Transversal #18 – A Primeira Geração do Mundo

Temos um processo todo nosso como humanidade de acreditar que somos desbravadores absolutos da vida. Tendemos a achar que somente nós sentimos daquela forma, e que ninguém mais na longa face da Terra compartilha aquela visão de mundo e aquelas aspirações, e não há meme barroco que nos faça realmente desconstruir essa ideia.

Em outras palavras, por não vermos mais ninguém com a mesma percepção que nós ao nosso redor, nos sentimos os descobridores de uma nova realidade; sofremos, enfrentamos a vida e os amores como se fôssemos a primeira geração do mundo.

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Uma primeira geração dos anos 80 que marcou primeiras gerações mundo afora.

Nem sempre essa sensação é explicitada. No dia a dia, dentre as diversas coisas que não chegam a nos atingir, nos movimentamos em massa, e, como cardumes, fazemos curvas e atravessamos retas e rotas sem olhar para os lados. Mas há aqueles momentos que vemos algo que nos afeta; todos seguem sua vida normalmente, mas algo em você mudou. “Será só eu?”

Mergulhado em cultura diversa, principalmente por causa do PontoJão, tive contato com todo tipo de material; esta é minha ducentésima postagem neste site. 200 textos depois, estaria mentindo se dissesse que todos os trabalhos que faço, tentando ir além do senso-comum, realmente alcançam este objetivo para todos. Em uma comédia sobre sexo, me vi filosofando sobre a morte; em um filme sobre a Amazônia, discuti céu e inferno, e com um astro rock eu questionei toda minha vida e produção artística. Ainda assim, seria extremamente presunçoso tomar estas reflexões como universais. Para mim, naqueles momentos, me vi como um carro na contramão, tentando levar comigo alguma companhia numa direção que nada tinha de melhor ou pior, mas que era essencialmente diferente.

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Eu sendo minha própria primeira geração por 14 anos.

Mas isso não me tornou único, nem especial. Isso me tornou, naquele momento, atento. Em alguns anos, o que tanto me tocou e mudou a forma através da qual eu via o mundo talvez não encontre mais ressonância senão no passado, e tudo aquilo que me revolucionou se torne relatos em livros de uma história global na qual eu era o centro do meu mundo.

A percepção de que nós somos protagonistas no nosso universo explica o porquê de acharmos que somos a primeira geração do mundo: é lindo cada respirar de ar que não havíamos sentido antes, cada perfume que toca nossa pele e nossas bocas, e cada corte que fere nossas mãos parece queimar como um fogo jamais visto. Nesse cosmo egocêntrico, os parentes que sempre comentam que não paramos de crescer nos incomodam; os filmes e bandas que mudaram nossa vida são totalmente nossas, e mesmos que sejam de outros, não serão como são nossos; os textos que escrevemos são materializações de epifanias que – claro! – mudarão a vida de todos, como a minha foi mudada ao ponto de eu escrever todas essas linhas.

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A primeira geração dos anos 90 que me fez sentir como a primeira geração dos anos 2000.

Isso hoje. Amanhã eu sou o primo mais velho que vê meu priminho já com suas primeiras namoradas e não entende como aquela gota de gente hoje já escolhe a própria roupa. Amanhã eu sou aquele que reviu um filme que adorou na infância e que agora só o aprecia pelo valor nostálgico. Amanhã eu sou aquele que já não alardeia que ouvia Hilary Duff, mas que ainda escuta discretamente algumas músicas quando quer se sentir com 12 anos de novo.

Amanhã eu sou eu hoje.

Não somos (somente) arquétipos cinematográficos, nem somos (exatamente) como os nossos pais, mas nós também não somos os primeiros a nos contradizermos com o passar do tempo, nem os únicos a, subitamente, começar a repetir o bordão de “como o tempo passa rápido” sem nem nos apercebermos da primeira vez que essa “frase de velho” salta dos nossos lábios.

Nós não somos a primeira geração do mundo, mas também não somos a última. Somos individualmente comuns e especialmente normais, mas isso não tira cada uma das nossas primeiras conquistas que já foram conquistadas por outros antes. Eu não preciso ser o primeiro ser humano a fazer o que fiz, mas certamente eu sou o primeiro a fazê-lo sendo eu.

Isso, por si só, é uma conquista de uma pessoa.

Isso, por si só, é a conquista de uma geração.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.