Comentário | Shonen – uma breve história do gênero mais popular de mangás e animes

Dentre as diversas categorias e subcategorias de mangás e animes que temos hoje, não é errado dizer que o shonen é a mais popular de todas. Pare e pense em quais eram suas animações japonesas preferidas durante a infância e provavelmente nomes como Dragon Ball, Super Campeões e Cavaleiros do Zodíaco serão lembrados. Junte isso ao fato das franquias de brinquedos mais rentáveis no Japão hoje em dia serem Gundam, Dragon Ball e One Piece e esta afirmação se torna quase irrefutável. Mas o que é “shonen”?

Jump Store em Tóquio

Shonen são obras desenvolvidas para garotos entre 12 e 18 anos – o nome do estilo traduz literalmente para “menino”. Atualmente, o shonen foca sumariamente em histórias abarrotadas de ação, esportes, um pouco de humor e protagonistas predominantemente masculinos. Muitas vezes a personagem principal possui algum tipo de poder, mas isto está longe de ser uma regra. A verdadeira regra aqui é vender. Entretanto, o estilo nem sempre foi como é hoje, com exceção da transcendental regra da vendagem de brinquedos e revistas.

No começo do século passado o mercado japonês percebeu a força que publicar histórias desenhadas tinha e com isso começou a segmentação com revistas como Shonen Sekai e Shojo Sekai, uma focada em garotos e a outra em garotas. Alguns bons anos depois, tivemos o primeiro grande marco do gênero, junto com o final da Segunda Guerra Mundial, com a difusão de histórias repletas de robôs e viagens espaciais, grande parte delas influenciada pelo precursor Osamu Tezuka e sua obra “Astro Boy”.

Em 1968, tivemos, então, o lançamento da “Shonen Jump”, hoje a revista mais vendida e antiga do gênero, além de lar de provavelmente todos os nomes que surgiram em sua mente no primeiro parágrafo. A revista seguia um padrão que já era conhecido na época, lançamentos semanais contendo diversos capítulos de diversos mangás diferentes, os de maiores sucesso continuavam sendo publicados e os menos queridos saiam da revista abrindo espaço para outros autores.

A revista se destacou entre as demais pela diversidade de histórias, pela liberdade que era dada aos autores e pelo fato de que como todos os maiores e mais antigos artistas da indústria já trabalhavam para outras revistas, novos nomes dispostos a inovar e com a amor pela arte acharam um lar na publicação. Essa exata mentalidade foi o que trouxe até eles, por exemplo, o mangaká Osamu Akimoto e sua obra “KochiKame”, publicada por 40 anos ininterruptos.

Kochira Katsushika-ku Kameari Kōen-mae Hashutsujo (aka KochiKame)

Assim a revista ganhou cada vez mais força, multiplicando suas tiragens, batendo mais de 5 milhões de tiragens semanais graças a “Hokuto no Ken”, popularizando ainda mais o gênero e transcendendo gerações por mais de 50 anos, o que levou inúmeros japoneses a adotarem a leitura do mangá como parte de suas vidas, crescendo e evoluindo junto com seus personagens e autores.

Hoje a tiragem de revistas é inferior, não só da Shonen Jump, mas este é um problema muito além do conteúdo destas revistas, abrangendo inclusive a baixa taxa de natalidade no Japão. Há 37 anos nascem cada vez menos crianças que o ano anterior na terra do sol nascente. Hoje elas representam apenas 12% da população japonesa. Isso tem gerado diversos problemas econômicos, como mão de obra escassa, além da estimativa que a população do Japão caia dos atuais 126M para 86M nos próximos 40 anos.  O governo está atuando para aumentar a taxa de fertilidade do país, mas estamos falando de humanos e não subir prédios, portanto mesmo que obtenham sucessos os resultados demorarão para impactar o país.

shonen
Gráfico representando a queda da taxa de natalidade japonesa. Fonte: CNN

Consequentemente, para a indústria dos animes e mangás focados em crianças, as vendas em território nacional têm decaído quase em paralelo. Por motivos como esse, podemos dizer que a indústria passa por um de seus momentos mais difíceis, mas felizmente há um grande mercado consumidor do gênero fora do Japão. Assim, serviços de streaming, de mangás digitais e de vendagem de produtos para mercados internacionais surgiram e têm crescido cada vez mais todo ano. Dessa maneira, todos podemos fazer parte da história do shonen, do mangá, e ajudar esta forma de arte a se manter viva.

 


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