The Flash (2014-atual) já deveria ter acabado – ou já deveríamos ter parado de assistir

É claro que, em última análise, todo mundo assiste o que quiser – não é a minha intenção definir o que deve ser assistido ou não. O título aqui tem uma ideia de dever no sentido de seria muito melhor para a nossa sanidade e bem-estar caso o fizéssemos.

Que “The Flash” decaiu muito em qualidade é óbvio. Em sua primeira temporada, a série trouxe uma trama de ficção científica rebuscada, com tramas de viagem no tempo, para o grande público, e foi um sucesso. Situando-se no mesmo universo e sendo um spin-off da série “Arrow“, mas abraçando mais as cores, a leveza e a diversão que poderia trazer, “The Flash” foi um sucesso, e logo ultrapassou a série da qual saiu em audiência.

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Além disso, bons atores estavam sob os holofotes com arcos interessantes. Grant Gustin dava vida a um Barry Allen/The Flash que mostrava aproveitar os seus poderes e realmente estar feliz com eles; Jesse L. Martin é Joe West, pai adotivo de Allen e biológico de Iris West, e figura paternal de grande parte dos personagens, com ambas as vertentes sendo interessantes; Cisco Ramón, o nosso representante quadrinhesco na série, tinha sempre carisma e humor, sendo representado pelo ator Carlos Valdés. O mais relevante, contudo, sempre foi Tom Cavanagh: seu Dr. Wells era altamente ambíguo, variando entre mestre e nêmesis, a atuação de Cavanagh era um dos maiores destaques não só de “The Flash”, mas da TV aberta estadunidense como um todo.

Ao final de seu terceiro, nenhum desses pontos de destaque ainda sobrevive.

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Na sua terceira variação na série, Wells agora é HR, um personagem completamente descartável que, após uma temporada inteira de fazer vários nadas, parece ter sido lembrado de sua existência pelos roteiristas, e algo no nosso Sensor de Idiotices do CW (conhecido como SIC) aponta para a tendência de HR se tornar um heroi em breve para continuar a justificar seu salário. Toda vez que vemos Cavanagh atuando é agridoce; nos lembramos da sua capacidade incrível como ator, mas também da mediocridade triste à qual foi submetido nas mãos dos campeões que escrevem “The Flash” atualmente.

No último ano, Cisco ficou amargurado e levou em sua depressão boa parte da leveza da série – e, mesmo depois do personagem melhorar, esta não retornou. Joe West perdeu seu propósito ao longo do tempo, sendo jogado em um arco romântico pífio e trancafiado na trama de “meu Deus, um dos meus filhos vai morrer” ano após ano. E, claro, nosso Barry Allen, após cometer o mesmo erro absurdo duas vezes, e ter que ver sua mãe morrer mais do que o recomendado por qualquer psiquiatra, agora teve que encarar o fato de que sua noiva estava condenada a morrer nas mãos do vilão velocista da temporada. Claro que o personagem se tornou lúgubre e menos feliz, o que não seria particularmente danoso se toda a série não tivesse tomado o mesmo rumo.

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Mesmo que sejamos fãs de “The Flash” (ainda. De alguma forma. Por algum motivo.), sabemos que este nem é o maior problema da série. O maior vilão do Velocista Escarlate não foi o Flash Reverso, nem o Zoom, nem Savitar. O maior inimigo de Barry Allen e companhia sempre foi – e será – sua equipe de roteiristas.

É fato de que a transição da Supergirl da CBS para o CW no ano passado atrapalhou o planejamento de “The Flash” – o chove-não-molha de não saberem se ela iria integrar o universo de Barry e companhia obrigou a série a deixar um final mais aberto do que o necessário ou desejável. Porém, a própria segunda temporada perdeu ímpeto e ritmo – ironicamente -, e o final e as revelações do Zoom já foram pífias. A terceira temporada ser afetada em seu início pela incerteza em volta de Supergirl é entendível, mas todos os vinte e três episódios da temporada ficarem piores por isso, não tem explicação.

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O principal indicador da piora óbvia de “The Flash” é na sua trama principal: enquanto antes era clara, mesmo com suas confusões de viagem no tempo, e demandava uma simples explicação num quadro da série para entendermos, agora é um caos inexplicável. O mais deprimente é que a série de fato tenta se explicar, enrolando a corda em volta do pescoço: o roteiro pede que uma regra explicada há três episódios seja quebrada. A explicação que Cisco deu em seu quadro no episódio 21, “Cause and Effect”, já não faz mais sentido agora, quando entramos em “Infantino Street”.

Se a pressa é inimiga da perfeição, “The Flash” deve estar correndo muito rápido em direção ao final da sua temporada, na próxima semana, para conseguir estar tão longe de ser uma série boa. Perdida entre arcos simplesmente chatos, personagens bidimensionais e sem carisma e tramas estrambólicas e muito além do que eles são capazes de lidar (e roteirizar), “The Flash” agora é uma série reminiscente do que já foi, perdida no vórtex temporal sem sentido que criou para si mesma.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.