Comentário | The Umbrella Academy: Apocalipse? Quem me dera!

Este comentário foi escrito pelo Raphael Dias do blog Delirium Scribens

Super-heróis e Netflix

Minha relação com super-heróis fora dos quadrinhos é conturbada e uma história demasiado longa e parentética para incluir nesse texto, o mesmo vale para Netflix. Mesmo assim, bastou o nome Gabriel Bá e um pôster exibindo um macaco de terno para eu me despir dos meus preconceitos e começar a ver The Umbrella Academy. Me arrependi? Não necessariamente, mas o idoso dentro de mim balançou muitas bengalas em fúria contra certos aspectos da série, sobre os quais eu pretendo discorrer agora, com suficiente cuidado para não estragar a experiência de ninguém que tenha chegado a esse texto, não com o intento de ter sua opinião repetida para si mas com real vontade de saber se ela é boa ou não.

Qual é a do Acadêmicos do Guarda-Chuva?

Sete partos espontâneos e simultâneos atraíram a atenção de um bilionário com muito tempo livre e um complexo de deus. Ele foi atrás de cada um dos rebentos e os comprou de suas mães, na esperança de que eles fossem super-poderosos. Qual foi a surpresa? Nenhuma, eles eram. Cada uma das crianças desenvolveu poderes especiais, logo elas foram submetidas a longas sessões de tortura para torná-las heróis da humanidade, a grande evolução, num sentido biologicamente literal, da segurança pública.

Claro que não poderia dar certo. Aos poucos as crianças crescem e deixam de ouvir o grande pai na Terra, fora um deles – um menino devagar, sejamos francos. Cada um com seus complexos partiu em direção à vida adulta, com variados graus de sucesso, entre a celebridade e o viciado. Até que o velho bate as botas e todos eles se reencontram na mansão onde eles foram criados. De início, queriam apenas organizar um funeral e prestar seus “respeitos” ao velho, até que o Morty mirim (logo explico) surge do futuro e conta aos irmãos e aos espectadores qual é o conflito principal do enredo.

Escola Netflix de atuação

A primeira coisa perceptível na série é que o talento do elenco é irregular. Sabemos bem que o orçamento das produções Netflix é limitado, eles conseguem uma celebridade para chamar o público (aqui é a Ellen Page), enquanto os outros… bom, alguns se parecem com celebridades e decerto brilharam muito nas aulas do grupo de improviso e no teatro da escola, mas não o suficiente para não causar estranhamento. Falta carisma neles. Por exemplo, o menino devagar que se torna um homem devagar – e algo mais, que talvez entre no território de spoiler pros leitores mais sensíveis, não tocarei no assunto, relaxem –, ele não é lá um grande ator e cada vez que ele abre a boca ou é forçado a espremer de si alguma emoção isso fica mais óbvio. O Batman da ala de desconto sofre do mesmo mal, com a vantagem de que o personagem dele passa por situações divertidas.

Fora esses dois, o resto passa com nota seis. Talvez a direção tenha atrapalhado ou problemas no roteiro, que eu não sei quão fiel é ao quadrinho, pois não o li. (Para que fique registrado, a série me deu vontade de ler o quadrinho, então algo de bom ela fez.) A exceção é o Morty mirim. Vou explicar: o poder dele é dar saltos espaciais e temporais. Em um momento ele está na cozinha, aí ele se concentra e vai parar na sala. Enquanto ele era “educado”, ele teve a brilhante ideia de dar um salto no tempo, assim ele se perdeu. Quando ele volta, no dia da morte do velho, ele é um homem de sessenta anos no corpo de um menino de quatorze, e, meu senhor das surpresas agradáveis, ele consegue convencer o público. A sabedoria da idade se mescla com a frustração de um corpo que não teve a chance de extrapolar hormônios no tempo certo, fora o fato de que ele teve acesso a informações que deixariam perturbada a mente de qualquer um. Até a relação amorosa dele com um manequim é crível e capaz de tirar emoções daqueles que assistem e não estão mortos por dentro. Se existe justiça no mundo, o moleque vai ter uma carreira. Qual celebridade ele parece?, você pergunta. Achei parecido com uma versão adolescente do Abed de Community.

O… vilão?

Outro problema da série é que o antagonista é óbvio demais. Vamos lá, como eu posso saltitar ao redor dessa parte da história sem falar demais? A Ellen Page é uma das crianças e ela não tem poderes. Isso faz com que ela se sinta isolada do grupo. Eis que surge o aldeão montado em seu jumento manco para salvar a moça apática e “ordinária” (essa é a palavra do dia, crianças, anotem porque cai na prova), que apesar dos adjetivos é uma personagem bem interessante. Fica claro pelo ritmo da série que a intenção é surpreender, mas é difícil quando o ator parece um stalker. E não um stalker qualquer, eu não tive problema nenhum visualizando o sujeito numa fantasia de palhaço, conduzindo torturas em jovens desavisadas envolvendo varetas elétricas pra tocar gado e vibradores hitachi, num porão de fazenda isolada, no Kentucky.

Vai por mim, isso não é spoiler. Se você tem dois neurônios e eles foram apresentados um ao outro, você conseguirá captar isso logo de cara. Em determinado momento, eu cheguei a torcer para que eu estivesse errado e, não, ele não fosse o que eu achava que ele era. Que na verdade ele fosse só um carinha legal, “intenso demais”, de cara esquisita. Eu só queria uma surpresa de verdade, sabe? Mas não. Ele faz o enredo andar pra frente de um jeito que eu não posso descrever sem contar a história toda, sinto muito.

Em qual celebridade ele me faz pensar? Não é bem uma celebridade, mas tem um episódio de The Office em que eles vão a uma escola encontrar um estagiário, mas o único interessado é um adolescente esquisito, e o Michael tira sarro dele. Lembram desse? O ator parece esse menino. Eu não sei qual celebridade ele se parece, mas parece com alguém. Todos os atores lembram alguém e isso é uma distração imensa. Demorei dois episódios para constatar que a Ellen Page era ela mesma, não uma atriz similar.

Bagunce seu enredo, inclua viagem no tempo, acredite no seu potencial

Certifique-se de que você está disposto a transar gostoso com a linha do tempo da sua história antes de meter viagens temporais nela, amiguinho. Exemplo: Rick & Morty. Essa é uma série que não dá a mínima pras consequências de tantas idas e vindas, versões de personagens e realidades alternativas, na verdade até usa de combustível cômico o absurdo e o surreal das possibilidades infinitas. The Umbrella Academy não é uma série disposta a ir tão longe e nem deveria, no entanto, lá veio ela com viagem no tempo. Foi necessário pra contar a história que eles queriam contar, mas, p*ta merda, que baderna.

Pra começar, não dá pra entender se as viagens criam ou não novas linhas do tempo. Existe uma agência, na série, encarregada de garantir que o que deve acontecer acontecerá. Quando é observado que alguém na história da humanidade decidiu mudar de ideia sobre suas ações e isso vai afetar o andamento das coisas, eles mandam um especialista pra esse momento, que vai lá e bota ordem no barraco. Ok, então quer dizer que tudo está acontecendo o tempo todo simultaneamente, sempre e pra sempre? Então qual o sentido da viagem do moleque? E a agência tá inserida fora do tempo? Melhor eu não tocar no assunto da predestinação. Talvez o objetivo da série tenha sido jogar na parede um simbolismo pra ver se cola: o universo envolve predestinação, mas o indivíduo tem força pra alterar seu destino de qualquer forma… então meio que não existe predestinação… mas mesmo que existisse, como a agência sabe quais são todos os destinos? Meu cérebro dói.

O gesso impedindo esse enredo de se mover livremente é a linearidade da narrativa. Tem flashbacks, sim, de qualquer forma a história tem começo, meio e fim, e passa nessa ordem pelas três etapas, independentemente do vaivém do miolo. Jogar outra linha do tempo lá pro meio do pagode ia destruir esse roteiro, já bastante frágil. É por isso que eu quero ler os quadrinhos. Quero acreditar que a série foi mais conservadora por medo de não render audiência o suficiente pra novas temporadas. Posso estar errado, de repente o quadrinho é bagunçado desse jeito mesmo.

A tarantinização da trilha sonora

Escolher a música certa pra cena certa requer habilidade. Não basta incluir uma música animadinha no meio de uma ação dramática e torcer pra que a estranheza do momento torne a cena icônica. Funcionou em Cães de Aluguel, quando o torturador bota Hooked on a Feeling antes de cortar a orelha de um policial pai de família, porque transforma uma personagem já perturbada em psicopata completa. Qual o objetivo da música na cena de tiroteio na loja de roupas, em Umbrella Academy? Tá aí a diferença. Qualquer um saberia botar uma música legal numa cena, se só isso bastasse.

Outra coisa, é importante ter noção de ritmo. Se o espectador sente um tranco no pescoço quando a música toca, ela não foi inserida direitinho. De novo, Cães de Aluguel, depois da cena de abertura no restaurante, toca Little Green Bag. Causa uma mudança de atmosfera, mas é leve. Em Umbrella Academy, parece que a Netflix quis montar uma playlist bacana pros jovens ouvirem enquanto assistem a série. Em algumas poucas cenas, dá certo. Em todas as outras, é uma p*ta distração – sim, outra distração, a série parece não querer que a audiência foque muito no que está acontecendo. No primeiro episódio, quando o velho aparece marchando com as crianças ao som de Picture Book, eu pausei a série e fui ouvir do começo ao fim o The Kinks are the Village Green Preservation Society (e você, leitor, deveria ouvir também). E essa é uma das cenas em que a combinação deu certo.

(Que as referências não façam o leitor pensar que sou fã do Tarantino. Essa fase já passou, estou purificado. Mas o p*to sabe trabalhar com música.)

Uma conclusão: tem qualidades

Com toda a derrota, The Umbrella Academy sabe divertir. (Tem um macaco de terno.) Por mais irritado que eu tenha ficado com certas performances e detalhezinhos no enredo e na montagem dos episódios, eu não bocejei uma vez. Não maratonei a série, porque prefiro ver aos poucos, mas, mesmo com os intervalos de tantos dias, quando eu voltava, eu voltava porque eu queria voltar, não só pra ver como terminava ou por um senso de obrigação. (O macaco é o Alfred da casa.) Cenas como a do viciado dançando de toalha pela casa, com fones de ouvido, enquanto o pau come solto ao redor dele, me fizeram rir alto, o que é raríssimo. Essa cena e as interações do viciado com os fantasmas fazem a série valer a pena. Inclusive, os personagens interagem muito bem, apesar das limitações de certos atores. Eles conversam entre si, como pessoas, isso foi o que me deixou mais surpreso e feliz. Eu esperava diálogos marvelizados, em que as personagens trocariam piadas e sabichonices umas com as outras, a mil quilômetros por hora, tentando a qualquer custo tirar risos do público. Parabéns pra série por ter ido contra esse câncer do cinema popular. (O macaco, vestindo um terno, enquanto atua como o Alfred da casa, tem que lidar com as dores do luto e com o peso do dia a dia humano!)

É importante, ao se avaliar uma série, levar em conta qual o objetivo dela. Se o objetivo foi entreter, fazer com que a audiência desligue o cérebro e assista a uma história divertida, foi um sucesso. Caso não fosse esse o objetivo e eles quisessem contar uma história emocionante e toda estilizada sobre vida em família, abuso familiar e… viagem no tempo, peço perdão aos envolvidos, mas não funcionou. Eu ainda gostei, mas não pelos motivos que vocês gostariam que eu gostasse. (Ao macaco de terno, contudo, 10/10.)

Uma analogia para descrever o prazer que é assistir a essa série: pensa num biscoito ou numa bolacha, conforme sua preferência, muito boa, mas ela caiu no chão. Passou a regra dos cinco segundos, quando você abaixou pra pegar ela do chão, acabou chutando ela por acidente, enfim, uma cena triste. A bolacha está danificada quando volta pra sua mão, inclusive o sabor, quando você finalmente dá a inevitável primeira mordida, não é o que costuma ser. Como ainda está boa o suficiente, até melhor que outras bolachas (em estado imaculado) do mercado, você come até o final e não se arrepende. Eis The Umbrella Academy. (TEM UM MACACO FALANTE VESTINDO UM TERNO! É computador, mas mesmo assim, é um macaco! Falante! Vestindo um terno!)


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