Transversal #8 – Invasores (ou “Coração Inimigo”)

A ficção científica, quando bem feita, serve para elevar o entretenimento a uma forma de reflexão sobre nossa realidade. Assim sendo, não é difícil que obras dentro deste gênero transcendam sua época e suas mensagens sejam atualizadas muito além de sua criação, e é dessa forma que “1984” ainda é relevante para nós – e, para nosso caso aqui, também é assim que “Vampiros de Almas” (1956) dialoga com a nona temporada de Doctor Who  e com a atual crise dos refugiados.

Vem comigo que a coluna hoje é sobre tudo isso.

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Em 1956, um filme ganhava os cinemas nos Estados Unidos e os corpos dos cidadãos de uma cidade. “Vampiros de Almas” (“Invasion of the Body Snatchers“, “Invasores de Corpos”, em tradução livre) conta a história de uma raça alienígena que começa a invadir a Terra ao assumir os corpos dos seres humanos, de forma que ninguém mais sabe discernir quem é amigo e quem é um invasor sanguinário.

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Enquanto o filme era (e ainda é; vale assistir) excelente apesar de qualquer outra interpretação, quando contextualizamos seu lançamento, uma outra camada se apresenta. No meio do contexto da Guerra Fria, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, o medo comunista nos Estados Unidos era gigantesco, e um senador americano começou a promover, a partir de 1950, uma caça às bruxas que chegava a matar aqueles que possuíam conexões aparentes com essa doutrina da União Soviética. Esse senador era Joseph Raymond McCarthy, o que levou a essa política persecutória ser denominada de “macarthismo”.

Isso acrescentava uma nova camada aos horrores da guerra: o inimigo era invisível. Até ali era fácil identificar um adversário nazista ou aliado através de seu uniforme, mas como ler a inclinação política de um comunista? Como saber se seu vizinho ou mesmo um familiar tramava junto ao governo soviético? Em outras palavras: como saber se seus entes queridos eram “humanos” ou “alienígenas”, e como lidar com o fato de não saber?

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Passado algum tempo estrearia uma série de ficção científica britânica chamada Doctor Who que, 52 anos depois, traria a mesma temática à tona com outra roupagem. Na nona temporada da nova série, o personagem-título teve que enfrentar não uma raça alienígena, mas um conflito que a existência dela propunha. Em “A Invasão Zygon”/”A Inversão Zygon” (em tradução livre), os Zygons, uma espécie alienígena que pode assumir outras formas, tem 20 milhões de indivíduos misturados entre os humanos. No meio deles, que vivem pacificamente, um grupo percebe que é horrível eles serem obrigados a assumir uma forma diferente da sua original para serem aceitos, e decidem declarar guerra – rompendo o cessar-fogo entre Zygons e humanos.

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Enquanto isso, em nossa Terra, o ISIS declara ter infiltrado 4 mil terroristas entre os refugiados dos conflitos no Oriente Médio, e nos Estados Unidos, candidatos republicanos à presidência defendem que o país só aceite refugiados cristãos, mas não muçulmanos, de forma que é difícil não traçar um paralelo entre a série e a realidade. Assim como era impossível distinguir Zygons de humanos, é impossível distinguir um homem trabalhador de um terrorista. É um esforço de deduzir e julgar o caráter de uma pessoa através de sinais que, quando existem, dificilmente somos capazes de interpretar.

Temos quase 60 anos entre 1956 e hoje, mas o tema parece somente ter mudado de eixo, sem perder sua relevância. Como diferenciar um inimigo que é igual a você? Se ele se veste de vermelho? Se ele usa turbante? E todos aqueles que precisam de ajuda desesperadamente mesmo usando turbante?

A abordagem de “Vampiros de Almas” e Doctor Who, nesse sentido, é completamente diferente. O filme apresenta um final de desesperança, e a conclusão é a percepção de que o mal havia se espalhado além das fronteiras. Em Doctor Who, o Doutor – ele mesmo um veterano de batalhas – se opõe ao conflito, fazendo um incrível discurso contra a guerra. Como ele mesmo diz, independente de o quão certo você tenha certeza que está quando dá o primeiro tiro numa guerra, você nunca sabe “quantas crianças serão queimadas, quantos corações serão partidos”.

Não há como se diferenciar um inimigo quando sua oposição é ideológica, o que torna a paranoia algo como um mar em maré alta, cada vez indo mais longe, cada vez se assomando mais perto. Hoje os Estados Unidos se envergonham do macarthismo, pelas terríveis injustiças perpetradas contra pessoas que não cometeram crime algum. Seja a declaração do ISIS verdade ou não, o fato é que ao ver em um turbante um alvo móvel – seja para nossas armas ou para o nosso ódio -, assumimos o risco de incorrer no erro novamente.

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A ficção científica, no seu humilde assento de entretenimento-arte, dá o recado há mais de 60 anos: precisamos lembrar que, independente dos traços que nos desenham, ainda há humanos dentre os alienígenas.

“Tranversal” é a coluna quinzenal de Erik Avilez (vulgo “eu”), na qual ele trata um mesmo tema em diversas mídias.

 

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.