Slasher: O Carrasco (2016) – a esquisitice não faz o subgênero

Esse texto contém spoilers sobre “Slasher: O Carrasco”, mas ler não faz mal. Se quiser a versão sem spoilers, leia aqui.

Quando lançado em 1996, o filme “Pânico” dirigido por Wes Craven deu um salto revolucionário para o subgênero do slasher, conquistando a bilheteria, e tornando-se referência para a cultura pop. Ainda que a série da MTV, “Scream TV Series”, faça grandes esforços para fazer jus à franquia de filmes, nada impede que o longa continue a servir como fonte de inspiração para outra empreitada, e é dentro disso que a primeira temporada da série antológica do canal Chiller – o defunto canal de terror da NBC -, “Slasher: O Carrasco” dá as caras. No quis diz respeito ao que o subgênero pede, o show até entregou suas mortes e “perseguições”, mas para uma série que almeja ser levada a sério, acaba sendo tosca.

slasher: o carrasco

A série é previsível? Sim, e o Erik tratou de expor muito bem isso em suas primeiras impressões sobre a série; afinal, o previsível é inevitável, mas há maneiras de se conduzir um enredo sem ser afetado por esse aspecto, e, no caso de “Slasher: O Carrasco” (nome desta primeira temporada), a série assume desde o começo de sua trama que não quer seguir por caminhos diferentes. Na trama, é 1988 e noite de Halloween na pequena cidade fictícia de Waterbury, o que para muitos seria um momento diversão – embora não para o casal Rachel e Bryan Ingram (Alysa King e Dylan Taylor, respectivamente), que são violentamente assassinados dentro de casa por alguém fantasiado. Anos mais tarde, os assassinatos voltam a ocorrer depois da chegada do casal Sarah e Dylan Bennett (Katie McGrath e Brandon Jay McLaren) que compram a mesma casa que foi palco do evento trágico (interessante). O mistério? Se o culpado pelo crime de 1988 estava cumprindo pena, quem estaria por trás dos novos homicídios?

Além da motivação dos novos crimes, a série tem em pauta também a motivação do primeiro crime, e isso o criador e roteirista Aaron Martin sustenta muito bem. Em “A Morte Convida Para Dançar”, os alvos do assassino com sua máscara com purpurina eram pessoas que cometeram algo terrível no passado; para o Carrasco – como o assassino é chamada – suas vítimas merecem ser punidas pelos seus pecados (e se a moda pega?): cada uma executou algo dentre os sete pecados capitais, e merecem serem mortas pela punição prevista na bíblia. Ok!

Como dito pelo próprio Carrasco, ele funciona como uma reação a esses pecados, mas a maneira como as mortes foram conduzidas foi lamentável. A série até cuida para não deixar os furos sobre quem comete os assassinatos, mas isso não justifica os ataques serem tão absurdos e percebidos por ninguém; em suma, o Carrasco aparece quando o roteiro denuncia e pronto, faz lá a punição para o pecado e o telespectador aceita as cenas “dignas” de um slasher. Não bastando isso, o roteiro peca pela falta satisfatória de desenvolvimento dos seus personagens: aponta quem vai ser a próxima vítima, mostra as atitudes que levou para tal pecado e depois morrem, sem profundidade nem fazendo com que nos importemos.

No entanto, ainda havia salvação para os personagens. Com certeza o ponto alto foi desenvolver uma relação entre a protagonista – que carece de uma boa atuação –  e o antigo assassino a fim de ajudá-la a entender os passos do Carrasco, o que rendeu a interação interessante que faltava.

Todavia, “Slasher: O Carrasco” tinha tendência a permanecer mais nos erros. A narrativa só focava no assassino, no seu padrão de mortes e na sua próxima vítima, mas aparentemente ninguém estava se importando depois que alguém morria, a não ser o jornal local da cidade preocupado em escrever ótimas matérias para sair na primeira página. E, ironicamente, numa série slasher em que o(a) assassino(a) é tão importante para o enredo, a presença do Carrasco não acrescentava de verdade, já que só agia conforme o esperado, por boa parte causando o riso e sem reproduzir o terror – ainda que a trilha sonora tentasse dar alma às cenas.

O Carrasco

Por fim, a revelação de quem é o carrasco pode não ser uma surpresa se você prestou atenção aos personagens. E, mais uma vez de forma irônica, no episódio final intitulado de “Logo Tudo Fará Sentido” é que “Slasher: O Carrasco” confirma o quanto não é boa. Talvez uns minutos a mais no seu episódio antecessor poderia ter dado um desfecho mais amplo para a série em vez do que forçado goela abaixo. De qualquer forma, a primeira temporada de “Slasher” foi corajosa no seu feito e realmente acreditava no seu potencial mesmo enquanto tudo o que fazia dissesse o oposto; apesar do fardo em querer ser boa, “Slasher: O Carrasco” tem, ao longe, sombra do subgênero que está no seu título.

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.