Resenha | 3% – 2ª temporada: a distopia brasileira encontra o caminho das pedras

Todo ano ocorre um processo, uma seleção que definirá quem se tornará digno de passar de um lado para o outro, do Continente para o Maralto, mas só 3% de todos os inscritos sairão bem sucedidos. Essa é a premissa que nos foi apresentada na primeira temporada de 3%, lançada no final de 2016. Baseada em um projeto que foi divulgado no YouTube, a série tomou forma nas mãos da gigante do streaming, Netflix, e agora chegou na sua segunda temporada procurando expandir seus territórios e dar continuidade às histórias de Michele (Bianca Comparato), Fernando (Michel Gomes), Joana (Vaneza Oliveira) e Rafael (Rodolfo Valente). Por ser a primeira série original brasileira na Netflix, muita expectativa foi criada em cima dela, o que acabou gerando uma cobrança que a série não foi capaz de entregar em 2016. Entre altos e baixos, a primeira temporada teve um número bom de visualizações, o que acabou nos trazendo a segunda temporada de 3%, mas agora com a maturidade que ela não soube procurar na sua primeira tentativa no mundo das distopias.

O primeiro ano da série foi feliz em apresentar uma relação básica entre os seus personagens e as suas ideias, desenvolvendo pontos cruciais para que nós pudéssemos fazer uma distinção um pouco mais clara sobre qual seria o lado “bom” e o lado “ruim” nessa história, mesmo tentando inverter esses conceitos no final da temporada. Agora, a segunda temporada de 3% parece ter passado por um estudo intenso para controlar, dividir e executar suas múltiplas narrativas e núcleos mantendo o equilíbrio e a qualidade em todos eles.

É louvável acompanhar o crescimento, que é bastante visível, e a forma como tudo se encaixa perfeitamente sem soar forçado ou superficial de mais – na maioria esmagadora das vezes. As histórias são bem casadas, desenvolvidas e trazem profundidade. Os personagens agora possuem mais coração e honestidade, algo que pode ser atribuído a melhora significativa nas atuações. A série conseguiu sair da água para o vinho e manter a qualidade em todos os seus episódios nesse novo ano – não que a temporada anterior não tenha tido bons episódios, mas eles só apareceram mesmo no final.

3%

Trabalhando sempre parar amarrar cada detalhe, a série decidiu por investir na história da criação do Maralto e dos seus fundadores, além de lidar com assuntos sociais – que já tinham aparecido na primeira temporada – e também investir um pouco na relação religiosa entre o processo e o casal fundador. A igreja liderada pelo pai de Fernando é o ponto de maior difusão do evangelho que apoia o processo e o considera a única forma justa para se alcançar o lado bom da vida, que seria passar para o Maralto. Essa relação gera momentos intensos, principalmente para o desenvolvimento de Glória (Cynthia Senek) personagem que é introduzida nesse novo ano e detém um dos melhores arcos durante a temporada, mesmo que não tenha exatamente uma conclusão.

No meio de tantas mudanças, as visuais agradam bastante. E não são só os efeitos especiais que estão mais caprichados, a direção e a fotografia dessa temporada ajudaram bastante a criar esse ar mais maduro. Em diversos momentos durante a primeira temporada, era comum se deparar com um visual bastante simplista, enquadramentos que se assemelhavam bastante aos vistos em algumas novelas – o que não é de todo ruim, até porque existem novelas com fotografias bem mais trabalhadas do que a de muitos filmes – e dessa vez há um algo a mais que passa o sentimento de uma produção mais encorpada e definida. Mas na segunda temporada de 3% as cenas com mais ação e movimentos também foram presenteadas com essas mudanças e chegaram nesse ano muito decentes e, pela primeira vez, realmente empolgantes.

O trunfo real está nos personagens. Existe um certo sentimento de orgulho em alguns momentos quando se está assistindo a série. É possível ver o cuidado que tiveram em investir nas relações, afinal, em uma narrativa que lida muito com o conceito de alianças – e, em alguns casos específicos, mudança de pensamento – se a verdade de um personagem não é tão bem explorada o esforço pode ser em vão e aqui isso raramente acontece. Não estamos falando de nenhuma obra prima, a série não está isenta de vacilos, eles acontecem e em momentos que não deveriam. Entretanto na sua maior parte, a segunda temporada de 3% consegue ser competente e lidar bem com os arranjos escolhidos.

Algo que garante uma parte significativa do sucesso desse novo ano está no roteiro, que deixou de forçar conflitos simplesmente para ter algo que alimentasse os desejos das personagens para trazer uma sincronia entre timing e fluidez, sem deixar as reviravoltas de lado. Vale mencionar que, em um determinado ponto da série, a produção conseguiu me surpreender pelas suas escolhas, que fugiram do óbvio que parecia ter se tornado base para o enredo da série.

A perfeição não chegou para a primogênita brasileira da Netflix, mas conseguiu passar pelas redondezas. O bom andamento da história, as atuações e a execução dos seus pontos principais conseguiram fazer da segunda temporada de 3% um verdadeiro acerto e abre um bela porta para o que virá no seu possível terceiro ano. O flerte com o inesperado foi bem vindo para mostrar que existe sim potencial para grandeza nessa história, resta só saber se a mesma fluidez se estenderá na próxima vez que virmos estes personagens.

 


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Jardas Costa

PontoCaster, fã da DC e da Marvel (não DC vs Marvel), apreciador de um bom kalzone e sempre esperançoso por toda obra que está por vir, porque todo bom filme é uma boa forma de se compartilhar a vida.