Transversal #15 – Au Naturel (ou “Introdução à Nudez”)

Quando pensamos na vida em sociedade, o que é primário normalmente se choca com o que é primal. Na qualidade de seres pensantes, somos convocados a conter nossos impulsos para que as relações sociais possam se estabelecer. Não somos mais leões brigando, às garras e aos dentes, pela posição no bando; não somos hienas lutando por um pedaço de carne putrefato; não somos babuínos mostrando os dentes como forma de ameaça, e nossos outros impulsos reprodutivos e agressivos são igualmente reprimidos. Em suma, em sociedade, relegamos o nome de “animais” somente à ciência, e nos vemos mais como sapiens do que somente homo. Deixamos de ser bestas.

Ou, na minha opinião, não.

“Au naturel” é uma expressão em francês que, traduzida, significa “ao natural”. Além disso, ela é usada em outros idiomas, como o inglês, para designar alguém que está nu, ou sem maquiagem – o que por si só já é um ponto importante, embora não central ao meu texto. Em algum ponto da nossa construção como grupos, a maquiagem se tornou um item tão indispensável ao ponto de ser equiparado ao uso de roupas – isso para as mulheres, claro. Na nossa disposição em sociedade, só mulheres possuem falhas e precisam escondê-las. Os homens, aparentemente, são perfeitos.

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Cena de “The Neon Demon”, horror de Nicolas Winding Refn (de Drive) sobre o mundo da moda. Foto: Elle Fanning.

Comparar a maquiagem a vestir-se é um problema ainda maior quando percebemos que a única coisa mais inútil à vida em sociedade do que maquiagem talvez sejam as roupas – esses pedaços de pano que consomem tanto do nosso dinheiro, com suas marcas, cores e referências à cultura pop. Esses tecidos costurados que mais servem para tentar nos agregar identidade do que realmente nos proteger do frio; que em uma pré-estreia de filme de superheroi, nos identifica como fãs, e numa micareta nos identifica como pagantes – ingressos que vestimos.

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Foto do casamento do Jão. A ideia foi minha.

E as roupas, dentro das engrenagens do nosso sistema, logo transcendem o propósito para o qual foram criadas, se tornando uma indústria em si só. Uma indústria que, embora se calque no ideal desejado da beleza, abala autoestimas, cria vícios e destroi suas próprias modelos. Não precisa pesquisar muito para ver que o diabo não veste somente Prada, mas que essa certamente é uma marca em seu guarda-roupa.

Quando isso tudo me ocorreu, perguntei à uma pessoa aleatória porque usávamos roupas. Inicialmente ela riu, meio com deboche e meio com surpresa. Num segundo momento, após levar a pergunta à sério, ela deu de ombros. “Porque seria impossível nos concentrar nas tarefas do dia-a-dia com todo mundo pelado por aí.” Mas por quê? “Seria difícil conter nossos instintos, não pensar nessas coisas.”

Seria difícil conter nossos instintos.

Isso somos nós. Homo e, às vezes, sapiens.

***

Leia Também:

A última Transversal, sobre Babilônia e nostalgia.

A primeira Transversal, sobre o fim.

A decadência humana em foco no Classicologia de “O Que Terá Acontecido Com Baby Jane?”

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.