Análise | A segunda temporada de Westworld sofre dissonância cognitiva?

Dissonância Cognitiva é um conceito psicológico pensado por Leon Festinger em seu livro de nome sugestivo “A Teoria da Dissonância Cognitiva”. O termo resume a condição de desconforto de uma pessoa que realiza ações que conflitam com suas crenças. Quando alguém se propõe a fazer uma dieta de emagrecimento, por exemplo, e consome vários alimentos gordurosos em seguida, essa ação é antagônica à ideia da dieta, então há a Dissonância Cognitiva.

A segunda temporada de Westworld estreou neste domingo dando continuidade ao cenário caótico resultante do apoteótico “suicídio” de Ford pelas mãos de Dolores. Enquanto Maeve exterminava o futuro de metade dos figurantes da série com a ajuda de Hector e Armistice, Dolores dava um último passo para a sua consciência plena de passado, presente e futuro. Ou será que não?

Como foi visto no último episódio da primeira temporada, as ações aparentemente autônomas de Maeve também seguiam um roteiro, evidenciando que ela, assim como os outros anfitriões relacionados à “rebelião”, fazia parte de uma nova narrativa pensada por Ford. O despertar da consciência de Dolores, também segue essa premissa, afinal, a morte de Ford foi nada mais que um evento impactante escrito por ele mesmo. Então, tudo mudou.

As personagens principais começam a dar indícios de passos que não seguem exatamente o que foi estabelecido. A segunda temporada de Westworld parece ter três “protagonistas”: Dolores, Maeve e Bernard; os três são anfitriões que, de alguma forma, chegaram ao centro do labirinto de Arnold. Se pensarmos que o trio fazia parte do último ato no universo maniqueísta de Ford, entenderemos essas personagens como o lado bom, os heróis da história, que buscam entender o que é a verdade. Aqueles que questionam a natureza da própria realidade. O que se desenrola, porém, não é exatamente isso, exceto para Bernard. Não nesse primeiro episódio, pelo menos.

A primeira cena da segunda temporada de Westworld mostra Arnold (ou Bernard) conversando com Dolores, da mesma maneira que acontecia nos flashbacks da primeira temporada. Mas ele descreve para ela um devaneio (ou lembrança) do que está para acontecer no episódio. Isso sugere que essa conversa se dá no futuro, quando a ordem for reestabelecida no parque e os anfitriões voltarem às suas programações normais. Então fará sentido o receio de Bernard com o que Dolores pode se tornar.

segunda temporada de westworld

Voltando para o presente, Bernard parece ser o único dos protagonistas que questiona as suas ações de acordo com os acontecimentos da temporada anterior. Por que Maeve desiste de ir embora do parque no fim da primeira temporada? Para reencontrar a filha. Para satisfazer o instinto maternal que foi designado a ela em uma narrativa anterior. Por que Dolores quer tão fervorosamente acessar o mundo exterior? Para satisfazer o instinto de aventura que lhe foi castrado inúmeras e repetidas vezes com as promessas vazias de Teddy. Se tudo isso está de acordo com o que foi mostrado, como pode ser contraditório?

Isso é simples. Maeve não é mais a dona do bordel, também não é a moça caseira que protegia a filha de uma invasão indígena. Dolores, agora, não é mais a filha do fazendeiro, tampouco é Wyatt. Como a própria Dolores disse, essas são histórias que os humanos queriam contar. Agora elas querem contar a própria história, seguindo os próprios instintos. É contraditório que para realizar esse destino elas sigam os desejos que lhes foram impostos em um momento anterior. É contraditório que queiram liberdade e ajam segundo as regras da narrativa. Elas estão vivendo uma dissonância cognitiva.

 


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Leandro Bezerra

Editor, redator e um serumaninho quase legal.