Santa Clarita Diet (2017): um comercial de margarina canibal e homicida

Esse texto pode conter spoilers da 1ª temporada de Santa Clarita Diet, mas leia mesmo assim. 

O cinismo é uma excelente ferramenta de humor. Em Santa Clarita Diet, ele é usado para trazer questionamentos realmente importantes para toda e qualquer pessoa, seja ela vegetariana, onívora ou canibal. A princípio, o seriado pode ser classificado como uma comédia de humor negro. Já falamos sobre esse curioso gênero quando comentamos o maravilhoso Relatos Selvagens. Sheila (Drew Barrymore) e Joel Hammond (Timothy Oliphant) são um típico casal estadunidense, com uma profissão típica (agentes imobiliários) e moram num local também típico da terra da oportunidade — Califórnia; mais precisamente em Santa Clarita. Cores ensolaradas, gente bonita e bem arrumada e, é claro, hipocrisia: está aí o American Dream que rege o visual da série.

Santa Clarita Diet

Se por um lado, Joel fuma maconha escondido da esposa, por outro ela morre misteriosamente, mas continua viva. No decorrer da série, descobrimos detalhes importantes do insólito – Sheila se tornaria uma canibal irreversível, entraria em estado de decomposição e, aparentemente, todos esses acontecimentos estão ligados a uma misteriosa maldição. Dessa maneira, Santa Clarita Diet vai se desenvolvendo em cima de algumas oposições motivadas pela “morte” de Sheila, pois ao se desprender da vida, a mãe de família e corretora de imóveis sente-se muito mais livre para fazer as coisas que sempre quis, mas reprimia. Naturalmente, isso causa uma enorme estranheza em seu marido e filha, que passam algum tempo entre negar, tentar entender e “resolver” o “problema”. Dessa forma, a série desponta com felizes questionamentos, pois, a família descobre que seria muito difícil, ou mesmo impossível, Sheila voltar ao normal e, assim, todos teriam que aprender a viver com a nova rotina. Na verdade, em certo ponto, a protagonista morta se sente tão livre e viva que “voltar ao normal” passa a ser desinteressante.

Santa Clarita Diet
olar!

Com tudo isso em curso, Abby (a filha adolescente do casal — Liv Hewson), decide que a escola não é mais tão relevante quanto a necessidade de passar pelo processo transformador que a sua família está encarando. Sheila entende que, perto de quem precisa comer carne humana fresca, fumar maconha é tranquilo e, por fim, mas não menos importante, Joel admite que ter que assassinar alguém para alimentar a esposa não é apenas uma prova de amor insana, mas uma necessidade. Com isso, após “conversar” com a atendente do Walmart de Santa Clarita, fica fácil perceber que, se todos são malucos, desde o seu vizinho policial que vigia a vida de todos até o filho esquisito dele, talvez a família Hammond tenha só passado um pouco dos limites (da lei, inclusive).

Santa Clarita Diet

Naturalmente, só podemos aceitar tudo isso por causa do tom extremamente exagerado na comédia cínica dos episódios de Santa Clarita Diet, mas é o tipo de coisa que faz você se questionar se, estando dentro da lei e não ferindo ou ofendendo ninguém, vale realmente a pena nos prendermos às nossas inseguranças que podem ir desde usar uma determinada roupa, um corte de cabelo, ou assumir a sexualidade, posicionamento político ou religioso publicamente. Em geral, nós nos curvarmos diante de qualquer uma das nossas massacrantes ansiedades sociais com muita facilidade e o que a série nos oferece é uma morta viva que não tem a menor vergonha de assassinar alguém para se alimentar.

Em conclusão, podemos dizer que, com muito carisma, e um destaque evidente para Drew Barrymore, Santa Clarita Diet mostra que a vida de todas as pessoas é um grande comercial de margarina, porém louco, homicida e canibal — e não tem nada de errado nisso.

Nenhum ser humano foi devorado durante a redação desse texto. 

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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.