Transversal #17 – Sob a Pele (ou “Além da Nudez”)

Para ler as partes anteriores dos Ensaios Sobre a Nudez: parte 1 | parte 2

O processo de reconhecer que suas roupas só escondem quem você é e posteriormente decidir se expor em todas as suas múltiplas nudezes culmina com o que há sob a sua pele. Em inglês, a expressão “under my skin” – como Frankie cantou – designa algo que conseguiu realmente te afetar, te envolver de uma maneira além da superficial (muitas vezes de maneira negativa). Cicatrizes, pigmentos, mais camadas: o que há sob a sua pele?

Além do seu sangue e suas artérias e todos os elementos biológicos que podem surgir como uma resposta espirituosa para esta pergunta, o que há sob a sua pele? As cicatrizes assim o são porque elas nos marcaram além da nossa pele; elas foram numa camada mais profunda, e não importa quanto tempo passe e quantas idades você complete, a cicatriz permanecerá ali. Aquela palavra que te cortou, ou a partida que te feriu, ou a chegada que te queimou… A sociedade nos pede que sejamos fortes e inabaláveis, mas às vezes esse esforço de se manter inatingível nos fere mais do que as cicatrizes que tentamos esconder.

Você está nu, você está nua. Quem toca suas cicatrizes?

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Mas nem só de tristeza vive o homem, e sob sua pele também há tudo o que você viveu. Assim como tatuagens, que perfuram a sua camada mais externa e te pintam para sempre, suas aventuras, experiências, as pessoas que você conheceu, os amores que você viveu, as amizades que às vezes nem estão mais com você te colorem de uma forma única. A combinação daquelas tintas na sua pele não haverá igual no mundo; os desenhos se repetem, mas a forma que eles foram desenhados em você não podem ser reproduzidos. O seu corpo perfeito – dessa maneira mesmo, que você viu no espelho do último texto – é uma tela feita com suas digitais, e o cavalete sobre o qual ela se sustenta é ímpar.

Você está nu, você está nua. Quem toca as suas cores?

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Foto por Stefano Aguiar.

Ainda assim, mesmo sob a pele temos mais pele; nossas dermes, e camadas de nós mesmos que nem sempre estamos dispostos a revelar, nem mesmo para nós. Os demônios que fingimos não existir, os vícios que dizemos estar sob controle, as peles de outros das quais nos alimentamos – pois o outro ter segredos vis talvez nos faça pessoas menos piores? Ou ao menos tentamos fazer com que seja assim.

O que quero dizer, e o que disse ao longo de três textos, é que temos medo de nos expor – o que é saudável, mas por vezes deveras exacerbado. Temos medo de sermos vistos pelo que nós somos, em vez de por aquilo que exibimos. Somos mais do que nossos causos de Facebook, nossas fotos de Instagram, nossos relatos de Twitter. Somos mais do que relacionamentos em zeros e uns na internet, somos mais do que relacionamentos físicos no dia-a-dia. Somos mais do que nossos planos, nossos sonhos, nosso passado e todos os nossos futuros. Nós somos mais.

Somos uma complexa cornucópia de expectativas e frustrações e anseios e realizações, e vamos além da sociedade e além do individual – ao mesmo tempo. Somos, cada um de nós, um enorme microcosmo, capaz de conter todo o universo, mas incapaz de conter a si mesmo. Isto que você vê, despido a sua frente, é um ótimo começo – mas só isso: um começo. Vá além da sua pele. O que é você?

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Scarlett Johansson em “Sob a Pele”, 2013.

Você está nu, você está nua. Não se vista: deixe-se ser visto.

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O que você quiser. Você é um ser livre.

 

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.