Transversal #13 – Sendo Outro (ou “Hometown Glory”)

Há algumas semanas, comentei sobre como é difícil a obrigação de ser muitos simultaneamente para dar conta de tudo o que precisamos fazer – e ser – nos tempos de hoje. Acabei me furtando – meio sem querer, meio de propósito – de comentar sobre uma variante possível: não o ser muitos, mas o ser vários, em sequência. Quando ser muitos não satisfaz a nós, ou ao mundo, pouco nos resta senão fugir, e ser todos que pudermos ser no caminho de sermos confortáveis em sermos nós.

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Em épocas negras – ou azuis e roxas – de Orkut, um ditado ganhou os perfis de jovens que tentavam reafirmar uma identidade ainda em formação: “quem se define, se limita”. Embora seja uma frase, sinceramente, bem besta (quem não se limita, mesmo que minimamente, nunca saberá o que é), ela ainda é um bom ponto de partida para que analisemos o que é constante e o que pode mudar em nós.

Lá em “Apenas Amigos” (2005), Ryan Reynolds achava que era por ser um cara acima do peso que a Amy Smart não gostava dele. Ele se torna um cara bem-sucedido – e magro – e retorna para a sua cidade, apenas para descobrir que ele perdera a simplicidade que ela amava. Embora eu tenha resgatado um filme bem mais ou menos, a ótima trilha sonora traz “Hackensack“, do Fountains of Wayne, na qual a letra fala sobre pessoas que deixam suas cidades natais – e deixam, para trás, não só as pessoas que amavam, mas a si mesmos, tornando-se outrem neste processo.

De uma maneira mais radical, Frank Abagnale Jr., à la “O Talentoso Ripley” (1999), resolveu que não queria mais ser ele mesmo em “Prenda-Me Se For Capaz” (2002). O filme baseado em fatos mostra como Frank foi ser piloto da Pan Am, médico e advogado apenas porque quis – e porque os cheques que falsificava eram um plus na carreira de estelionatário, e talvez isto fosse o que realmente importava para o personagem interpretado por DiCaprio. Por outro lado, Ethan Hawke teve que se passar por Jude Law em “Gattaca” (1997, sucesso nas aulas de biologia) para sobreviver em um mundo onde quem ele era não era suficiente.

gattaca

São diversas as situações que nos confrontam, nos fazendo perceber que não somos quem gostaríamos de ser – e, muitas vezes, não há o que se fazer a respeito. O desconforto oriundo disso pode crescer à comichão, aquela coceira incoçável dentro do seu peito que, por muitas vezes, se torna uma dor latente. Para quem você foge ser quando esta dor se expande? Você corre para ser Batman nos quadrinhos, ou para ser um pupilo de Annalise Keating? Você se projeta em cem faces em uma tela de cinema, ou em mil páginas nas folhas de um livro?

Seja como for, da aventura Spielbergiana à ficção científica futurista, e dela até as comédias românticas consideravelmente preconceituosas, a busca por ser alguém que não você mesmo é uma constante na realidade humana. Seja uma procura por ser “mais em forma e mais feliz”, como diria o Radiohead, ou realmente ser outra pessoa, como aponta Del Amitri, a verdade é que somos um planeta, cada um de nós: nossas atmosferas mudam, nossas aparências externas sofrem erosão, e coisas que julgávamos essenciais, como o tempo, passam. Apenas o que nos resta é o nosso núcleo, que define quem nós somos – e, de uma maneira positiva, nos limita de ser quem não queremos.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.