Transversal #16 – Despidos (ou “Ensaio Sobre a Nudez”)

Leia aqui a Parte 1.

O Rei Salomão, dentro da narração bíblica, é o homem mais sábio que já andou sobre a terra. Logo no início do seu livro de Eclesiastes, Salomão, já ao fim da vida, parece bradar “vaidade de vaidades! Tudo é vaidade”. O saber, o fazer, nossas roupas: tudo é apenas o desejo de mostrar ser mais do que nós somos, vestidos dos pés a cabeça de vaidade.

O que isso aponta é que, a partir do momento que você descobre que está trajado de “vaidade de vaidades”, chega a hora de decidir, ou não, se despir. O que se encontra por baixo de sua roupa?

O despir-se é a ação de tornar-se vulnerável. Seja em “Psicose”, quando você não pode ver o assassino se aproximando enquanto você tenta, num banho, se redimir de um roubo; ou descobrir-se mulher de uma forma traumática, como descobriu-se “Carrie” no chuveiro ao descer sua primeira menstruação; ou mesmo 007 em “Cassino Royale”, expondo-se nu, porém de roupas, junto à Vesper Lynd no chuveiro. Despir-se é mostrar-se às últimas consequências, sabendo que naquele momento você não possui proteção alguma contra qualquer coisa que lhe acometa.

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Então não é à toa que sexo se faz nu. Sob este ponto, talvez a intimidade maior do sexo não seja o ato em si, mas essa necessidade de nudez, de expor tudo o que você considera como falho e imperfeito, ao escrutínio de quem divide aquele momento com você. Seja sob os olhos da pessoa, se as luzes estiverem acesas, ou sob seu toque, suas cicatrizes, defeitos e vícios não sairão incólumes dali.

É interessante pensar desta forma, porque sob este prisma não há como se praticar sexo de forma impessoal. Mesmo que você desconheça o nome de quem divide aquela cama e suor com você no momento, ela irá te conhecer melhor do que grande parte das pessoas que transitam em sua vida. Mais do que o “quem”, ela sabe o que você é.

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“Shakespeare Apaixonado”, (1998)

O essencial é que, passado deste momento decisivo de despir-se, o que há do outro lado é a consumação da liberdade – não somente a sexual. Se as roupas são o que a sociedade demanda de nós para que possamos viver em seu meio, se renegamos uma, renegamos a outra. É isso o que ocorre com Supertramp de maneira bem natural em “Na Natureza Selvagem“. Despido de identificação e amarras, e nu de qualquer convenção social, Supertramp se joga ao rio, sem roupas.

Admito que escrever este texto tem se mostrado bem mais difícil do que eu imaginei quando iniciei essa série. Mesmo escrever sobre a nudez exige que olhemos para nós mesmos e analisemos o quanto temos nos desgastado para que nossa nudez não nos confronte tanto. Vamos à academia para que a nudez física nos seja boa de mirar ao espelho; vamos ao psicólogo para que a nossa nudez mental possa ser exposta de forma segura, e vamos às amizades para que possamos ter alguém com quem compartilhar a nudez de nossas emoções.

Aos poucos a vida vai se desenhando como um eterno exercício de descobrir não que estamos nus, como Adão e Eva, mas descobrir que somos nus, e de que tudo o que construímos para nos vestir por vezes só oculta partes de nós que precisam tomar sol para se fortalecer. Creio, ainda assim, que o crucial é que não percamos nossos próprios corpos de vista, e que as vestimentas que usamos para nos proteger do mundo não nos escondam de nós mesmos.

Que nos olhemos no espelho e aceitemos nossa nudez por completo, da forma que viemos ao mundo.

 

 

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.