Tradução| Um Culto à Ignorância ‒ Isaac Asimov

Isaac Asimov foi um dos maiores escritores de ficção científica de todos os tempos. Escreveu não apenas livros marcantes, como Fundação e Eu, Robô, mas também trouxe para a nossa realidade conceitos que, até então, não existiam e não estavam nem perto de serem populares. Além disso, também era professor universitário e pesquisador e, portanto, um intelectual que via no estímulo da inteligência, criatividade e do pensamento o melhor meio para matar a ignorância por inanição e, só assim, termos uma sociedade verdadeiramente tolerante, democrática e justa. Contudo, Isaac Asimov não encontrou um mundo tão disposto para esse tipo de construção. Motivado por esse conflito, escreveu este texto para a revista Newsweek de 1980.

No artigo, o autor nos fala sobre um tipo de gente com certo orgulho de ser ignorante e que direciona seu ódio e crítica para qualquer um que queira obter ou transmitir conhecimentos (que venham de livros, debates, pesquisas, etc.). É de se surpreender que esse texto tenha sido publicado num momento tão distante do nosso, visto que terraplanismo, lutas anti-vacina e o desprezo e desconfiança em relação às instituições de ensino (públicas e de nível superior, especialmente) sejam assuntos tão em alta, por exemplo. Apesar de as ideias estarem associadas ao seu país natal, os Estados Unidos, é praticamente impossível (e seria imprudente) não adaptar os comentários do Professor Isaac Asimov à nossa realidade brasileira.

Você pode conferir um comentário em inglês dessa tradução no site Open Culture e o texto na íntegra (em inglês) neste link. Abaixo, a tradução: boa leitura!

isaac asimov

É complicado discutir com a antiga justificativa da liberdade de imprensa: “O direito americano de saber”. Parece até mesmo cruel perguntar ingenuamente “o direito americano de saber o que de fato? Ciências? Matemática? Economia? Idiomas estrangeiros?”

Nenhuma dessas coisas, é claro. Na verdade, pode-se supor que o sentimento popular é que os americanos estão muito melhor sem nada dessa tolice. Existe um culto à ignorância nos Estados Unidos; sempre existiu. A tensão do anti-intelectualismo vem sendo um fio que se desenrola através da vida política e cultural fomentado pela falsa ideia de que democracia quer dizer que “a minha ignorância é tão válida quanto seu o conhecimento”.

Rotineiramente, os políticos têm pelejado para falar a língua de Shakespeare e Milton de forma tão gramaticalmente incorreta quanto possível para não ofender sua audiência, escondendo o fato de que frequentaram a escola. Dessa forma, Adlai Stevenson, que igenuamente permitiu que brotassem de seus discursos inteligência, aprendizado e perspicácia, encontrou o povo americano andando às manadas em direção a um candidato presidencial que inventou uma versão da língua inglesa que era só sua e tem sido o desespero dos humoristas desde então.

George Wallace, em seus discursos, tinha como um de seus principais alvos o “universitário cabeção”, e qual não era o brado de aprovação com o qual a frase era saudada pela sua audiência cabeçuda.

Buzzwords: agora os obscurantistas têm um novo slogan: “Não confie nos especialistas!”. Há dez anos, era “Não confie em ninguém com mais de 30”. Mas, aqueles que gritavam essas palavras de ordem descobriram a inevitável alquimia do calendário, que fez com que eles mesmos caíssem no descrédito dos além-trintenários, e, aparentemente, eles se propuseram a nunca mais incorrer no mesmo erro. “Não confie nos especialistas!” é absolutamente seguro. Nada, nem o passar do tempo nem a exposição à informação, irá tornar esses militantes especialistas em qualquer assunto que sugira um mínimo de utilidade.

Também temos uma nova buzzword para qualquer um que admire competência, conhecimento, aprendizagem e habilidade e que deseje espalhar isso por aí. Esses são chamados de “elitistas”. Essa é a expressão mais cômica já inventada porque aqueles que não fazem parte da elite intelectual não sabem o que é um “elitista”, ou mesmo como se pronuncia essa palavra. Tão logo alguém grite “elitista”, fica evidente que esse indivíduo é um elitista no armário se sentindo culpado porque terminou os estudos.

Muito bem, então, esqueça minha pergunta ingênua. O direito americano de saber não inclui a sabedoria das pautas elitistas. O direito americano de saber envolve algo a que chamaremos vagamente de “o que está acontecendo”. A América tem o direito de saber “o que está acontecendo” nos tribunais, na Casa Branca, nos conselhos industriais, nas agências reguladoras, nos sindicatos ‒ nos assentos do poder em geral.

Ótimo, também penso assim. Mas “como fazer com que saibamos de tudo isso?”

“Garanta-nos liberdade de imprensa e um corpo de repórteres investigativos independentes e destemidos”, vem a resposta, “e nós poderemos ficar seguros de que o povo saberá.”

Sim, desde que o povo saiba ler!

Na realidade, ler é uma dessas pautas elitistas sobre as quais estou falando, e o público americano, quase sempre, em sua desconfiança dos especialistas e desdém pelos universitários cabeçudos, não sabem ler e nem leem.

Por segurança, o americano médio assina o próprio nome mais, ou menos, legível e consegue ir até o fim das manchetes esportivas ‒ mas quantos não-elitistas conseguem, sem demasiada dificuldade, ler impressos em torno das mil palavras, algumas delas, talvez, trissilábicas?

Além disso, a situação piora. Os índices de leitura nas escolas caem constantemente. As placas nas estradas, que costumavam constituir lições básicas de ortografia nas aulas de Língua Inglesa (“Go Slo”, “Xroad”) estão sendo continuamente substituídas por pequenas imagens, tornando-as internacionalmente compreensíveis, incidentalmente, ajudando àqueles que sabem dirigir mas, em não sendo universitários cabeçudos, não sabem ler.

Da mesma forma, em comerciais de televisão, existem mensagens escritas, frequentemente. Bem, preste atenção nelas e você irá perceber que nenhum anunciante acredita que alguém as lerá, exceto algum elitista ocasional. Para assegurar que mais do que essa populosa minoria capte vossa mensagem, todas as palavras são faladas em alto e bom som pelo anunciante.

Um esforço válido: se assim pudermos dizer, como o americano adquiriu o direito de saber? Admite-se que existem determinadas publicações que fazem um esforço válido para dizer ao público aquilo que eles deveriam saber, mas perguntem-se a si mesmos quantas delas são lidas de fato.

Existem 200 milhões de americanos que habitaram salas de aula durante algum momento de suas vidas e que admitirão que sabem ler (desde que você prometa não usar seus nomes reais e não expôr sua vergonha para o próximo), mas até os periódicos mais decentes acreditam estarem indo incrivelmente bem se estiverem circulando na casa do meio milhão. Talvez seja apenas esse 1 por cento ‒ ou menos ‒ de americanos que deem uma cutucada no exercício do seu direito de saber. E caso tentem fazer quase qualquer coisa baseando-se nisso, provavelmente serão acusados de fazer parte do grupo de elitistas.

Eu asserto que o slogan “O direito americano de saber” não significa nada quando o que temos é uma população ignorante, e que a função da liberdade de imprensa é virtualmente zero quando dificilmente se sabe ler.

O que haveremos de fazer a esse respeito?

Podemos começar por nos perguntar se a ignorância é realmente maravilhosa, afinal de contas, e se faz algum sentido denunciar o “elitismo”.

Eu acredito que todo ser humano com um cérebro saudável pode aprender muito e ser surpreendentemente intelectual. Eu acredito que o que nós precisamos desesperadamente é garantir aprovação e recompensas sociais para quem estiver disposto a aprender.

Todos nós podemos fazer parte de uma elite intelectual e, então, e só então, uma frase como “o direito americano de saber” e qualquer conceito verdadeiro de democracia irá ter algum significado de fato.

Asimov, um professor de Bioquímica na Universidade de Medicina de Boston, é o autor de 212 livros, a maioria deles sobre vários temas da ficção científica para o público em geral.

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