Roleta de Discos: The Dark Side of the Moon (1973)

A palavra “lunático”, etimologicamente, tem a ver com “lua”. Os antigos acreditavam que pessoas atormentadas por períodos de insanidade eram diretamente afetadas pelas fases do satélite. Partindo daí chegamos a um disco que não é apenas um marco para o rock, mas para a cultura moderna como um todo — The Dark Side of the Moon do Pink Floyd (1973). Em sua concepção, a ideia de The Dark Side of the Moon foi abordar temas cotidianos da vida das pessoas e como certos níveis de instabilidade mental podem fazer com que lancemos outros olhares sobre eles. Em suma, esse é o conceito que Roger Waters vendeu para os outros membros da banda e todos eles compraram a ideia imediatamente.

The Dark Side of the Moon
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Isso foi primordial para dar vida a um álbum que é simplesmente impossível de ser ouvido com suas faixas separadamente. Você pode até fazer isso se quiser, mas individualmente, as canções perdem um pouco da sua força. Digo isso porque quando o disco abre em Breathe, temos um coração batendo e um apanhado sonoro que referencia brevemente todas as músicas que irão se seguir e, ao fim da canção final, temos a mesma batida que, inevitavelmente pára. Esse é só um exemplo da ligação entre as canções, que acontecem o tempo inteiro.

A inspiração principal de Waters para fazer a sugestão do conceito foi o relacionamento que a banda tinha com seu ex-guitarrista e vocalista e principal compositor, Syd Barrett, que viveu anos de um intenso deterioramento mental graças ao uso excessivo de LSD. A banda tornaria a falar sobre ele em 1975 com Wish you Were Here, mas sob uma perspectiva um pouco diferente (comentei isso no texto linkado). Por fim, para terminar de introduzir o disco, vale dizer que o impacto dele na música foi muito grande, primeiramente para o Pink Floyd, pois foi um passo à frente no estilo em desenvolvimento com David Gilmour nas guitarras e vocais e também para o restante do mundo que foi impactado pela gravação fazendo com que teorias de sincronização surgissem em relação ao musical O Mágico de Oz ou ainda influenciando bandas a fazerem trabalhos estupendos no futuro, como o OK Computer do Radiohead, que tem várias similaridades ao Dark Side of the Moon e, não à toa, foi considerado a versão anos 90 do disco.

The Dark Side of the Moon

Por fim, sem mais delongas, vamos ao faixa a faixa!

Speak to me

A canção é uma passagem instrumental rápida que abre com um coração batendo e vários pedaços de músicas que culminam em alguns gritos de The Great Gig in the Sky e, ao terminar, entra a música seguinte. Interessante notar que The Great Gig in the Sky é uma metáfora para morte, e ao ter uma pequenina parte reproduzida, a música entra em Breathe (“respire”). A ideia de ciclo é apresentada através da metáfora musical e ela se repete ao longo do disco.

Breathe

A canção tem uma letra que expõe trivialidades da vida e a importância de estar atento a elas, afinal de contas, são dessas pequenas coisas que a vida é feita. “Don’t be afraid to care”, ou seja, “não tenha medo de se importar”.

On the Run

Ao fim the Breathe caímos nessa faixa instrumental que tem uma marcação de bateria com um sintetizador frenético e outros vários sons que simbolizam várias coisas (entre elas o medo de aviões de Richard Wright, tecladista da banda). A ideia daqui é sair da calmaria e contemplação da faixa anterior para entrar do ritmo acelerado e desesperado da vida.

Time

Como não poderia deixar de ser, a correria da faixa anterior estimula uma profícua reflexão sobre o tempo. Nessa canção, temas como a transitoriedade da vida e como, em geral, as pessoas têm sempre tantas coisas para fazer e nunca acham tempo o suficiente. A música abre com relógios e segue com um tique-taque repetindo. Isso é um ponto interessante de The Dark Side of the Moon que, muitas vezes, conversa com a música concreta. Ao encerrar, a canção faz um link com Breathe novamente, retornando à questão cíclica e sendo aqui um ponto que prova que esse não é um disco para ouvir com faixas separadas.

The Great Gig in the Sky

Feita para encerrar o lado A do bolachão, essa faixa é como se fosse uma divisão de parágrafos. A canção é um instrumental com vocais de Clare Torry, mas não há letra.Talvez essa seja uma grande alusão aos dois principais aspectos da morte: o primeiro, sua inevitabilidade, assim, todos sabem que ela está para chegar (por isso os vocais), o segundo, a incognoscibilidade da passagem (por isso a ausência de letra).

Money

A música concreta volta à cena com uma segunda parte do disco que começa animada. A canção abre com sons de moedas e caixas registradoras no tempo do riff de baixo. Os barulhos vão e vem, eventualmente. Além disso, a letra é uma sátira à ganância e ausência de sentido no dinheiro dos ricos. Curiosamente, essa é, até hoje, uma das músicas de maior sucesso comercial do Pink Floyd. A canção é marcada por solos de saxofone de Dick Parry; carta marcada em diversos discos, canções e shows da banda, e uma mudança de andamento fenomenal para um solo incrível com direito walking bass de base e paradinha. É impossível não se empolgar.

Us and Them

Aqui já temos indícios de que o disco está indo para o final. O andamento da música é lento e o clima é bastante contemplativo. A letra explora dicotomias do cotidiano e como as pessoas lidam com isso. Novamente, temos o sax de Parry se destacando. Em alguns pontos, a canção conta uma história de guerra em seu crescendo e, em outros, a ciclicidade da vida torna a aparecer.

Any Color you Like

O último verso de Us and Them diz “the old man died”. Dessa forma, caímos, mais uma vez, no incompreensível. Por isso temos o clima psicodélico dessa canção que, faz o link com a próxima canção. Vale lembrar, que para finalizar, a música referencia a parte instrumental do final de Breathe e de Time, outra referência cíclica.

Brain Damage

A música que aborda Syd Barrett de maneira mais direta já que é aqui que a demência é mostrada como uma parte eventual da vida. Fica inegável que a canção tenha um clima sessentista bastante características dentro da identidade sonora do disco. Por fim, a música faz um pequeno interlúdio que culmina na última faixa.

The Dark Side of the Moon

Eclipse

Quando chegamos aqui temos um apanhado de tudo o que pode acontecer na vida de uma pessoa. Por isso todas as frases são começadas da mesma forma e, por fim, os versos finais atestam que tudo debaixo do Sol está conectado mas o astro é eclipsado pela lua, numa alusão ao fim da vida. Por fim, resta uma frase que deixa a entender que exista uma certa transcendência “There is no dark side of the moon really. Matter of fact it’s all dark” (“o lado negro da lua não existe. Na verdade é tudo negro”). Ou talvez essa parte ateste mais fortemente os mistérios que vida e morte são. A palavra “eclipse” vem do grego para “deixar para trás”. Dessa forma, com as batidas do coração que param, sabe-se que algo ficou para trás depois de ouvir The Dark Side of the Moon, mas não se sabe exatamente o que.  

Nota: 10 / 10
Aumenta o volume: TODAS!
Abaixa o volume: Dá um MUTE na vida, que passa rápido demais para você não ouvir esse disco.


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