Transversal #5 – Horrores (ou “Tenho Medo”)

O medo é algo pessoal que guardamos sob a nossa capa em dias de chuva. Guardamos próximo ao peito, em um lugar onde antes batia um coração, para que ninguém veja. E isso é algo, por si só, curioso: por que temos vergonha de sentir medo?

Shelley Duval o Iluminado

Enquanto a chuva negra escorre pelas gotas da noite, cogitamos que talvez seja porque fomos incutidos desde bem jovens que coragem é a ausência do medo. Se for este o caso, estamos indo contra anos de evolução dos nossos sentidos e percepções; o medo é essencial para nos alertar de uma situação de perigo e evitar que nos coloquemos em riscos desnecessários. É a nossa maneira primitiva de responder ao que nos cerca e que procura nos ferir.

Pés pisam em poças sem se molharem, e nos ocorre que talvez seja porque a sociedade imagina que está avançada e científica demais para sentir medo de coisas que não consegue tocar – ou que não pode tocá-la de volta. O medo já é bem presente em nossas ruas, em casos urbanos e violência entre nossos muros, então por que deveríamos nos preocupar com terrores impalpáveis?

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Enquanto o corpo disforme se direciona à porta, e a mão à maçaneta, pensamos que a razão disso pode ser algo interno: nós não queremos admitir impotência. Seria aterrorizante admitir que há coisas contra as quais não podemos nos proteger. Ao nos recusamos a mexer em aparelhos eletrônicos na rua e a passar por vias desertas em horários impróprios, dizemos para nós mesmos que a precaução nos livrará de todo mal, amém. Mas há ameaças contra as quais nós nunca poderemos nos proteger; para as quais nossa cautela não será mais que um simples obstáculo.

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Então enquanto a mão vira a maçaneta da sua porta, sem emitir nenhum barulho, percebemos que sempre haverá horrores para todos os seres humanos enquanto viverem. Os fantasmas das violências sofridas, os zumbis dos erros que cometemos e os vampiros de pessoas que sugam nossas energias sempre estarão lá, à espreita, olhando por entre as frestas dos muros que construímos, procurando a melhor maneira de chegar a nós.

E se você não acredita neles, não tem problema. Eles acreditam em você.

Olá.

“Tranversal” é a coluna quinzenal de Erik Avilez (vulgo “eu”), na qual ele trata um mesmo tema em diversas mídias.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.