termina, 38 anos atrás e dezenas de anos no futuro, enquanto as vozes continuam a chamar “Sinatra… Sinatra…”

Sinatra.

***

Fontes:

45cat, site de registro de música.

You Must Remember This #2: Frank Sinatra in Outer Space.

The Inside Story Behind the Making of Frank Sinatra’s Ambitious and Wacky 1980 Three-Disc Album, “Trilogy”.

“Frank Sinatra, My Father”, livro escrito por Nancy Sinatra.

“Frank Sinatraa complete recording history of techniques, songs, composers, lyricists, arrangers, sessions, and first-issue albums, 1939-1984″, livro escrito por Richard W. Ackelson.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.