Resenha | Se Meu Apartamento Falasse (1960) – nossos crimes de omissão

Nossos grandes erros são, no geral, memoráveis. Não os trazemos necessariamente na forma de arrependimento, mas sempre conseguimos nos lembrar das vezes que realmente causamos impacto negativo nas outras pessoas, na sociedade ou em nós mesmos. A culpa, contudo, é uma dor forte demais para enfrentarmos por muito tempo, e nossa mente tende a se eximir de responsabilidades, sendo especialmente mais fácil quando nossos erros são passivos. “Se Meu Apartamento Falasse”, de 1960, vem nos lembrar que nossos crimes de omissão também têm consequências, mas também podem ser perdoados.

Título: Se Meu Apartamento Falasse (“The Apartment“)

Diretor: Billy Wilder

Ano: 2017

Pipocas: 10/10

“Se Meu Apartamento Falasse” é tido como um dos grandes clássicos do cinema, e um dos motivos para isso certamente é sua história simultaneamente simples e intrincada. No filme, C. C. “Buddy” Baxter (o grande Jack Lemmon, de “Quanto Mais Quente Melhor“) é um proletário simples numa empresa de contabilidade – mais um número, mais um par de braços trabalhando entra-dia-sai-dia em um emprego sem futuro – que consegue uma oportunidade de ascensão vertiginosa na empresa quando os executivos da companhia descobrem que ele tem um apartamento bem localizado em Nova Iorque. Pouco a pouco, o lugar vai sendo transformado em um bordel, enquanto os chefões da empresa levam suas amantes para lá, consomem a comida e bebida do rapaz e deixam o apartamento um caos. Baxter então conhece Fran Kubelik (a incrível Shirley MacLaine que esteve em “Downton Abbey“), a ascensorista do edifício onde trabalha, e se vê dividido entre seu futuro profissional e a companhia que almeja ter ao seu lado.

se meu apartamento falasse

Essa divisão entre o futuro financeiro – que Baxter consegue com absurda facilidade graças ao seu apartamento – e o amor que sente pela Srta. Kubelik deveria ser agravada pela consciência do homem em ceder seu espaço pessoal e ser invadido em sua intimidade por homens sem caráter em sua rotatividade de amantes. “Deveria” ser, porque não é; Baxter se mostra exasperado somente pelo incômodo de ter que ceder seu quarto em momentos inoportunos, como quando está gripado, ou quando esquecem de lhe devolver sua chave. Não há receio nem senso de responsabilidade quanto ao fato de ser um facilitador para que mulheres sejam traídas repetidas vezes.

No entanto, por mais que Baxter não expresse essa responsabilidade, ela está lá, manifesta na forma de discursos que eximem esses homens de culpa ao arranjar pretextos para eles. Desta forma, se eles não são culpados, como ele mesmo poderia ser?

Isso facilita com que Baxter aproveite dos benefícios que esta relação traz. Além da óbvia ascensão na empresa, com duas promoções seguidas, ele também usa da fama que a circulação de pessoas na sua casa lhe rende no seu condomínio para se passar por “garanhão”; Baxter bebe da admiração dos homens e mesmo do ódio das mulheres, chegando a afirmar que se sente “lisonjeado” por acharem que uma moça como aquela estava com ele. É assim, desse jeito torto, que Baxter vai ganhando a confiança de que ele tanto precisa para se posicionar como uma pessoa de caráter enquanto ainda há tempo.

Nesse caso, “Buddy”, como os executivos o chamam, não é um heroi sob nenhuma perspectiva: covarde, omisso e cúmplice, Baxter lava as mãos quanto à responsabilidade óbvia que ele tem ao ceder seu espaço pessoal para o que seus chefes fazem em seu apartamento. Ainda assim, a jornada dele o leva a descobrir que mesmo os seus pecados passivos são dignos de punição, o qual, dentro deste arco, o obriga a tomar uma difícil decisão.

Os dilemas que Baxter enfrentam encontram eco na Fran de MacLaine. Graças a uma ótima atuação, Fran varia de firme em suas opiniões e posicionamentos à fragilidade com muita naturalidade. Nela, presa nas correntes de ser “a amante” – sempre na espera, sempre na esperança de que o seu homem termine seu casamento para ficar com ela -, o grande desafio para Fran é compensar a dor que ela sente de se submeter à essa situação se impondo nas outras áreas de sua vida. Seus erros, aqui, são tanto por ação quanto por omissão: embora o casamento não seja dela, ela de fato está com um homem casado, o que constitui um erro ativo, enquanto sua permanência neste relacionamento e posterior silêncio quando o crápula parte para a próxima vítima trazem a culpa passiva para nossa co-protagonista.

Entre adultério, tentativa de suicídio e insinuações a orgias, “Se Meu Apartamento Falasse”, de 1960, é um filme brilhante não só por ser vanguardista em suas temáticas, mas também pela maneira primorosa que seu roteiro é escrito, capaz de trazer tópicos pesados com uma leveza e humor tão consideráveis que um dos gêneros nos quais o filme se enquadra é “comédia” – não só isso, como o longa é considerado uma das maiores comédias de todos os tempos, sempre figurando no topo destas listas. Embora tal classificação possa ser enganosa – visto que o espectador logo percebe que “Se Meu Apartamento Falasse” tem, sim, humor, mas este não é seu objetivo principal -, a película consegue permear elementos de drama e comédia com facilidade, com o primeiro ancorado na atuação frágil porém determinada de MacLaine, e a segunda calcada na simpatia ímpar de Lemmon. Uma combinação curiosa que funciona tão bem que “Se Meu Apartamento Falasse” levou os Oscars de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Original, todos para o diretor e co-roterista Billy Wilder.

Lemmon, MacLaine e Wilder c.1960.

Brilhantemente escrito, com diversos espelhos narrativos (inclusive literais) em uma trama aparentemente simples, “Se Meu Apartamento Falasse” sobreviveu ao teste do tempo, e continua relevante e atual mesmo cinquenta e sete anos depois de seu lançamento. Mais do que a soma de suas partes, é uma obra capaz de se comunicar com nossas expectativas, frustrações e culpas com um bom humor inesperado, nos levando de cúmplices a protetores em uma cena, e nos provando que um crime de omissão inaceitável é não assistir a este grande filme.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.