Resenha | She-Ra e as Princesas do Poder (2018) – só quem viu errado não gostou

Com o nefasto objetivo de destruir a infância de dezenas de milhares de adultos e, sempre em segundo plano, fazer algum dinheiro, a Netflix lançou em 2018 “She-Ra e as Princesas do Poder” (She-Ra and the Princesses of Power). A animação foi conduzida por Noelle Stevenson (hqs Nimona e Lumberjanes) e animada pela DreamWorks.

A nova versão da princesa se aproveita dos personagens e do plano de fundo da série original dos anos 80: She-Ra é, a princípio, recruta da Horda, uma organização com objetivos sombrios sobre Ethéria, o mundo onde vivem. A partir disso, surgem diferenças que deixam a narrativa consideravelmente mais rica e interessante.

 

Como não é segredo para ninguém, a primeira She-Ra era a contraparte feminina para He-Man. Algo muito comum desde sempre no entretenimento. Após o surgimento de um personagem masculino de sucesso, nada mais natural do que tentar alcançar as meninas com uma personagem que tenha o outro protagonista como base.

Nesse contexto, a história de 1985 conta que He-Man, irmão gêmeo de Adora (She-Ra), vem resgatá-la da Horda e conta a verdade sobre sua origem – o fato de ela ser uma princesa e ter sido raptada. Na nova animação, o personagem masculino não existe e Adora não é resgatada por ninguém. Na verdade, ela passa todo o tempo sabendo quase nada sobre sua origem e, acredito, esse deve ser um nó narrativo a ser explorado em temporadas vindouras.

She-ra

O fato de não ter seu passado totalmente revelado, como ocorre na versão antiga, adiciona para a personagem um mistério cativante, e, para a trama, mais um caminho a seguir. Além disso, quem se lembra bem dos desenhos antigos, tanto de She-Ra como do próprio He-Man, irá se recordar de que não existia uma história de fato, e sim os personagens que, em algum momento, precisavam enfrentar um vilão que eles inevitavelmente venciam no final – ah, não se esqueça das lições morais no final; nada mais justo, afinal de contas, a televisão foi a babá de toda uma geração.

Ainda nas comparações com os desenhos antigos, houve quem criticasse o estilo mais cartunesco (e meio anime) do desenho. O que não faz nenhum sentido porque: 1) não existe cartilha para que esse ou aquele estilo seja usado em um desenho animado; 2) o desenho semi-realista com personagens cuja aparência física é a de adultos não faria o menor sentido para o público alvo hoje (assim como não fez nos anos 80).

O novo título denuncia outra uma mudança interessante. Na versão antiga, She-Ra era a única princesa do poder e agora ela é uma delas. Isso adicionou não apenas mais personagens femininas bacanas, mas uma leve trama política em que as princesas dos reinos de Ethéria precisam retomar uma aliança rebelde para lutar contra a Horda. Isso é algo que faz muito mais sentido atualmente do que apenas personagens com habilidades especiais resolvendo problemas banais em seu universo. As tramas ficaram multifacetadas e cheias de conflitos de interesse, como o desenvolvimento da princesa Entrapta e toda a sequência que envolve o Baile de Princesas.

She-ra

Por fim, vale dizer que as personagens estão muito bem escritas e todas se desenvolvem e se relacionam de maneira muito autônoma, como, por exemplo, Adora e Felina, que são confrontadas pelo fato de terem sido criadas de maneira abusiva pela feiticeira Sombria. O próprio relacionamento entre jovens é complexo, talvez estejamos vendo um sismance ou, por que não, um romance reprimido.

Em conclusão, só teve a infância destruída quem esperava por um desenho bobo, cujos episódios têm tramas repetitivas e independentes, como era a versão dos anos 80 e não é o caso de “She-Ra e as Princesas do Poder”.


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