Segundas Impressões #21: Entre o Céu e o Inferno (2006)

Uma ninfomaníaca que namora um rapaz que foi lutar na guerra é encontrada gravemente ferida à beira da estrada da fazenda de um um homem recém-divorciado. Basicamente, essa é a premissa que guia Entre o Céu e o Inferno (“Black Snake Moan“). O filme foi dirigido por Craig Brewer e teve no elenco Cristina Ricci, como Rae, Samuel L. Jackson, como Lazarus, e Justin Timberlake, como Ronnie. As reações ao lançamento foram mistas – enquanto alguns críticos acharam a obra digna, bem ambientada e com ótimas atuações, outros disseram que o filme era chulo e bagunçado. Além disso, a personagem de Ricci causou certa dose de desgosto às ativistas pelos direitos femininos, já que a ela é constantemente explorada sexualmente ao longo de toda a história.

Entre o Céu e o Inferno

Sobre esse último detalhe, a própria atriz lamenta ter sido mal interpretada pelas pessoas e, principalmente, pelos responsáveis pelo marketing do filme, que ignoraram o relacionamento paternal dos personagens de Samuel L. Jackson e Ricci e criaram cartazes totalmente sexualizados, vendendo, assim, uma ideia completamente distorcida sobre o filme, pois, no roteiro, é evidente que abuso sexual e distúrbios de ansiedade são temas muito mais relevantes, e não apenas desculpas para retratar cenas de sexo, como alguns críticos propuseram ao classificar o filme como um “soft-porn ruim”.

Dito tudo isso, vamos às minhas primeiras e segundas impressões sobre Entre o Céu e o Inferno.

Primeiras Impressões de Entre o Céu e o Inferno

Este foi mais um dos filmes que assisti num Intercine ou Corujão e, à época, o filme me chamou a atenção porque ele tinha aquele “quê” de clássico que eu não saberia dizer exatamente o que era. Além disso, identificar Samuel L. Jackson, um dos primeiros atores de quem aprendi o nome, e ver uma moça muito bonita acorrentada e semi-nua eram estímulo visual o suficiente.

Entre o Céu e o Inferno

Não bastasse isso, o filme vai se desenvolvendo e descobrimos que Lazarus é um guitarrista de Blues. Existem várias performances musicais ao longo do filme que são realmente memoráveis. Uma, inclusive, em que a canção que dá nome ao filme é tocada (informação que eu não tinha na época). Basicamente, o apelo visual me chamou mais a atenção do que a história em si, mas algo da superação de traumas ficou na minha memória, mesmo que secundariamente. Esse foi mais um daqueles filmes que eu assisti “antes da hora”, com certeza. Isso enriqueceu muito as minhas segundas impressões.

 

O que Mudou?

Basicamente, a grande mudança de impressões foi sair do visual e entrar “nas linhas” da história que acorrentou o meu coração. É perceptível que há um desenvolvimento muito cuidadoso na tríade de personagens principais, apesar de Ronnie (Justin Timberlake) ficar apagado por causa de uma atuação fraca, que não consegue passar a seriedade dos ataques de ansiedade. Mesmo assim, a construção e justificação dos personagens é, certamente, um dos pontos mais fortes do filme, pois, para cada atitude que eles tomam, uma justificativa é dada ao longo da história, e sempre de uma maneira sutil, sem subestimar a audiência.

Além disso, na primeira assistida, eu não poderia ter notado o quão bem ambientado o filme é. No poster, aparece o slogan “tudo é mais quente no sul”, o que aponta para o fato de a história se passar numa zona rural nos EUA. Isso cria não apenas uma locação com características físicas para história, mas também traz pré-supostos ideológicos, culturais, religiosos, etc. Eu também não pude reparar no sotaque dos personagens (destaque para Samuel L. Jackson), já que na TV aberta a dublagem impera. Por fim, um último detalhe de ambiência, que não pode passar batido, é o Delta Blues, também conhecido com Tennessee Blues. O estilo tocado na região dos Estados Unidos é parte muito vívida do filme. É algo tão marcante que vale mencionar que Samuel L. Jackson realmente fez aulas para aprender a tocar Blues nesse estilo.

Entre o Céu e o Inferno

Por fim, o filme ainda levanta a discussão da objetificação sexual da personagem Rae que é constantemente abusada por causa do seu distúrbio, que, inclusive, foi causado dentro de sua própria casa por displicência da mãe – uma história que, infelizmente, não é tão incomum quanto deveria. Talvez o incômodo com a abordagem do tema surja porque ela é ajudada por um homem, porém, é visível que houve bastante cuidado para que o relacionamento entre Rae e Lazarus transparecesse apenas uma paternalidade “saudável”, isto é, sem quaisquer implicações freudianas. O desfecho do filme deixa isso muito claro.

Concluindo, seja pela trilha sonora, pela história, pelas atuações, ou por quaisquer motivos que vocês podem deixar aqui nos comentários, Entre o Céu e o Inferno é incrível; um dos melhores filmes dos anos 2000 e, certamente, vale a pena ser visto e revisto.