Transversal #3 – New York (ou “O Menino da Porteira”)

A cultura ocidental fundou vários mitos ao longo de sua jornada. Considerando o fim da Segunda Guerra Mundial e a mudança definitiva de eixo do mundo da Europa para (os Estados Unidos da) América, as indústrias musical, cinematográfica e, posteriormente, televisiva criaram um novo imaginário popular. No meio desta mitologia moderna, capitaneada pelo “American Way of Life”, poucas lendas se destacam mais do que a lenda de uma cidade: Nova Iorque.

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O Mito Nova Iorque tem todos os fatores que constroem um grande mito: inicia oprimida, se rebela, cresce e prospera, é atacada e quase destruída por um grande inimigo e depois renasce das cinzas – marcada, mas gloriosa como nunca. Poderíamos estar falando de Uma Nova Esperança/O Império Contra-Ataca/O Retorno de Jedi, ou talvez da biografia de Johnny Cash, ou mesmo da saga Senhor dos Aneis, o que somente demonstra como a cidade hoje vive e respira tanto quanto qualquer uma dessas figuras pop.

As muitas retratações da cidade marcaram profundamente o imaginário coletivo, de forma que hoje é difícil ter uma pessoa que tenha acesso à cultura que não reconheça Nova Iorque ao ver imagens da Times Square ou do Onze de Setembro. Parte da arte e conquista desse fenômeno é como ele apela para todos de todas as formas: a “New York, New York” de Sinatra te chama para despedir-se dos anos 50 sem jamais deixar a Grande Maçã, visto que Alicia Keys canta que é na “selva de concreto onde os sonhos são feitos” que você vai se sentir novo em folha.

Caso você prefira ver do que ouvir, aos 10 anos você via Macaulay Culkin vivendo a vida que você queria no Natal enquanto é ajudado por tudo e todos. Ao chegar aos 20 anos, você queria sentar e tomar um café no “Central Perk” com os melhores amigos (que se bancavam por magia, aparentemente) que você nunca teve ao assistir “Friends”. Aos 30, talvez você se identifique mais com Carrie e suas amigas em “Sex and the City” ou torça para times como New York Giants e New York Mets enquanto reconhece ruas e avenidas às quais jamais foi.

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Mesmo enquanto escrevo isso, fico impressionado de perceber que nomes como Brooklyn, Manhattan e Bronx me são familiares. Também não deixa de me ocorrer quantas crianças e jovens, de norte a sul do nosso próprio país, veem estas demonstrações e sonham elas mesmas estarem perdidas em Nova Iorque sendo auxiliadas por velhinhas loucas em praças, ou pulando em um piano gigante, ou quem sabe lutando contra um monstro gigante enquanto filma toda a ação em primeira pessoa… E quantas dessas crianças e jovens vão se frustrar por nunca conseguir sair do seu próprio país, quanto mais ir à “New York”.

Em pleno 2015, após 70 anos de predomínio estadunidense e com o dólar passando quatro reais, se entregar pelo fascínio à Cidade que Nunca Dorme como insetos à lâmpada é muito mais fácil do que questionar o porquê de você “querer fazer parte dela” – e se é verdade mesmo que “se você conseguir se dar bem lá, se dará bem em qualquer lugar”. Não sei. Tendo a achar que, embora seja (aparentemente) uma cidade interessantíssima, há lugares muito mais difíceis de se sobreviver no mundo do que Nova Iorque. Mas eu posso estar errado também. Só fui à Nova Iorque toda a minha vida, embora nunca tenha posto os pés lá.

“Tranversal” é a coluna quinzenal de Erik Avilez (vulgo “eu”), na qual ele trata um mesmo tema em diversas mídias.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.