Resenha: Demônio de Neon (2016)

“Você é comida, ou é sexo?”

Resultado de imagem para Neon Demon Poster

Título: Demônio de Neon (The Neon Demon)

Diretor: Nicolas Winding Refn

Ano: 2016

Pipocas: 9/10

Muitas pessoas torceram o nariz para Demônio de Neon (The Neon Demon) quando o filme foi apresentado em Cannes. Não era pra menos, nele, o mundo de glamour e beleza da moda é usado como cenário para retratar a supervalorização da aparência — e aqui não estamos falando da necessidade de postar fotos bonitas para ganhar likes no Instagram, mas de comportamentos patológicos para alcançar um ideal de imagem estabelecido pela lucrativa e cruel indústria da moda. Além disso, atrás do pano de fundo do mundo fashion, existe o vislumbre para o fato de que vivemos numa sociedade cada vez mais narcisista e isso pode inaugurar um novo desgaste social, não mais baseado em poderes econômicos, intelectuais ou culturais, mas pautado pelo que se pode ver: a beleza. Isso é tão preocupante quanto desumano, já que, uma vez que alguém tenha nascido “feio”, pouco se pode fazer para mudar isso em relação a quem define o padrão de beleza, já que na ética de Demônio de Neon, a beleza verdadeira não pode ser manufaturada. Somado a tudo isso, temos o tradicional simbolismo que Nicolas Winding Refn acrescenta aos seus roteiros, criando uma alegoria que, na melhor das hipóteses, é perturbadora.

Os primeiros minutos do filme nos apresentam a protagonista, a lindíssima Jesse (Elle Fanning), posando para fotos num ensaio de tom mórbido. Já aí, fica estabelecida a paleta de cores mais constante do filme, os tons de azul e roxo e o apelo para o neon. Isso muda de acordo com a ascensão de Jesse — o dourado e cores mais vibrantes vão tomando o lugar dos tons mais escuros. A história segue uma linearidade muito básica, que inspira uma superficialidade proposital. O filme sobrepõe, a todo momento, aparência e conteúdo, sendo a primeira muitíssimo mais relevante. Isso fica evidente a cada diálogo dos personagens, seja em como Jesse é prescrutada na cena do banheiro, quando Ruby (Jena Malone) a apresenta a duas outras modelos, ou quando ela participa de uma seleção num ambiente vazio em que todas as mulheres estão usando apenas roupa de baixo, o que é perturbador não apenas pelo nível de reificação das pessoas, mas, principalmente, por ser uma rotina extremamente verossímil ao mundo da moda.

The Neon Demon

O que mais chama atenção no filme, e passa batido para quem desconhece o trabalho de Refn, é a construção simbólica das cenas, criando uma perfeita alegoria ao final. Analisando a personagem principal, descobrimos que, em determinado momento, ela assume não ter nenhum talento, mas sabe que é apenas bonita e pode fazer dinheiro disso. Além dessa informação, o que temos são “não-informações’: ela não é de Los Angeles (local da ação) e seus pais não estão por perto — na única menção a eles Jesse diz “they’re not around” — fim. Jesse só se afirma em relação à sua beleza, em momentos que beiram o constrangedor para a audiência (não para a personagem). Em entrevista, Elle Fanning revelou que, ao ter uma primeira conversa com com Refn sobre o filme, o diretor lhe fez uma pergunta desconcertante: “você se acha bonita?”. A questão que para Fanning, e para maioria de nós (reles mortais), tem o poder de nos deixar vermelhos e envergonhados, para Jesse é, na verdade, muito simples. Isso reforça o narcisismo e a hegemonia da aparência no filme. Em suma, o que resta da personalidade da protagonista é a incômoda percepção da própria beleza, apesar de uma ingenuidade suspeita que, aos poucos, “desaparece”. Além disso, Jesse é o desejo de galgar espaços de cada vez mais destaque como modelo. Em suma, ela é só a aparência que tem, movida por um desejo que é motivado por sua aparência; um ciclo de ausência de conteúdo e superficialidade narcisista.

The Neon Demon

Por fim, numa última sequência que encerra o questionamento do início desse texto, Jesse é engolida pelas rivais. Aqui Refn conduz uma metáfora cinematográfica óbvia, porém a executa num contexto extremamente perturbador. É realmente muito incômodo notar a feiura do canibalismo em oposição aos seres tão esteticamente agradáveis que o praticaram. Novamente, existe um jogo com a falta de sentido quando se pensa nas reais motivações para o ato final ter sido feito. Esse é um momento bastante tenso da história e garante momentos de pavor, sem apelar para nenhum jump scare. Uma curiosidade interessante é que toda essa sequência foi gravada na mansão onde Pânico 3 foi gravado.

Por fim, não podemos achar Demônio de Neon outra coisa se não perturbador, seja pelo jeito como ele expõe determinados aspectos do mundo da moda, assunto em que Refn teve consultoria de uma das atrizes que também é modelo, ou pela maneira como o diretor inventou para criar sua alegoria atropofágica. Na primeira metade do filme, o neon do mundo da moda e todo o seu brilho nos é dado, mas, na metade final, o demônio entra em cena, e é aí que ele executa o seu filme de terror feito por e para mulheres, com personagens masculinos coadjuvantes e uma história que dificilmente será capaz de causar indiferença.

The following two tabs change content below.