The Good Place (2016-atual): uma comédia sobre nossas motivações ruins

O inferno, geralmente, somos nós. Independente de quão bom e maravilhoso é o lugar que estamos, o ser humano tem a capacidade de transformar o paraíso em inferno simplesmente por ser, em bom português, ridiculamente chato. Eternamente insatisfeitos, propícios ao drama e egoístas carentes, a espécie humana ainda existir em sociedade, mesmo que em frangalhos, é um milagre explicável apenas pelas grandes mentes. Se Jean-Paul Sartre disse que “o inferno são os outros”, é completamente aceitável entender que, para os outros, o inferno somos nós. “The Good Place”, essa ótima série da NBC, trata exatamente sobre a nossa capacidade de revirar o paraíso ao avesso em busca de nossas vontades individuais e mesquinhas.

Falando em mesquinha, a protagonista, Eleanor (a fantástica Kristen Bell), morre e acorda no Lugar Bom – que é tipo o Céu bíblico, só que diferente em sua formatação. Lá, Eleanor é recebida por Michael (Ted Danson, outra escolha perfeita), um ser cósmico em forma humana que foi responsável pela criação desta “vizinhança” no Paraíso na qual Eleanor passará sua eternidade. Ao conhecer sua alma gêmea, o excêntrico Chidi (William Jackson Harper), ela o confidencia de que, na verdade, era uma pessoa horrível, e que foi parar no Lugar Bom por engano. Preso em uma situação impossível, Eleanor e Chidi tentam esconder a verdade enquanto outros moradores da vizinhança, e mesmo Michael, parecem ter seus próprios segredos.

O curioso é que o Lugar Bom é, na verdade, o Lugar Perfeito: tudo o que você quiser pode ser materializado instantaneamente. Qualquer tipo de comida ou bebida, uma casa maior, uma praia ou uma piscina, uma torre de batata frita com queijo (inclusive, quero): toda a criação está ao seu alcance. Não há trabalhos obrigatórios, e todas as suas funções são escolhidas por você mesmo em caráter de hobby – e voar é uma opção. Tudo isso é possível a todos os habitantes da vizinhança, mas, ainda assim, eles continuam a encontrar problemas para sua existência.

the good place

Essa configuração de “The Good Place” coloca em evidência dois fatores. O primeiro é o fato de que boas ações, por si só, não constituem pessoas realmente boas; boas ações garantem resultados positivos, mas são as intenções que atestam o caráter. Mesmo que Chidi seja uma ótima pessoa, externamente, sua ansiedade e indecisão o consome internamente, por exemplo. Ações boas ainda são capazes de mostrar o que há de pior em nós.

O que nos leva ao segundo fator, o qual é a percepção de que é esse acentuar dos nossos piores que, ao se chocarem, constituem uma verdadeira tortura, e a nossa capacidade de transformar algo lindo em uma zona de guerra. “The Good Place” realça o fato de que não é o ambiente que define nossa felicidade, mas como estamos internamente, mostrando que o contentamento é uma decisão e uma postura que partem de nós para fora.

the good place

Além de uma mensagem interessante que gera boas reflexões, “The Good Place” é, acima de tudo, uma série de comédia, e isso a obriga a ser – obviamente – engraçada, e ela é. Com um roteiro afiado, efeitos visuais consideravelmente ousados para um orçamento televisivo e atuações brilhantes, principalmente do núcleo principal. O final da temporada, especialmente, traz um episódio acima da média, e uma conclusão muito satisfatória do primeiro ano da série.

Agora com “The Good Place” no catálogo da Netflix – com os episódios estreando no Brasil pela Gigante Vermelha no mesmo dia que saem na NBC, nos Estados Unidos -, a série tem tudo para ganhar mais espaço no país, mesmo que limitada por ser diferente. Com muito potencial, ainda no início de sua segunda temporada, e alta qualidade, “The Good Place” é uma série única que, mesmo depois de um infernal dia de trabalho, será capaz de te levar para um bom lugar.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.