Submarino (2010)

“Meus caros americanos, o filme que vocês verão agora é uma biografia da minha vida. Os eventos que transcorrem nele se deram, há pouco tempo, na orgulhosa terra de Gales. O País de Gales é próximo à Inglaterra, o país que vocês fingem tratar como igual. Minha terra produziu Catherine Zeta-Jones, Tom Jones e outras pessoas. Vocês ainda não invadiram o meu país e por isso eu sou grato. “Submarino” é um filme importante. Veja-o com respeito. Atenciosamente, do seu protagonista, Oliver Tate.”

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Título: Submarino (“Submarine”)

Diretor: Richard Ayoade

Ano: 2016

Pipocas: 8/10

Leia esse texto ouvindo a trilha sonora composta por Alex Turner.

Prenda sua respiração, você está em um aquário confortável agora. Você está cercado de água; os sons que chegam até você parecem distantes e abafados, as imagens estão distorcidas e você está limitado por paredes nas quais você aprendeu a confiar. O que acontece quando mudanças externas te obrigam a ser mais do que você está acostumado, ou mesmo do que você quer ser?

Quando o mundo te faz um peixe fora d’água, ou você se adapta ou você morre. Este é “Submarino”.

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O nosso protagonista que se apresentou, Oliver Tate (Craig Roberts), é um jovem garoto de 15 anos com óbvia ansiedade social e princípio de depressão que dirige a própria vida como um filme. Antes que o julguemos, sejamos justos e admita: quantas vezes você mesmo já não fez isso? Você olha pela janela do ônibus, na chuva, e pensa em como a câmera se afastaria agora durante o clipe da sua música favorita; você dá o primeiro beijo em alguém que você quer amar para sempre e a trilha sonora sobe em seus ouvidos; você termina o colégio ou faculdade, e sente que aquele é o último episódio da temporada atual da sua vida.

A diferença é que, para Oliver, tudo isso é literal. Entre takes e zooms, Oliver tenta editar momentos incômodos de sua vida e se afastar de dores que o atingem, assim como nós, na audiência, somos poupados destes eventos nos filmes.

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Na adolescência, não tarda para que pressões externas se assomem em seus dois principais círculos, o escolar e o familiar. Seus pretensos amigos de colégio – que não pensam duas vezes antes de ridicularizá-lo – fazem com que ele busque perder a virgindade para ser aceito. Com seu temperamento com tendências à obsessão, ele se fixa em Jordana Bevan (Yasmin Paige), uma garota de temperamento explosivo e tendências ao bullying, e vai mais longe do que gostaria para conquistá-la – e tem sucesso nisso.

O relacionamento dos dois começa baseado no fogo. As chamas estão no seu isqueiro quando ela acende seu cigarro; está na maneira como ela queima os cabelos da perna de Oliver fazendo os dois rirem, ou a forma como quando os dois ficam estressados, fazem uma fogueira e só assistem o fogo crepitar para relaxar, ou estouram fogos e se põem a observá-los. Como um bom fogo, esse relacionamento não tarda a esfriar e (sem entregar da trama), basta dizer que, em “Submarino”, o amadurecimento se relaciona com a calmaria e constância do mar, e não com as chamas fugazes da adolescência.

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No círculo familiar, o distanciamento gradual de seus pais empurra Oliver a tentar manipular os dois para que se aproximem; suas técnicas de verificar se eles têm feito sexo ou não pela intensidade da luz do quarto se provam insuficientes para mantê-los juntos quando um ex-namorado da sua mãe Jill (Sally Hawkins) passa a ser vizinho da família.

Aqui, o filme observa que o amadurecimento – a água – não é necessariamente bom. O pai de Oliver, Lloyd (Noah Taylor), sofre de depressão; quando perguntado pelo filho como era se sentir melancólico com tanta frequência, Lloyd responde que é como estar sob a água: tudo parede distante, distorcido, ecoando sem clareza e incapaz de te afetar. Oliver aponta, em seguida, que deve ser por isso que o pai é biólogo marinho.

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Isto não só nos dá um vislumbre dentro da mente de um homem depressivo, mas também aponta o caminho que Oliver parece seguir emocionalmente; em um dos seus conflitos, ele se põe a contemplar os peixes do seu pai no aquário, enquanto seu rosto é refletido no vidro dentro da água. Mesmo com seus pais conversando sobre ele a poucos metros de distância, ele não parece ouvir, submerso em sua própria tristeza.

Por outro lado, o que ouvimos com muita clareza é a maravilhosa trilha sonora de músicas originais composta por Alex Turner, do Arctic Monkeys. Todas as canções reproduzem esse ar melancólico sem cair no melodrama, e as letras são de um cuidado incrível. Ela se destaca ainda mais por ser usada em momentos silenciosos do filme, onde só vemos a versão cinematográfica que Oliver vislumbra de sua vida, enquanto uma das músicas (praticamente acústicas) de Turner enchem nossos ouvidos e nos mergulham na cena.

Embora o resumo oficial do filme o coloque como um “American Pie” indie, a verdade é que Oliver Tate não está em busca de sexo e de controlar a vida de seus pais. A sua necessidade de controle, e de dominar a situação, é somente um fruto da sua ansiedade social, que se intensifica quando ele observa que absolutamente nada está sob seu controle. O que Oliver está procurando é o equilíbrio entre o fogo desesperado da adolescência e as águas paradas da vida adulta.

Oliver Tate só busca saber crescer.

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Assim sendo, não é uma surpresa quando ele encontra no mar – entre suas fortes ondas e sua cadência controlada – um meio-termo aceitável para seu futuro, seja este sozinho ou acompanhado.

O que fica de “Submarino” é que o submergir faz parte de ser humano, tanto quanto o queimar, mas que ser o mar é divino. Então me dê a mão (e talvez pegue um snorkel).

Acho que já está na hora de enfrentarmos as ondas.

***

Leia Também:

Nosso podcast cheio de lágrimas engraçadas e sorrisos tristes sobre “As Vantagens de Ser Invisível” – o livro e o filme.

Outro filme indie sensível e com riqueza de conteúdo, “Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer”.

As desventuras de crescer sendo sempre a primeira geração do mundo na coluna Transversal.

 

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.