The Who: morte e vida de uma geração incendiária

A percepção da morte na juventude é, na melhor das hipóteses, algo distante e intangível. É algo inerente à idade em si: a falta de contato com outras pessoas morrendo, e o processo de descoberta contínua de novidades faz com que o fim seja uma linha tênue, fora da vista. O The Who – banda a qual esteve recentemente no Rock in Rio 2017 e sobre a qual falamos no nosso podcast de rock dos anos 60 – sempre esteve na ponta da lança quando o assunto era juventude revoltada. Lá nos anos 60, quando a pura existência do rock n’roll era um ato de rebeldia, estavam Roger Daltry, Pete Townshend, Keith Moon e John Entwistle com letras rebeldes, riffs de guitarra e baixo violentos e uma bateria com tendências autodestrutivas. No meio disso tudo, contudo, o amadurecimento da banda apontou nossa tendência de fazer uma jornada: sairmos daqueles que correm adiante, mesmo que ao encontro da morte, para aqueles que buscam fugir dela em uma vida plena.

The Who no Rock in Rio

A gente pode fazer essa análise a partir de duas canções muito importantes para a carreira do The Who: My Generation Baba O’Riley. A primeira foi lançada como single em outubro de 1965 e posteriormente como parte do primeiro álbum da banda, o qual também se chamava “My Generation“, e é, até hoje um dos maiores sucessos do grupo. A resposta apaixonada do público ao refrão “estou falando da minha geração” que entremeava versos como “por que vocês todos não vão se f…errar?” era um termômetro de como a juventude de meados dos anos 60 estava em vias de explodir – o que desembocaria na morte do movimento musical conhecido como “Invasão Britânica” e o começo do punk por volta de 1968, 1969.

A ira dos jovens era, em grande parte, justificada. Em 1965, a Guerra do Vietnã já completava dez anos, com dezenas de rapazes sendo enviados para morrer em uma terra estranha por uma causa que não entendiam muito bem – qual era a relevância dos vietcongues para a liberdade americana?, ninguém sabia precisar. Enquanto isso, na Inglaterra, músicos influenciados pelo surf music e o blues estadunidense faziam experimentações com a guitarra, e o rock n’roll dava um passo a frente no que o entenderíamos como estilo musical. A combinação era nitroglicerina, e era uma questão de tempo até que uma fagulha – neste caso, Os Beatles – fossem para a América e incendiassem a juventude.

Com jovens em chamas, se opondo aos valores tradicionais dos pais – filhos sofridos da Segunda Guerra -, o The Who, em “My Generation“, faz o prognóstico de toda uma geração em um verso: “eu espero morrer antes que eu envelheça”.

Esta frase, à primeira ouvida, é bem impactante: os jovens detestavam tanto os valores e estilo de vida que seus pais representavam que preferiam, como diria Bolaños, “morrer do que perder a vida” em uma existência doméstica limitada a uma classe média acomodada. Mesmo entendendo a revolta por trás desta violência pouco oculta, a postura é decisiva: prefiro morrer do que me tornar vocês.

Mas a juventude não dura para sempre, e os incendiários envelheceram. De piromaníacos na década de 60, no auge de seus vinte e poucos anos, a década de 70 abriu caminho para uma geração ainda mais tresloucada – realmente dedicada a, primeiramente, destruir a si própria, com a ascensão do abuso de drogas e de movimentos como o punk e o glam rock, na música, e a manifestação da cultura alternativa mais iconoclasta do que nunca em figuras como Andy Warhol e a sua Factory em Nova Iorque. Neste ponto, já avançando rumo aos trinta anos, o The Who olha para trás no que haviam construído (e destruído) ao longo da última década e refletem sobre seus frutos.

E, assim, nasce a maravilhosa Baba O’Riley.

Originalmente pensada para fazer parte do álbum de ópera rock “Lifehouse“, o The Who aproveitou a canção em seu disco “Who’s Next“, de 1971, depois que o projeto “Lifehouse” foi descartado. Em uma letra que trabalha a vida após a chegada dos famosos boletos (“aqui no campo / eu luto por minhas refeições / invisto meu corpo no meu ganha-pão”) em contraste com a vida que tinham quando faziam parte da Juventude Woodstock: “não chore / não levante seu olhar / é apenas uma devastação adolescente” – ou “terra devastada adolescente”. A banda olha para trás, para os anos e sonhos gastos, e reconhecem nessa transição o resto do que deveria ter sido uma vida.

No verso mais relevante para nossa discussão aqui, ouvimos o verso “vamos ficar juntos antes que fiquemos muito mais velhos”. A mudança de perspectiva em uma curta passagem de tempo é marcante: dos jovens que preferiam morrer a ficarem velhos e se assemelharem aos seus pais, o The Who, por representação, gradativamente aceita o inexorável movimento em direção a serem seus pais, com todos o bônus e ônus que isso traz. Se na juventude a ausência da percepção da morte dá sentido à vida, aqui é a vida que, retroativamente, dá sentido a si mesma.

Subitamente, envelhecer e apagar gradativamente ao lado de quem se ama é melhor do que uma vida intensa e incendiária rumo ao nada.

the who
Daltrey e Townshend no Super Bowl de 2010.

São poucos os anos que separam My Generation de Baba O’Riley. Contudo, assim como a voz de Daltrey já se demonstrava mais madura e confiante enquanto passeava pelas notas de O’Riley, também suas escolhas pareciam estar mais fundamentadas. Era, de certa forma, a percepção de que o que passou não é nem bom nem ruim – simplesmente é, devastado como foi. É a noção de que, quer sejamos incêndios querendo trazer o mundo abaixo ou velas bem acompanhadas derretendo no fim da vida, nosso destino sempre é apagarmos da forma que escolhemos.

E não há problema algum nisso.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.
  • Lari Reis

    Adorei o texto, Erik!
    O mais interessante é que foi justamente após assistir a apresentação do The Who, pela TV, que eu (re)comecei a pensar nessa mudança na nossa forma — pessoas em geral — de ver a vida, de se motivar ou não, de aceitar as coisas ou não, com o passar do tempo. Quanto o “conformismo” consome a gente? Ainda estou pensando.