Comentário | The Crown – uma série, a coroa e o legado Windsor

Este texto não contém spoilers da série “The Crown” (embora ela seja praticamente um documentário dramatizado), apenas considerações sobre a trama e os personagens.

O legado Windsor

the crown

Em 1917, devido às turbulências da Primeira Grande Guerra, o rei George V decidiu mudar o nome da família real britânica, que era uma ramificação da família Haus Sachsen-Coburgo und Gotha, para Windsor.

Dentre outros aspectos políticos, a mudança ocorreu principalmente em função do sentimento anti-alemão crescente entre os nobres do império britânico e da abdicação forçada do Czar Nicolau II, da Rússia, que abriu precedente para a abolição de várias monarquias na Europa. Logo, era natural que o nome Haus Sachsen-Coburgo und Gotha, pertencente a uma dinastia alemã, fosse ser suprimido.

Em 1936, com o falecimento do rei, ascende ao poder Edward VIII, primogênito de George V. No mesmo ano de sua ascensão, Edward VIII renuncia ao trono britânico. Em suas palavras: “Eu achei impossível carregar o pesado fardo da responsabilidade e cumprir meus deveres como rei, como gostaria de fazer, sem a ajuda e o apoio da mulher que eu amo”.

A mulher em questão era Bessie Wallis Warfield, socialite americana e duas vezes divorciada. Pelo conflito constitucional que envolveria o supremo líder da Igreja Anglicana e monarca do Reino Unido se relacionando com uma mulher duas vezes divorciada, Edward VIII abdicou de seus poderes imperais para viver com Wallis.

Com a abdicação de Edward VIII, o trono ficou a cargo de seu irmão Albert, que vivera a vida sem pretensões ao poder. Albert tomou emprestado o título de seu pai e se tornou o rei George VI.

O reinado de George VI foi marcado pela travessia da tensão e infelicidade da Segunda Grande Guerra até o período de relativa paz que sucedeu o conflito. O estresse da guerra e o tabagismo compulsório fragilizaram a saúde de George, que faleceu em 1952, deixando a sucessão do trono para sua filha mais velha, que aos 25 anos de idade daria início ao segundo reinado elisabetano, que se estende até os dias atuais.

familia real

 

The Crown

Como um mero plebeu, distante geográfica e socialmente do reinado britânico, era conveniente para mim pensar que o papel da família real fosse puramente representativo. Caso você ainda não tenha assistido, mas pretenda assistir ao seriado da Netflix, vai descobrir que realmente o é, e isso não é um spoiler.

Duques e duquesas, príncipes e princesas, lordes e ladies. Todos esses títulos representam pessoas às quais foi designado algum poder dentro do território do império britânico. Na maior parte do tempo esse poder se resume à presença em eventos, favorecimento para a distribuição de cargos e, talvez o mais importante mas que não abrange todos os nobres, influência no jogo político.

Em outras palavras, os títulos de nobreza são similares a pulseirinhas VIP em uma boate, com a diferença de que ninguém paga para ser VIP. De fato, os nobres recebem quantias generosas por isso.

Então a série se resume a nobres esbanjando o dinheiro público, correto?

elizabeth
Errado.

O retrato da família real nos primeiros anos do reinado de Elizabeth II é um castelo de papelão do qual todos os membros são peças de sustentação e se um cair pode levar consigo toda a máquina monárquica.

A Rainha Elizabeth II (Claire Foy), a princesa Margaret (Vanessa Kirby), irmã de Elizabeth, e o príncipe Philip (Matt Smith) enfrentam situações que desvendam uma versão da família real que nós não estamos acostumados. Como você se sentiria se cada ação sua refletisse no futuro do seu país? O que você faria se todos os acontecimentos internos da sua família fossem o exemplo para cada família da nação? Como você viveria se a sua aparência e personalidade fossem representações obrigatórias do lugar onde você vive?

Existe, afinal, um motivo para que a série se chame “The Crown” e não “Elizabeth”.

Pontos fortes

A série traz tramas e questões muito singulares a monarquia: o fato de casamentos por amor serem exceções quando todas as relações são assuntos de estado; o sentimento de Philip ao perceber que tem menos poder que sua esposa, enquanto fazia parte de uma sociedade conservadora; a necessidade de renovação política durante o pós-guerra.

winstons churchill

“The Crown” prima pela excelência em sua produção, tanto nos figurinos, que sutilmente descrevem a personalidade das personagens, quanto nos efeitos especiais. É realmente incrível o esmero que produtores, diretores e artistas gráficos depositaram na produção da série. A representação da Inglaterra dos anos 40 a 60, sem os aranha-céus e com suas ruas largas e paisagens simétricas, é absolutamente crível. Os 100 milhões de dólares de investimento, que a tornaram a série mais cara da Netflix, foram muito bem utilizados.

palácio buckingham

Além disso, os atores se adequaram muito bem aos papéis. Em especial Claire Foy (Elizabeth II), que com sutilezas consegue envelhecer, renovar e aprofundar a Rainha em segundos, e John Lithgow que entrega anos de dedicação política, a energia despertada apenas naqueles considerados obsoletos e personalidade forte como marcações dos últimos anos da vida pública de Winston Churchill. Não à toa, Claire venceu o Globo de Ouro com a personagem e foi indicada ao Emmy; John Lithgow, por sua vez, foi indicado ao Globo de Ouro como Melhor Ator Coadjuvante e venceu o Emmy na mesma categoria.

 

Pontos fracos

Sinceramente, os pontos fracos da série não saltam aos olhos. O primeiro é a passagem de tempo. Cada temporada trata de mais ou menos dez anos da vida de Elizabeth, portanto os saltos temporais são constantes e às vezes acompanhá-los é um desafio. Esse problema fica bem marcado quando em um episódio Margaret, irmã de Elizabeth, está extremamente infeliz e no episódio seguinte age com normalidade, como se aquele problema já estivesse resolvido.

margaret

O segundo ponto é a atuação de Matt Smith. Como um não-consumidor de “Doctor Who“, “The Crown” foi o meu primeiro contato com o ator. O “Philip” de Matt é uma personagem frequentemente caricata embora seja contida, como se todas as reações que se permite ter fossem extremas: extremamente feliz, extremamente bêbado, extremamente arrogante, extremamente apaixonado, extremamente estereotipado.

De todo modo, recomendo que você assista “The Crown” por todos os valores artísticos e históricos que a série traz. Em vários aspectos, ela remete a “Band of Brothers”, com suas diferenças óbvias, pelo olhar sensível sobre questões que os livros de história tratam de maneira mecânica. A série funciona muito bem como simples entretenimento, mas seu potencial para instigar entusiastas da História é certamente muito valoroso.

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