Comentário | Tranquility Base Hotel & Casino – um grande passo para o Arctic Monkeys

Amado por uns e odiado por muitos, especialmente pelos fãs que chegaram no rolê do Arctic Monkeys depois do incontestável sucesso de AM, Tranquility Base Hotel & Casino traz uma sonoridade bastante diferente se comparado ao já mencionado último disco da banda e ao penúltimo Suck It and See. Entretanto, e aqui já saindo em defesa de Tranquility Base, o mais perto de lançar dois discos parecidos que o Arctic Monkeys já havia chegado, talvez, tenha sido Whatever People Say I am, That’s What I’m Not e Favourite Worst Nightmare. Ainda assim, eles não são gêmeos idênticos. São, no máximo, primos distantes.

Tranquility Base Hotel & Casino

De lá pra cá, a banda vem experimentando aqui e ali, e emplacando sempre algum sucesso. Mas, é inegável que AM teve várias músicas que tocaram direto e durante muito tempo, vários clipes, a banda fez turnê mundial, tocou em programas de auditório e, enfim, ficou muito conhecida. O publico que chegou ao grupo através desse sucesso, esperou cinco anos para Tranquility Base Hotel & Casino e, talvez, por esperar algo como “AM vol. 2”, ficou frustrado.

Enfim, agora que entendemos o piti do público com o disco, vamos falar dele brevemente antes de analisá-lo faixa a faixa.

O conceito do disco é que existe um hotel casino situado numa base lunar. Por isso, o nome “Tranquility Base”, que é como foi chamado o lugar onde o homem pisou na Lua pela primeira vez. A maquete do hotel, que aparece na capa, foi feita pelo próprio Alex Turner, que também participou ativamente das composições, gravou diversos instrumentos e ainda assinou como produtor. Talvez daí venha a sensação de que estamos ouvindo um trabalho de Alex Turner e banda.

Tranquility Base Hotel & Casino

A ideia do hotel na lua, por si só, já cria um ambiente sonoro mais atmosférico, mas Alex Turner foi ainda mais fundo e se inspirou em vários nomes que vão de Ennio Morricone a Nina Simone e Lô Borges. A lista de influências para o disco foi divulgada, escrita à mão pelo próprio Turner, na revista Mojo e você pode ver aqui.

Vamos ao faixa a faixa?


Star Treatment: a faixa que abre o disco tem a frase “I just wanted to be one of the Strokes”, que fala da influência da banda de Casablancas para o Arctic Monkeys. É um bom ponto de partida para entender onde a banda está hoje. A música traz ainda outras referências, como ao livro 1984 e ao filme Blade Runner. Num determinado momento, Turner parece querer imitar a voz de David Bowie (“I just wanted to be one of those ghosts/You thought that you could forget”). A faixa tem um clima interessante e já prepara o ouvinte para as dez faixas seguintes.

One Point Perspective: tem as teclas como protagonista (máxima no álbum inteiro), e um belo solo de transição. O tema da letra vai em torno de como as coisas mudam e as pessoas ficam reféns da fantasia e do entretenimento em relação a um mundo duro e feio. Definitivamente, as letras mostram como a banda está atingindo a maturidade.

American Sports: começa nos calcanhares da música anterior e é totalmente atmosférica. Aqui, começamos uma série de críticas feitas à sociedade ocidental, especialmente baseada na cultura estadunidense. Nessa parte, chama a atenção um suposto culto ao dinheiro e ao trabalho, “I lost some money, lost the keys/But I’m still handcuffed to the briefcase”, à tecnologia como religião, “My virtual reality mask is stuck on Parliament Brawl/Emergency battery pack just in time for my weekly chat with God on videocall” e uma menção que pode ser relacionada às fake news“Breaking news they take the truth and make it and fluid”. 

Tranquility Base Hotel & Casino: a música que dá nome ao disco intensifica o clima “espacial” do álbum e traz linhas de teclado que lembram bastante música clássica. A letra é dotada de uma certa irreverência religiosa e atua como se os ouvintes estivessem chegando ou fazendo uma reserva no hotel do conceito do disco.

Golden Trunks: essa canção guarda uma possível sátira direcionada ao Presidente Donald Trump, “The leader of the free world/Reminds you of a wrestler wearing tight golden trunks”. Além disso, a canção mistura as críticas a versos de amor de uma maneira surrealista. Muito do disco tem essa pegada.

Four out of Five: a música que ganhou o primeiro clipe do disco, inclusive com várias referências à Stanley Kubrick (especialmente, 2001: Uma Odisséia no Espaço, O Iluminado, Barry Lyndon e De Olhos Bem Fechados). A música, novamente, fala de Tranquility Base, o hotel imaginário que tem uma taqueria na cobertura e é bem avaliado. Assim, podemos pensar um pouco em como a música fala da “gourmetização” dos espaços e do processo de gentrificação gerado pela moda do gourmet, enquanto o álbum expande seu próprio conceito.

Tranquility Base

The World’s First Ever Monster Truck Front Flip: a faixa lembra uma canção de carrossel. A frase central da música, aponta para a dependência da tecnologia no mundo atual “you push the button and we’ll do the rest”. Afora isso, não há realmente muito o que adicionar à música. Definitivamente, não é um destaque do disco.

Science Fiction: nessa canção, temos um clima bastante denso e uma letra sobre o efeito das ficções e fantasias para nos manter “despertos” em meio à realidade. Isso tudo misturado a um tema amoroso. Outro bom destaque do disco.

She Looks Like Fun: com um refrão chiclete e um solo bonito na transição, She Looks Like Fun fala sobre a internet, no que ela faz de melhor, colocar várias pessoas para agirem livremente de maneira estúpida, espalhando um monte de conteúdo aleatório e que não faz nenhum sentido.

Batphoneessa é uma das canções que tem um dos climas mais envolventes do disco. É preciso estar muito distraído para não entrar na onda da música. Novamente, temos a questão da tecnologia como algo ao qual a sociedade está mais dependente do que deveria.

Ultracheese: fecha o disco nos rememorando um pouco #1 Party Anthem, de AM. O clima da música é de despedida, como se Alex Turner estivesse sentado no bar do Hotel Casino Traquility Base, lembrando do que lhe acontecera até ali. De fato, é uma canção um pouco brega, como o nome sugere; talvez uma brincadeira com Ultraviolence de Laranja Mecânica, trocando “violence” por “cheese”, alimento que comumente é usado pra falar de algo grudento, desagradável e, brega, mas, ainda assim, é um belíssimo encerramento.


Em conclusão, Tranquility Base Hotel & Casino é diferente de tudo o que o Arctic Monkeys já lançou, talvez nem tão discrepante apenas em relação a Humbug. Quem esperava algo menos experimental e até mais pop como AM e Suck It and See, se frustrou, certamente, mas para quem quiser ouvir de cabeça aberta, vai receber um disco bastante agradável, embora não tão marcante graças aos experimentos que, em sua maioria, emulam a música alternativa de várias décadas passadas.


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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.