Resenha: Sobre o Amor (2016) – Bukowski e a inspiração na vida

“Em noites como esta, recupero o que posso. a vida é dura, a escrita é livre”

– Minhas Paredes do Amor, Charles Bukowski

sobre o amor

Henry Charles Bukowski sempre foi reconhecido no meio literário como um escritor marginal, fazendo jus ao apelido de ‘mosca de bar’ ao vivenciar e, posteriormente, relatar através de contos e poemas a face não glamourizada da grande Hollywood entre as décadas de 1950 a 1990. Sua fama foi consequência de uma escrita crua e objetiva de uma realidade na qual poucos escritores estavam dispostos a se aventurar.

Em “Sobre o Amor” (2016), vemos um poeta distanciado da figura caricata exposta em “Misto Quente(1982) e “Mulheres(1978), romances responsáveis pela popularidade de Bukowski na atualidade, pois não há tanto rancor ou peso pela existência, tampouco encontra-se um eu lírico distante da situação, mas sim uma leveza e suavidade ao tratar de sentimentos em suas essências, dando ao amor atributos que ultrapassam o amor romântico idealizado entre os autores e romancistas ao longo da história. O livro conta com fotografias pessoais e ilustrações de Charles Bukowski, além de cópias de alguns de seus poemas datilografados.

O livro conta com uma coletânea de poemas onda Bukowski trata do amor e de sentimentos puros; ao contrário do que o título sugere, “Sobre o Amor” não aborda exclusivamente a paixão do autor com mulheres e, de certo modo, filtra entre todos os nomes que vemos passar pelas histórias de Bukowski e Chinaski (alter-ego utilizado por Charles em seus textos), aqueles que mais foram importantes para o crescimento e desenvolvimento do poeta. Temas característicos do autor como o excesso de bebida, as corridas de cavalo, o trabalho nos correios e a condição deplorável em que vivia deixam de ser personagens das histórias e se tornam meros cenários para que os sentimentos aflorem e ganhem as páginas.

A escolha de poemas se mostra precisa ao trazer situações de êxtase e paixão de Bukowski, partindo de seus grandes amores como Jane e Linda, mas não se restringindo às mulheres que passaram pela cama de Bukowski. Muitos dos poemas selecionados tratam do amor que Bukowski sentia por Marina, sua filha, e a forma como a paternidade, apesar de complicada, ainda lhe era parte prazerosa e fundamental de seu dia a dia. A relação de Bukowski com sua filha foi pouco explorada em textos do autor e boa parte do que é de conhecido de Charles Bukowski como pai surge de cartas e relatos pessoais.

Ainda entre os poemas selecionados, é possível encontrar um conflito entre as relações amorosas de Bukowski e sua paixão pela escrita. Apesar de Charles dedicar-se integralmente à escrita, sabia que o amor (e suas consequências) também eram necessários para suprir suas necessidades de sobrevivência.

“Sobre o Amor” nos mostra não apenas o Bukowski intenso e desgastado, mas aponta principalmente para a estrutura que alimentou, durante décadas, toda a poesia intrínseca nos textos e poemas do autor, o eu-lírico que fez de Bukowski um autor marcante para sua geração e não apenas mais um entre os escritores marginais de Los Angeles. Apesar do título de ‘velho safado’ – os textos de Bukowski abusavam da sexualidade e da marginalidade, pois estes eram os caminhos pelos quais o autor se utilizava para alcançar os sentimentos mais intensos – retirar esses pontos e lapidar sua obra proporciona uma visão mais clara, e mais elegante, da mensagem que Charles tentara passar durante todos esses anos de escritas, bebidas, solidão e amor.

 


Marília Molinari é graduanda em Letras e viciada em comprar livros. Leitora apaixonada de Ayn Rand e Bukowski, tem preguiça de séries de TV muito longas e não entende muito de tecnologia. Você pode segui-la no Twitter e no Instagram.


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