Sobre Princesas e Guerreiras: As Mulheres em “Game of Thrones”

Em uma história cavalheiresca, baseada no período medieval, esperamos encontrar princesas frágeis em busca do seu príncipe encantado no cavalo branco. Mas o que vemos em “Game of Thrones” são princesas manipuladoras, rainhas vingativas e muitas guerreiras – todas mulheres fortes e bem escritas (umas nem tanto). Essa sexta temporada foi marcada pela consolidação do crescimento dessas personagens, chegando ao ponto de vermos personagens antes submissas agora em posições de comando, bem como o surgimento de personagens já fortes em sua essência.

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As rainhas guerreiras e as guerreiras soberanas.

E falando sobre crescimento, a personagem que mais se destacou foi Sansa. Ela começou como uma menininha frágil, que sonhava com o príncipe, que queria ser a perfeita e recatada senhora – e a vida não foi nada fácil para ela. Como a bichinha sofreu ao longo dessas seis temporadas! Ela viu a morte do pai, passou por noivos crueis, foi arrancada da sua família e sua casa, sofreu violência sexual, física e psicológica. Cresceu absurdamente depois disso. Agora é uma mulher feita, entende da política dos sete reinos e conseguiu a vingança tão esperada.

Para ser bem sincera, acho que uma mulher pode crescer, se empoderar, se emancipar, independente de precisar sofrer algum tipo de violência. Nesse ponto a série forçou a mão para mostrar a volta por cima da personagem. E queria muito, apesar de gostar do Jon Snow, que ela fosse a Rainha do Norte. Começaríamos a próxima temporada com três rainhas, seria lindo!

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Em contrapartida, sua irmã Arya nunca se enquadrou nos padrões de Westeros para boas moças. Sempre quis treinar armas com seus irmãos e nunca ligou para quais eram os predicados de uma lady. Essa menina sofreu tanto quanto a irmã e se tornou a personagem mais independente da obra – e a minha favorita. Hoje é a assassina e confeiteira mais eficiente de Westeros.

Por outro lado, um aspecto que me incomoda um pouco em GoT é a necessidade de reduzir a busca de poder de algumas mulheres à loucura. Vimos isso bem claro nessa temporada em duas personagens, Cersei e Daennerys. É como se uma mulher não pudesse buscar o poder por ela mesma, como se tivesse sempre um probleminha por trás.

No caso de Cersei, teve que explodir o Septo com todos os seus desafetos, perder os três filhos e se aliar a um necromante para conseguir sentar no trono. Já a Mãe dos Dragões mostrou momentos de loucura ao querer lidar com seus inimigos. O plano da rainha era queimar a cidade toda (quase um paralelo com a Cersei) com todos os inocentes. Ela mudou de ideia por conselhos masculinos que a lembraram do seu pai louco.

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Na série, há, ainda, uma outra visão masculina sobre a força feminina que me incomoda muito: a necessidade de masculinização da mulher. Como se para ser forte uma mulher precisasse ser “macha”. Esse ponto de vista é bem claro nas Serpentes de Areia de Dorne. Fica evidente, e bem diferente dos livros, que essas personagens são uma visão deturpada dos homens sobre mulheres. As meninas são brutas, hiperessexualizadas, nada estratégicas e só agem por impulso.

Outra personagem bem forte e que teve seu perfil deturpado do livro para série foi Yara (Asha nos livros. Será que foi por isso que mudaram o nome?). A princesa das Ilhas de Ferro ficou mais masculinizada na série ao ponto de mudarem sua orientação sexual. Uma mulher não precisa agir como homem para ser forte e poderosa. Entendo que no contexto medieval simulado pela obra a mulher, para se impor, deveria ter uma postura mais masculina, mas ainda prefiro a versão dela dos livros, mais feminina e igualmente poderosa.

Mas ok, ela continua sendo bem interessante, e a cena com a Danny foi linda!

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“As Ilhas de Ferro já tiveram uma rainha?”, “Não mais que Westeros”. *sorrisinho*

Quem faz um contraponto interessante é a Brienne que, apesar de se portar como um cavalheiro, ela tem uma delicadeza no agir, até mesmo na hora de lutar. Mesmo sendo grande, tendo cabelo curto, ela é uma bela representação feminina. Quase uma senhora típica que se apaixona por príncipes em cavalos brancos. A cereja no bolo da representação da Brienne veio com o encontro dela com a Sansa. Que dupla incrível. Elas transpiram sororidade! Uma das cenas mais tocantes dessa temporada foi exatamente o juramento de fidelidade das moças. Quero muito que na próxima temporada elas voltem atuar juntas.

Outro arquétipo feminino bem representado é o de mulheres manipuladoras, e na série me parece ser hereditário. As duas principais Tyrell: Margaery e Olenna, neta e avó, são incrivelmente manipuladoras e ardilosas. Elas conseguiram três casamentos reais, para a neta, e ainda matar um rei. Só não contavam com a loucura da Cersei que levaria a bela Margaery dessa para melhor. Com isso, a Rainha dos Espinhos se uniu às Serpentes de Areia em favor da Rainha Não Queimada pelo trono de ferro. Veremos brigas entre mulheres na próxima temporada. Só espero que não caia no estereótipo puxão de cabelo e arranhão…

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Por fim, não é fácil escrever bem sobre mulheres, criar personagens femininos significativos. Mas o importante é que a obra está tentando. Para uma mulher, é muito importante se enxergar nos personagens. E entre trancos e barrancos, a série consegue mostrar essa representatividade. Que venham mais mulheres!

Texto escrito por Bere Chiavegatto: professora, membro do Cast nas Infinitas Terras, host do Cantinho Sentimental e ser de luz.

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Não deixe de ler:

Na verdade, ouvir nosso PontoCast Extra! sobre a sexta temporada de Game of Thrones.

Também temos impressões da temporada como um todo…

…e especialmente do fatídico último episódio.

 

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