Tradução | O talento de Mr. Rogers para falar com crianças

Falar com crianças é uma ação que é amplamente mal compreendida por adultos. Obviamente, e por uma série de motivos, a forma de abordar a comunicação com os pequenos precisa ser diferente, porém, muito se engana quem acha que isso deve significar, fatalmente, menosprezar a inteligência e a curiosidade deles. Fred Rogers (1928 – 2003) tinha um excepcional talento para falar com crianças e desenvolveu um jeito muito peculiar de se comunicar com meninos e meninas nos Estados Unidos ao longo dos anos através do seu programa Mr. Rogers Neighborhood (1968 -2001).

Infelizmente, o nome de Fred Rogers parece não dizer muito no Brasil, mas sua importância para a programação televisiva infantil nos EUA é muito simbólica, como poderá atestar qualquer um que assistir ao documentário “Won’t you be my neighbor?“. Em breve, uma cinebiografia estrelada por Tom Hanks dará conta de episódios da vida de Fred Rogers e o texto a seguir traz uma divertida reflexão de sua equipe sobre o pensamento do próprio Rogers sobre a importância de uma boa comunicação com as crianças. Caso queira, você pode acessar o conteúdo original em inglês aqui.


A máxima “crianças precisam de limites” não descreve necessariamente a posição de um pai de direita ou de esquerda, o qualquer ideia de origem política ou religiosa. Idealmente, ela aponta para fatos observáveis da biologia do amadurecimento cerebral e da psicologia do desenvolvimento da personalidade. Ou seja, criar estruturas que respeitem as capacidades intelectuais das crianças e corroborem com seu crescimento físico e emocional. Substituir “estruturas” por “regras” sugere, de maneira mais enfática, que as “regras” são obrigatórias, principalmente, para os adultos, que constroem e sustentam o mundo onde as crianças vivem. 

Os mais velhos, no melhor de suas habilidades, procuram compreender do que as crianças precisam em determinados estágios de seu crescimento e tentam suprir essas necessidades. Quando o filho de Susan Sontag tinha sete anos de idade, por exemplo, a escritora e cineasta fez uma lista de regras para ela mesma seguir, focando na autopercepção  do garoto, seu relacionamento com o pai, preferências individuais e a imprescindibilidade de uma rotina. A primeira regra serve como uma diretriz geral para as outras nove: “seja constante”.

As regras de Sontag saíram de seus diários apenas depois de sua morte. Ela não as divulgou publicamente para outros pais. Mas, aproximadamente dez anos após ela tê-las escrito, um homem apareceu na televisão e parecia incorporá-las com exatidão e simplicidade. Desde o início, em 1968, Fred Rogers insistia que seu show fosse feito sob padrões exigentes. “Não havia espaço para acidentes em Mr. Rogers’ Neighborhood”, disse o ex-produtor Arthur Greenwald. Ou, como Maxwell King, autor de uma biografia recente sobre Rogers, escreveu para a revista The Atlantic

Ele insistia em que cada palavra, dita por uma pessoa ou fantoche, fosse totalmente escrutinada, pois ele sabia que crianças — meninos e meninas da pré-escola que faziam parte do núcleo de sua audiência — tendem a entender as coisas literalmente… ele se condoia muito para não criar ambiguidades ou confundir os pequenos, e sua equipe de escritores brincava que sua maneira de falar no ar era equivalente a um idioma distinto que eles apelidaram de “Fredenês”. 

Mr. Rogers

Além de sua constância, quase ao ponto de auto-paródias, Rogers fazia questão de ser absolutamente claro em seu discurso. Ele entendia que crianças jovens não entendem metáforas, principalmente por ainda não terem aprendido seus significados acordados mais comuns. Crianças em idade pré-escolar também encontram dificuldades para compreender o uso de uma mesma palavra em contextos diferentes. Em uma parte do programa, por exemplo, uma enfermeira diria a uma criança, usando um aparelho de aferir pressão sanguínea, “agora eu vou inchar”.

Roger, nesse caso, colocaria sua equipe para redublar a cena com a frase “agora eu vou inflar com um pouco de ar”. “Inchar” pode soar como um “machucado”. Greenwald conta que “ele não queria que as crianças cobrissem seus ouvidos e perdessem o que viria a seguir”. Em outro exemplo, Rogers escreveu uma canção chamada “Você Nunca Vai Descer pelo Ralo”  para atenuar um medo comum que crianças muito novas tinham. Existe uma certa lógica para meninos e meninas: ralos levam a coisas embora, por que não eles?

Rogers “era extremamente talentoso para imaginar aonde o pensamento das crianças iria”, disse King sobre ele explicar que um oftalmologista, por exemplo, não poderia enxergar dentro de sua mente para ver seus pensamentos. Seu cuidado com a linguagem também deixava a equipe criativa do show muito encantada e admirada que, em 1977, Greenwald e o escritor Barry Head elaboraram o manual satírico ilustrado chamado “Vamos Falar sobre Fredenês”. Qualquer um que tenha visto o documentário “Won’t You Be My Neighbor?” sabe que Rogers conseguia pegar uma piada bem-humorada por conta própria, provavelmente incluindo a reconstrução imaginativa dos seus métodos a seguir.  

  • “Diga a ideia que você quer expressar da maneira mais clara possível e em termos que crianças da pré-escola consigam entender”. Exemplo: é perigoso brincar na rua.
  • “Reformule de uma maneira positiva”, como em “é bom brincar onde é seguro”. 
  • “Reformule a ideia tendo em mente que crianças da pré-escola não fazem pequenas distinções e precisam ser direcionadas para autoridades de sua confiança”. Como em, “pergunte aos seus pais onde é seguro brincar”.
  • “Reformule sua ideia eliminando todos os elementos que soem prescritivos, diretivos ou instrutivos”. Isso quer dizer, se livrar do verbo “perguntar”, por exemplo: “seus pais vão te dizer onde é seguro brincar”. 
  • “Reformule qualquer elemento que transmita certeza”. Nesse caso, o “vão”: “seus pais podem te dizer onde é seguro brincar”. 
  • “Reformule a frase para eliminar qualquer termo que talvez não se aplique a todas as crianças”.  Nem todas as crianças conhecem seus pais, então: “seus adultos favoritos podem te dizer onde é seguro brincar”. 
  • “Adicione uma ideia motivacional simples que dê às crianças de pré-escola uma razão para seguir seu conselho”. Talvez: “seus adultos favoritos podem te dizer onde é seguro brincar. É bom fazer o que eles pedem’. 
  • “Reformule sua frase seguindo o primeiro passo”. “Bom” representa um julgamento de valor, então: “seus adultos favoritos podem te dizer onde é seguro brincar. É importante tentar fazer o que eles pedem”.
  • “Reformule sua ideia uma última vez, relacionando-a com uma fase de desenvolvimento que uma criança de pré-escola consiga identificar”. Talvez: “Seus adultos favoritos podem te dizer onde é seguro brincar. É importante fazer o que eles pedem e fazer o que eles pedem é importante para crescer”. 

Sua equipe o respeitava tanto que até as paródias serviam como homenagens ligeiramente exageradas às suas preocupações. Rogers adaptou sua filosofia a partir dos melhores psicólogos e experts em desenvolvimento infantil da época. As 9 regras (ou, talvez, 9 estágios) do “Fredenês” acima, imaginados por Greenwald e Head, refletem seu trabalho. Talvez fique implícito na brincadeira que o processo meticuloso, considerando todos os possíveis efeitos de cada palavra, seria impossível de se emular com crianças fora dos scripts preparados a partir de horas de conversas com Margaret McFarland, especialista em desenvolvimento infantil.

Esse é o tipo de oportunidade que pais, professores e outros responsáveis por crianças nunca têm. Mas Rogers compreendia e reconhecia o poder e o privilégio singular de seu papel, mais até do que outros apresentadores de programas infantis. Ele se certificava de fazer isso corretamente, da melhor forma possível, sempre, não apenas para que as crianças pudessem entender melhor as informações, mas também para que os adultos pudessem se fazer mais compreensíveis para elas. Rogers queria que nós soubéssemos, diz Greenwald, “que a vida interior das crianças inexoravelmente importante para elas” e, por isso, merecedora de carinho e reconhecimento.

The following two tabs change content below.
Hippie com raiva.