Sintonia de Amor (1993): do acaso, do destino, do amor e de outros mitos

“Destino é algo que nós inventamos porque não conseguimos aceitar o fato de que tudo o que acontece é acidental.” – Sintonia de Amor

sintonia de amor

Título: Sintonia de Amor (Sleepless in Seattle)

Diretora: Nora Ephron

Ano: 1993

Pipocas: 9,5/10

Uma das brigas mais antigas da humanidade é quanto à existência do acaso como força cósmica – essa coisa, ou ausência dela, que recebe nomes diferentes ao longo do tempo. Poder divino, azar, destino, carma: tudo isso que implica na existência de algo desconhecido superior a nós que controla, ou ao menos empurra, as circunstâncias. “Sintonia de Amor” nos traz Meg Ryan e Tom Hanks em uma comédia romântica adorável para debater este tema.

Tom Hanks vive Sam Baldwin, um homem que recentemente ficou viúvo, mas que através da participação de seu filho em um programa de rádio de aconselhamento na madrugada, fica conhecido como o “Insone de Seattle” Estados Unidos afora. Ele é ouvido por Annie Reed (Meg “Suspiros Eternos” Ryan) do outro lado do país, em Baltimore, a qual se encanta pela voz e história do homem, entrando em uma empreitada à procura de Sam.

Embora essa premissa nos tente a apontar a personagem de Ryan em “Sintonia de Amor” como uma proto-MPDG, por seus trejeitos e sua esporádica unidimensionalidade, a atriz consegue fazer com que sua Annie seja doce e sonhadora em um instante, indo para dura e pé no chão no momento seguinte, sem esforço e sem soar forçado, de forma que sua personagem de fato é simples, mas não deixa de ser desenvolvida. Hanks, por sua vez, passa toda a paz que costuma emanar desde sempre (tem olhar mais pacífico no cinema do que o de Tom Hanks? Não tem.), inspirando a simpatia por seu viúvo, como o roteiro pede, sem ficar brega ou apelativo.

Se os atores brilham com facilidade, isso se dá em grande parte pelo roteiro e direção competentes de Nora Ephron. Roteirista do também clássico “Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro” (1989), Ephron é menos pretensiosa com a trama deste filme, embora continue flertando com o absurdo, enquanto passeia pela fina linha entre acaso e conveniência com seus personagens. Esta dinâmica – tão forçada em outros filmes de comédia romântica – aqui cabe perfeitamente, muito pelo fato de o filme falar exatamente sobre o que pode ser posto como coincidência e o que se desenha como planos claros de uma força maior.

Se em “Harry & Sally” Ephron dá muita relevância para o acaso, que faz com que Harry e Sally se reencontrem em momentos chaves da vida ao longo de doze anos, em “Sintonia de Amor” a roteirista parece apontar na direção oposta: enquanto Sam se questiona sobre ser capaz de amar outra pessoa como amara sua falecida esposa, Annie assiste “Tarde Demais Para Esquecer” pela quadragésima vez com sua melhor amiga Becky (Rosie O’Donnell) e confabula sobre os elementos cósmicos (metafísico demais?) que fazem com que o amor possa existir.

A questão é que não tem poder de signos nem de acaso a unir Annie e Sam: o filme gira em torno dos esforços da mulher de encontrar o homem do rádio, fazendo peripécias bizarras – como viajar para o outro lado do país para observar Sam de longe -, ignorando mesmo o fato de que está noiva de Walter (Bill Pullman) – um pobre homem o qual o maior erro consiste em ter nascido chato, aparentemente.  Sam, por sua vez, não quer ajuda de ninguém para voltar a namorar, mas deixa tudo na mão das circunstâncias: quer encontrar uma mulher acidentalmente em qualquer lugar, chamá-la para um drinque e, se tudo der certo, um jantar em seguida.

E é assim que eles seguem, dois paradoxos ambulantes: Sam, descrente declarado do acaso, se apoia neste para encontrar um novo amor; Annie, variando entre crer na existência da sorte ou não, toma as rédeas da situação todo o tempo – embora não saiba exatamente o que fazer com elas.

De uma certa forma, Ephron revisita o tema do destino/coincidência sob um prisma mais cético do que em “Harry & Sally”, mas a conclusão é a mesma: amor, seja lá como você o conceba, é algo complexo e improvável demais para ser consciente e proposital, exigindo um trabalho e uma dedicação que impedem que se dependa totalmente em sorte para que dê certo. Com fotografia tradicional e uma trilha sonora de big band – que também ecoa sons e estilos de “Harry & Sally” -, “Sintonia de Amor” é um filme simples, mas muito divertido, simpático e delicioso para seu fim de noite. Seja você adepto do acaso ou da proatividade romântica, “Sintonia de Amor” quer te lembrar que é extremamente raro que amores caiam do céu… Ainda assim, dependendo de em qual frequência você está, é possível que você capte algo aleatório no ar.

Na dúvida, fique de ouvidos abertos.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.