Transversal #11 – Desapercebido (ou “O Prestígio”)

“O maior truque que o diabo conseguiu realizar foi convencer o mundo de que ele não existe”, disse Kevin Spacey em “Se7en” (1995). De diversas formas isso é verdade, e não só para o diabo. Há bens e males que são bem sucedidos em seus propósitos por passarem desapercebidos.

Isso inclui tudo o que você não viu ao ler minhas últimas dez colunas.

Ha.

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A arte de trazer algo já visto e usá-lo para mudar o rumo de uma história é chamado de plot twist. Este artifício, quando bem utilizado, faz a audiência exclamar impressionada: as peças estavam o tempo todo na nossa frente, mas ainda assim não fomos capazes de ver. Como não percebemos, ainda no piloto de How I Met Your Mother, que a Robin não poderia ser a Mãe, visto que se o protagonista a conhecesse no primeiro episódio não poderia haver série?

Como não notamos que Bruce Willis estava morto e que Tyler Durden era o narrador quando nunca o vimos interagir com mais ninguém? Como tantas coisas nos passam desapercebidas bem diante dos nossos narizes sem nos darmos conta?

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Dentro da mitologia de Doctor Who, ainda na primeira temporada da nova série, o Doctor (Christopher Eccleston) explica para sua companheira, Rose Tyler (Billie Piper), como que as pessoas simplesmente não notam a TARDIS estacionada em lugares inusitados: as pessoas só acham o que estão procurando. Se elas não estão em busca de uma cabine telefônica numa viela, elas simplesmente passarão direto. É perturbador pensar em quantas coisas passamos direto ou deixamos de notar por não nos importarmos. Seja aquela ofensa feita a outrem que deveríamos ter defendido; ou aquela pessoa que obviamente não estava bem, apesar de termos aceito o seu “tudo certo” como resposta; seja aquela música que mexeu com você mais do que deveria, mas você passou para a próxima em sua playlist, sem querer pensar a respeito.

A habilidade de julgar o que foi bom e ruim entre as coisas discretas, bem como o que estava certo ou errado no que dissemos nas entrelinhas, vem apenas como retrospectiva. Isso me leva a pensar que, se para o mal vencer basta que o bem não faça nada, caso o bem não note a existência do mal, já perdemos por desistência? Talvez já seja a hora de escolhermos o desconforto justo do saber em vez do sono profundo daqueles que se eximem de responsabilidade.

O ponto é que, se a ignorância é uma bênção, a distração é uma hóstia: através dela, nos desligamos de todas as mensagens que o mundo nos submete para que possamos prosseguir a vida sem peso – nesse caso, o do saber. Reconhecer a existência de algo nos obriga a lidar com aquilo, mesmo quando aquela existência é somente percebida. Por exemplo: dificilmente você notou que as últimas dez colunas tiveram como subtítulo uma música sertaneja, da mesma forma que é provável que não tenha visto que um filme foi citado de forma incorreta neste texto. Saber disso agora te impelirá a voltar e procurar qual foi o erro neste texto (se é que ele existe mesmo) e visitar as outras colunas para confirmar o que eu disse – até porque não seria a primeira vez que menti para você neste texto.

Muito provavelmente.

 

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“Tranversal” é a coluna quinzenal de Erik Avilez (vulgo “eu”), na qual ele trata um mesmo tema em diversas mídias.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.