Resenha | Três Anúncios Para Um Crime (2018) – quando a revolta é a única resposta possível

É exaustivo se levantar contra tudo sempre. Com a quantidade absurda de informação que recebemos diariamente nos nossos celulares, redes sociais e pela TV (para quem ainda assiste), é emocionalmente inviável que fiquemos perturbados com cada morte, assalto e corrupção anunciada; seria impossível manter nossa sanidade neste processo. Com o tempo, nos tornamos insensíveis, ou ao menos muito mais seletivos quanto ao que deixamos nos afetar: se o crime for no nosso bairro, ou com alguém que se assemelha a um ente querido, talvez o impacto seja mais real. Do contrário, são números: quando 500 mulheres são agredidas por hora no país, 8 mil crianças morrem de desnutrição no mundo diariamente e em média uma pessoa é alvejada por uma bala perdida a cada dois dias na região metropolitana do Rio de Janeiro, é difícil ter vida em nós para chorarmos cada sofrimento que merece nossas lágrimas, e, como sociedade, tendemos ao descaso e a “numerificação” destes seres humanos. Nesse ponto, “Três Anúncios Para Um Crime” é um filme que nos lembra que às vezes a única resposta possível para a apatia é a revolta.

três anúncios para um crime

Título: Três Anúncios Para Um Crime (“Three Billboards Outside Ebbing, Missouri“)

Diretor: Martin McDonagh

Ano: 2018

Pipocas: 10/10

Mildred Hayes (Frances McDormand) perdeu sua filha para um homem que estuprou a menina enquanto a matava e depois queimou seu corpo. Essa é a realidade com a qual a mulher convive diariamente há meses, sem novidades na investigação por parte da polícia e cada vez mais afundada em sua tristeza. Um dia, tem uma ideia: ela aluga três outdoors em uma estrada de sua pequena cidade de Ebbing, no Missouri, com os dizeres “ESTUPRADA ENQUANTO MORRIA”, “E AINDA SEM PRISÕES?” e “COMO ASSIM, CHEFE WILLOUGHBY?”.

Apesar do próprio Bill Willoughby (Woody Harrelson, de “Jogos Vorazes“) levar isso mais como um lembrete de seu fracasso no caso, o esquentado policial Jason Dixon (Sam Rockwell) e o resto da cidade enxergam isso como uma afronta, e assim se inicia uma guerra entre Mildred e a cidade de Ebbing para ver quem cede primeiro: a mãe enfurecida pela perda da sua filha ou uma força policial incapaz de fazer mais do que já fez.

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E essa é uma briga sem vencedores. O filme se dedica a construir um cenário no qual as duas partes estão fazendo o seu melhor, por mais miserável e infrutífero que isso seja. A força policial é limitada em termos de tecnologia, pessoal e mesmo pelas circunstâncias do crime: como efetuar prisões de um crime sem testemunhas, sem suspeitos e com um DNA sem registros no banco de dados? Por outro lado, a mãe não tem escolhas. Não há saídas para o seu sofrimento, o de saber que sua filha adolescente foi torturada de todas as formas possíveis antes de ser ateada fogo. Ela não tem mais como esperar. Ela não consegue mais simplesmente ficar sentada.

A polarização que se dá na cidade é compreensível. O chefe Willoughby sempre foi um policial exemplar e querido por todos, e seu nome em uma sequência de outdoors agressivos afronta cada um dos habitantes de Ebbing, que entende que o chefe faz seu melhor. Dentro dessa dinâmica de aceitação, Mildred enxerga a revolta absoluta como a única resposta possível – e quebra completamente o equilíbrio da cidade, além de várias outras coisas, como fica claro no trailer do filme.

Esse passeio entre o ideal da justiça e o que seus executores realmente são capazes de fazer coloca “Três Anúncios Para Um Crime” em um limiar de frustração potencialmente depressivo, do qual o filme escapa com atuações brilhantes permeadas de um humor inusitado. A Mildred Hayes de Frances McDormand é cínica e seca; não fosse pela situação inimaginável que passa com a perda da filha, dificilmente seria uma personagem suportável. A atuação de McDormand, contudo, compõe uma figura intensa e imprevisível: é impossível saber o que Mildred fará nesta ou na próxima cena.

O policial Dixon também é um personagem curinga dentro da trama. Mental e emocionalmente limitado, suas reações são impulsivas e completamente inconsequentes – em grande parte porque o chefe Willoughby o acoberta devido ao seu “bom coração”. Independente de tê-lo ou não, Dixon é tão caótico quanto Hayes, e funciona como o contraponto à personagem de McDormand, visto que está tão enfurecido contra ela quanto ela está com a polícia.

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Nesse furacão, a atuação de Woody Harrelson como Bill Willoughby traz paz à tempestade. Por mais que tudo esteja em cataclismo dentro de si, Bill não externa. Ele funciona como o meio-termo, compreendendo a frustração de Mildred e tentando consolá-la de alguma forma enquanto tenta controlar a vontade de Dixon de corrigir o erro que lhes são os outdoors. Harrelson condensa nesse personagem a complexidade de ter peso demais sobre os ombros, e as consequências que isso pode trazer.

Os personagens são conduzidos – e conduzem – o roteiro por reviravoltas que, embora imprevisíveis, jamais parecem forçadas. Embora “Três Anúncios Para Um Crime” seja um drama, sua cadência e o número de acontecimentos absurdos que acontece por minuto na (ex-)pacata Ebbing prende a audiência na cadeira do início ao fim da projeção, fazendo seus temas ressoarem bem após seu término, principalmente para pessoas que vivem em metrópoles engolidas pelo crime, ou que se veem inseguras mesmo em cidades pequenas.

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É desta forma que “Três Anúncios Para Um Crime” nos coloca alternadamente na posição de policial e vítima, ambos injustiçados por um sistema insuficiente, ambos mero espectadores no desenrolar de uma violência animalesca. Ainda assim, independente do lado que se assume, “Três Anúncios” ganha sua força ao lembrar que a indiferença é a única resposta inaceitável à violência, por mais que a revolta muitas vezes possa sair pela culatra e alimentar um ciclo de violência sem fim. Seja como for, uma vida perdida jamais deve ser esquecida, até que pelo menos o que chamamos de “justiça” na nossa sociedade se cumpra. Até lá, a revolta absoluta é, muitas vezes, o único e mais efetivo caminho para evitar a injustiça perpétua que é o esquecimento.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.