The Nix: choque de gerações, abandonos e um épico intimista (resenha sem spoilers)

Falar sobre a formação da nossa sociedade é complexo porque a dinâmica se dá em dois níveis. Ao mesmo tempo que nós, como povo, somos frutos de grande transformações – das passeatas, protestos e levantes -, também somos afetados por experiências individuais. Muitas vezes esses caminhos se cruzam, e uma pessoa, por uma mudança em si, causa uma revolução no mundo. “The Nix” é um épico moderno por conseguir conciliar essas duas dimensões para falar sobre nosso papel na sociedade, sonhos despedaçados e nossos inevitáveis abandonos.

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A Trama

“The Nix” conta sua história através de dois personagens principais. O primeiro é Samuel Andresen-Anderson, um escritor frustrado que recebeu um adiantamento para um livro quando era um jovem promissor, mas que a vida adulta não pagou esta promessa. Samuel tem um passado que o perturba, marcado por crises de choros incontroláveis, e um histórico de abandono que o atormenta em sua vida adulta: quando era criança, passou por uma experiência traumática com seu amigo Bishop, e mais tarde, no mesmo dia, sua mãe foi embora, para nunca mais voltar. A aparente conexão entre as duas ações influenciaria Samuel para sempre e o impediria de ter uma vida com a única mulher que amou: Bethany, irmã gêmea de Bishop.

Seria fácil demonizarmos a mãe de Samuel se não fosse ela a outra personagem através da qual o livro se guia. Faye Andresen foi uma garota tímida, reprimida por Frank, seu pai amargurado, e assombrada por um fantasma próprio: a nix, ou nisse.

Com suas próprias trajetórias e abandonos, Faye e Samuel são obrigados a se reencontrarem quando Faye é acusada de ter cometido um atentado terrorista ao jogar britas em um candidato a governador homofóbico e racista do partido republicano. Samuel é contatado pelo seu editor com uma proposta e uma ameaça: ou ele cumpre seu contrato expondo toda a podridão da vida de sua mãe ou será processado, perdendo tudo o que tem. Usando seu rancor, Samuel parte em busca de descobrir a história de Faye, levando os leitores consigo para conhecer a classe média da década de 70/80, a revolução social de Chicago nos idos de 1960 e a nossa própria sociedade de millennials.

 

“The Nix”

A nix, do título, ou nisse, é uma criatura da mitologia do país natal de Frank, sendo descrita para uma Faye ainda criança como sendo

…espíritos familiares que não são maus. Algumas vezes eram até bondosos (…), discretos e se irritavam se não recebessem mingau de creme às quintas-feiras. Com muita manteiga. Eles não eram fantasmas amigáveis, mas também não eram crueis. Eles faziam o que tinham vontade. Eram fantasmas egoístas.

Em outro momento, Faye, ao contar da nisse para Samuel, define que a moral da história da assombração é: “as coisas que você ama são as que mais de magoarão”. Em suma, eram criaturas que pareciam agradáveis e benéficas, mas que precisavam ser agradadas e jamais insultadas, do contrário lhe perseguiriam por toda sua vida, atormentando sua vítima e as gerações futuras. É nessa noite que Faye desenvolve crises de choro – as mesmas que seu filho um dia teria.

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A nisse descrita no livro na história de Faye.

Tanto Faye quanto Samuel se veem em pontos distintos da maldição da nix, sendo ao mesmo tempo o amaldiçoado e a própria criatura. Depois da noite que decepcionou seu pai e Frank contou essa história, Faye carregou consigo o peso de sempre temer desagradá-lo; caso achasse que o fez, imediatamente lágrimas viriam aos seus olhos de forma incontrolável. Por outro lado, Faye também foi um demônio egoísta que, por caprichos e sonhos frustrados, decidiu abandonar seu filho, sem nunca mais manter contato.

Se Faye foi a nisse de Samuel – com o peso de ter sido abandonado, o qual ele teve de carregar para sempre -, Samuel foi a nix de Bishop, ao não lidar com a experiência pela qual ambos passaram, preferindo se dedicar ao amor pela irmã de Bishop, Bethany. Ele, também, abandonaria a única amizade real que ambos tiveram em prol de perseguir seus objetivos egoístas, e isso eventualmente cobrou seu preço.

Embora achemos inicialmente que somente os protagonistas carregam e são esse peso diabólico, fruto de egocentrismo, vagarosamente vemos que a arte de “The Nix” reside no fato de provar que todos nós somos e temos nossas nisses. Todos nós em algum momento fomos egoístas, dando preferência aos nossos interesses em vez do bem comum ou de outrem, mas também já estivemos do outro lado, sendo abandonados por alguém que preferiu cuidar somente de si. Todos nós já fomos largados, mas também abandonamos – e, no fim, todos nós pagamos o preço por este abandono.

 

A sociedade

Mas nem só de pessoas se faz “The Nix”. Através das nossas viagens pelas vidas dos personagens, temos vislumbres de como a sociedade de 1960, 1980 e 2011 são ao mesmo tempo muito diferentes e praticamente as mesmas, enquanto transitamos entre os níveis individual e sistêmico das comunidades.

A sociedade de Chicago, na década de 60, borbulhava com protestos, manifestações e revoltas – como vimos em “When We Rise“. A Guerra do Vietnã, vista como um desperdício de vidas estadunidenses pelos jovens, somado ao crescente movimento hippie, preparou um caldeirão de rebeliões feministas, homossexuais, negras e de outros grupos minoritários contra os Estados Unidos e o que eles representavam: uma nação de homens velhos brancos sob interesses belicosos, intervencionista, com liberdade para alguns e justiça para poucos. Por outro lado, os grupos conservadores viam nesse levante uma tentativa de destruir tudo o que eles representavam.

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Os protestos de 68 em Chicago. O foco era contra a Guerra do Vietnã, mas deu espaço para diversos outros protestos emergirem.

Esse retrato não poderia ser mais diferente do que vemos em 2011, principalmente através dos alunos de Samuel. Uma sociedade composta por jovens apáticos, vidrados em redes sociais, egoístas ao extremo que não veem problema em desgraçar a vida de alguém se for para fazer algum bem a si, ou se poupar de algum esforço produtivo real. Mimados e fúteis, os jovens de nossa geração – eu e, provavelmente, você, que lê esse texto – são capazes de notar a desgraça que nos cerca, mas somos incapazes de realmente fazer algo a respeito. Sobra críticas inclusive para o mercado literário atual:

No mercado de hoje, a maioria dos leitores quer livros acessíveis, com narrativas lineares que se apoiam em grandes conceitos e lições de vidas fáceis.

Agora, se estas imagens se diferenciam à nível social, os indivíduos que as compõem poderiam facilmente serem transportados de uma década a outra com poucas diferenças. O jovem de Chicago da década de 60 ia para as fileiras dos protestos pelos mesmos motivos que o jovem do século XXI vai para uma rede social popular no momento: para se sentir relevante. É por isso que os jovens pegavam em pedras para arremessá-las contra policiais, eu propagavam o poliamor entre seus pares há 50 anos, e é por isso que os jovens postam memes e textões no Facebook, ou são engraçadinhos no Twitter: eles são notados.

Na verdade, é isso que todos nós buscamos na nossa experiência humana: sermos notados, forjar conexões e conceber um propósito através dessas conexões. A única diferença é que, no geral, jovens não conseguem disfarçar isso tão bem.

 

O livro

É aí que reside a genialidade do autor, Nathan Hill: ele entende o que é intrínseco aos seres humanos, em seus erros e acertos. Hill consegue transpor a individualidade através das décadas, entendendo que o anseio de jovens sempre vai ser o mesmo, independente de quando e onde eles vivam, e que, embora esse processo de formação de identidade seja momentâneo, suas consequências podem ser permanentes.

Todos devemos coisas demais – este é o consenso -, e vamos pagar com alguns anos de dor. Mas Faye pensa: está tudo bem. Esse provavelmente é o jeito que tem que ser. Esse é o caminho natural das coisas. É assim que achamos nosso caminho de volta. É o que ela dirá ao seu filho, caso ele pergunte. No fim, todas as dívidas devem ser pagas.

O livro não é perfeito, no entanto. Em suas várias centenas de páginas, Hill busca se aprofundar em todo e qualquer personagem minimamente importante para a trama com o qual esbarramos ao longo da narrativa, e isso muitas vezes torna o livro moroso, com desvios demais. Embora muitas histórias sejam necessárias para que o todo faça sentido, várias poderiam facilmente serem encurtadas ou mesmo suprimidas sem dificuldade. Hill claramente prefere trabalhar cada uma das personalidades que surgem ao longo da história – decisão essa que é questionável, por prejudicar o ritmo do livro.

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O autor, Nathan Hill (@nathanreads, no Twitter).

Demorei três meses para terminar “The Nix”, muito mais por causa dessa morosidade do que pelo tamanho do livro em si. Assim como em “As Crônicas de Gelo e Fogo“, às vezes temos vontade de pular um capítulo quando esse se dá sob o ponto de vista de um personagem que não gostamos, em diversos momentos eu não queria continuar a ler o livro porque quem estava sob o holofote no momento simplesmente não me interessava.

Ainda assim, terminar o livro é satisfatório, não só pela sensação de completude natural que se tem ao virar a última página, mas também porque a história recompensa todo o (enorme) investimento feito nela em seus últimos capítulos, com reviravoltas espontâneas e interessantes. O fato de que “The Nix” vai virar uma série com Meryl Streep no papel de Faye também é um motivador grande para ler este livro, o qual conheci através de uma recomendação do mitológico Stephen King. Mesmo moroso, “The Nix” é um livro que deveria ser para todos, nos falando sobre “nós”, o povo, e “nós”, as pessoas, de forma atemporal.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.