Transversal #1 – O Fim (ou “Não Aprendi Dizer Adeus”)

Talvez a única coisa mais difícil do que começar seja terminar. Não importa se estamos falando de um livro, um filme ou um relacionamento; enquanto começos são bem instintivos e naturais, os fins raramente o são. Considerando que isso normalmente é culpa nossa, é um alívio ver o lado bom disso, que consiste no fato de que podemos simplesmente aprender a seguir em frente.

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Quando sua série, seu livro, sua banda favorita ou um filme muito bom acaba.

A cultura ocidental tem diversos exemplos de como nunca aprendemos a por pontos finais nas coisas. Os fãs de “Friends” (1994-2004) ainda perguntam aos atores quando acontecerá a reunião em filme ou em uma nova temporada – mais de dez anos e dez milhões de respostas negativas depois. Os apaixonados leitores de “Harry Potter” querem cada vez mais se alimentar do universo e dos personagens que aprenderam a amar, então a Warner anuncia a adaptação do livro “Animais Fantásticos e Onde Habitam” em uma trilogia (porque não viram com “O Hobbit” o quão ruim é esticar algo para dar mais dinheiro). Isso sem nem comentar as bandas que ficam flertando se reunir anos depois de terminadas para fazer “últimas turnês” caríssimas que nunca acabam (dois beijos para os Los Hermanos).

O problema não está na criação desse conteúdo requentado; não duvido que “Animais Fantásticos” possa ser um ótimo filme (ainda mais considerando que a própria JK Rowling assina o roteiro do filme), por exemplo. O caso é que se todas as mídias fazem isso, é porque tem um público que consome esses produtos por alguma razão.

Então por que não conseguimos dizer adeus a Sam e Dean ou a Meredith Grey e companhia? Por que reclamos de mais um reboot de Homem-Aranha em menos de 10 anos, mas ainda assim compramos ingressos para o lançamento em Imax 3D um mês antes da estreia? Será que consumimos porque nos oferecem, ou será que nos oferecem porque consumimos?

Tudo o que é novo ao mesmo tempo nos amedronta e nos atrai, e é isso que nos faz voltar ao que já é conhecido e seguro – embora não necessariamente bom para nós. É uma mistura estranha de esperança e nostalgia que nos faz pensar “o último álbum do Coldplay foi bem fraco, mas vai que nesse…”, “acho que ele/ela mudou dessa vez” e “talvez agora ‘Atividade Paranormal’ volte a ser o que era no início”.

Mas nós, como pessoas, também mudamos. Mesmo que lancem um livro exatamente igual ao primeiro “Jogos Vorazes” que você tanto adorou, é muito possível que ele não ocupe um lugar cativo no seu coração; o laço que você fez com aquela história se formou porque você era uma pessoa específica em um tempo preciso. Nós podemos fazer reboots em tudo o que consumimos e vemos, mas, (in)felizmente, os seres humanos só podem andar para frente – o que podemos ver como um convite a parar de olhar para trás.

Ainda assim, como sair desse ciclo? Eu te conto na continuação dessa coluna. Até porque fechar uma reflexão assim, com um gancho para o futuro, facilita bastante para mim, visto que talvez a única coisa mais difícil do que começar seja terminar…

“Tranversal” é a coluna quinzenal de Erik Avilez (vulgo “eu”), na qual ele trata um mesmo tema em diversas mídias.

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Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.