Coluna | Transversal #19 – As Fênix Estão Mortas: é possível recomeçar algo?

Diz a lenda que durante aquela época mitológica que unicórnios e dragões povoavam a Terra, as fênix (ou fênices, se preferir) também davam o ar de sua graça ao planeta. Eram pássaros de fogo os quais as lágrimas tinham propriedades curativas, e eles ainda possuíam a incrível habilidade de explodir em chamas e renascer de suas próprias cinzas toda vez que morriam. No conto, um dos grandes magos das lendas – o qual, aqui, podemos fingir que era Merlin – contava com um exército de fênix para ajudá-lo na parte mágica do combate. Durante uma batalha particularmente difícil, Merlin teria invocado essas aves para auxiliá-lo, ao que seu assistente, desolado, respondeu somente que “as fênix estão mortas”. Se as criaturas imortais morreram, o que resta de esperança para os mortais?

recomeçar
Uma fênix nas “Crônicas de Nárnia: O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupas” (2005).

Renascer das cinzas e recomeçar um projeto é uma tarefa mais difícil do que o começar pela primeira vez; é mais fácil iniciar exercícios na academia do que voltar à academia, principalmente porque o frescor da novidade não tem o peso de fracassos anteriores. Da mesma forma que começar o primeiro namoro será mais fácil e menos ressabiado do que iniciar o quinto, ou que o reboot da sua franquia favorita vai ter que trabalhar dobrado para conseguir o mesmo gás que o primeiro filme tinha naturalmente.

Quando olhamos a franquia “Homem-Aranha” no cinema, por exemplo, é inegável que “O Espetacular Homem-Aranha” tinha um desafio duplo no seu lançamento. Além de precisar ser uma fita boa, como qualquer outro filme, ele ainda precisaria ser melhor do que a trilogia de Sam Raimi que o precedeu. A comparação – inevitável, independente do que digam – tornava o complexo em difícil, e eventualmente o reinício do Teioso fracassou nas duas frentes, morrendo um fim indigno em um terceiro filme que nunca veio.

Quando o Homem-Aranha viu a bilheteria e o índice de aprovação desse filme.

Guardadas as proporções, não deixa de ser o que as bandas que se reformam precisam enfrentar. Embora o motivo financeiro normalmente seja a principal razão para que elas se reúnam e tentem uma nova chance de sucesso, muito mais difícil do que ganhar dinheiro é ser relevante depois da sua época – mesmo sendo 10, 20 ou 30 anos depois do seu apogeu. São poucos os grupos que são capazes de arrebatar multidões não só pelo peso da nostalgia, mas por ainda terem algo a dizer para um público que, de diversas formas, não é mais o seu. Às vezes o sucesso não volta; às vezes as fênix simplesmente morrem.

As fênix morrem porque nós voltarmos a sermos quem nós éramos não garante os mesmos resultados que tínhamos à época, da mesma forma que voltar para a cidade natal não faz necessariamente com que nos sintamos em casa novamente. Um reboot (imaginado e provável) de “Harry Potter” dificilmente vai levar os antigos fãs mirins de volta para Hogwarts, por estarem em um outro momento e, efetivamente, serem outras pessoas; o Rouge e as Spice Girls se reunirem em pleno 2018 pode repetir o sucesso comercial que elas tiveram há quase 20 anos, mas dificilmente vai ser capaz de mudar a cultura e queimar eternamente novas músicas nas nossas cabeças como fizeram com “Asereje” e “Wannabe”, respectivamente; se “Arquivo X” e “Breaking Bad” voltassem para sua temporada um com novos atores, seria desafiador manterem relevantes, mesmo que fossem boas – vide a recente “Macgyver“, por exemplo. Às vezes as fênix morrem.

Macgyver: bom remake, jamais vai ter o impacto da original.

Inclusive, considerando que as pessoas, o momento e o público nunca são os mesmos, vale pensarmos se é possível de fato recomeçar algo, ou se recomeços são só um novo começo temperado com nostalgia. Talvez o mais preciso seja dizer que as fênix sempre morrem, e que o que renasce das cinzas – quando renasce – de forma alguma é o mesmo animal. Das cinzas sempre saem novas criaturas, com novas experiências e novas possibilidades – o que pode ser assustador e animador ao mesmo tempo. Dessa perspectiva, é impossível realmente recomeçar qualquer coisa.

Dito isso, bem-vindo e bem-vinda: este é o recomeço da Transversal.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.