Rouge – Rouge (2002): faixa a faixa de um clássico moderno

O Rouge é um fenômeno. Através do programa Popstars, do SBT, Aline WirleyFantine ThóKarin HilsLi Martins e Lu Andrade passaram a ser um dos grupos mais relevantes da música brasileira do início do século XXI. E isso é sério: o primeiro álbum, este que você está lendo este texto sobre, vendeu 2 milhões de cópias, e o álbum seguinte, de 2003, vendeu quase um milhão. Isso num intervalo de dois anos. Com outras milhões de jovens que seguiam o estilo – e as coreografias – das moças que passaram a ser chamadas de “Spice Girls brasileiras”, seja lá o que isso signifique, o Rouge trouxe um álbum de estreia homônimo para ser um sucesso absurdo. Digno de uma análise faixa a faixa, vamos analisar esta obra para tentarmos entender a atração que isto causou, ao ponto de as pessoas realmente celebrarem o retorno do grupo 15 anos depois e esgote vários shows seguidos delas e propulsionar as cantoras para um novo álbum de estúdio e uma turnê pelo Brasil. Em pleno 2017. Que mundo, não?

rouge
Clique aqui para ouvir no Spotify.

1) Popstar

O título é pouco criativo de propósito. Fazendo alusão à origem das cantoras, a música de abertura é basicamente uma propaganda estendida do programa do SBT de onde elas saíram, falando como a “vida de repente pode até mudar para quem não tem medo de acreditar”. Encantando jovens que queriam o sucesso que as meninas agora tinham – as cinco escolhidas entre as mais de 30 mil que se inscreveram -, o refrão com “vem dançar com a gente agora, solte o corpo, be a star” viria a ser o primeiro de alguns momentos nos quais o Rouge iria se destacar pelo uso de inglês, seja como for, nas suas (?) composições.

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Além da promessa de fama, outro ponto importante da música é a sua segunda estrofe. “Eu tenho o meu estilo, nunca vou mudar, não importa o que pensem de mim” é tudo o que uma e um adolescente quer ser – um floco de neve especial e único – enquanto todas as suas entranhas clamam por aceitação. A soma da liberdade prometida (outra música, outro grupo) da autoaceitação com a independência do sucesso e da fama fazem com que essa belíssima canção seja uma introdução muito apropriada aos principais elementos que fizeram do Rouge – o grupo e o disco – um sucesso.

Ah, e a música tem muito autotune. Muito mesmo.

 

2) Não Dá Pra Resistir (Irresistable [sic])

O primeiro grande sucesso desse álbum fala de uma garota tímida que encontra um homem maravilhoso que a transforma e faz com que ela vá atrás dele. Embora o título em inglês esteja escrito errado no Spotify, a aposta da letra é certa, mais uma vez apelando para um público específico. Além disso, os versos ainda falam sobre o poder de fantasiar sobre amores platônicos. Nada mais adolescente.

Isso à parte, o arranjo de vozes no refrão é bacana; exigiu algum esforço, claramente ao contrário da letra. Lançada antes do fim do reality show, a música foi sucesso no Brasil e com sua versão em espanhol com os hermanos – ou hermanas – da Argentina, alcançando o top 10 nas paradas de lá.

 

3) Ragatanga (Asereje)

Então, aqui começa talvez a música mais insana da história moderna de nosso país. Primeiro, um histórico: essa canção é a versão de uma versão. Embora o refrão tenha origem em alguém tendo um derrame enquanto tenta cantar o refrão em inglês de Rapper’s Delight, o sucesso do Rouge vem de The Ketchup Song, da dupla – adivinha – Las Ketchup. A música nada tem a ver com ketchup (suspiro), mas fala de um rapaz com aparentes poderes místicos que é amigo do DJ que coloca a Rapper’s Delight para o jovem mancebo cantar. Diego, completamente alterado por álcool ou substâncias menos líquidas, não consegue cantar o refrão rápido da música e entra em espasmos sonoros indistintos.

A versão da Las Ketchup entrou para a história como um dos singles mais vendidos de todos os tempos, alcançando o topo das paradas em praticamente todos os países nos quais foi lançada – sim, é verdade, também tive essa reação que você teve. No Brasil, foram as meninas do Rouge que vieram falar sobre a magia do ritmo Ragatanga. Vamos aos versos agora.

Olha lá quem vem virando a esquina
Vem Diego com toda a alegria, festejando [claramente Diego já chega alterado na festa]

Com a lua em seus olhos
Roupa de água marinha e seu jeito de malandro [talvez ele só seja bêbado, não malandro]

E com magia e pura alma, ele chega com a dança
Possuído pelo ritmo ragatanga
E o Dj que já conhece, toca o som da meia-noite [seria o DJ uma foca?]
Pra Diego, a canção mais desejada
Ele dança, ele curte, ele canta

Aserehe ra de re, de hebe tu de hebere
Seibiunouba mahabi, an de bugui an de buididipi x3 [Reagan sob o efeito de psicotrópicos]

(Outro) Não é por acaso que encontro todo dia
Por donde voy caminhando
Diego tem sua magia e esta alegria
Rastafari afro-cigana […quê?]

Tem pouco a se dizer depois disso, não é? Acho que jamais saberemos o que é uma camisa de água marinha (eu deveria saber o que é isso?), nem qual é o som da meia-noite, e muito menos o que é o ritmo Ragatanga (ainda não descartamos a possibilidade de ser algo do demônio, inclusive), mas sabemos que Ragatanga é o motivo real pelo qual estamos falando do Rouge 15 anos depois. E você provavelmente ainda sabe a coreografia tanto quanto não sabe o que o vereador que você votou nas últimas eleições tem feito recentemente, o que diz muito sobre suas prioridades.

 

4) Beijo Molhado

Essa música tem um nome meio nojento, já remetendo à um São Bernardo muito carinhoso. De qualquer forma, a canção fala sobre um amor de verão, e as meninas agora querem “conquistar você” e seus “lábios de mel” que as “deixaram louca”, e para isso pretendem dar um “beijo molhado” para trazer o crush para elas – sim, ninguém dizia isso em 2002, mas de alguma forma parece mais apropriado para o Rouge dizer isso do que qualquer ser humano atual.

A música foi outro sucesso, apesar da ponte dizer “e se você quiser, se você vier, eu nunca vou esquecer; não quero acordar, quero sonhar e só lembrar de você”, o que não faz o menor sentido porque se ele veio você não precisa lembrar dele porque ele está ali, e consequentemente não dá para esquecê-lo. Mas talvez isto seja só eu escutando e tentando entender canções do Rouge de madrugada. Este hit também veio da gringa, do original Strawberry Kisses, outra música açucarada com a mesma temática da adaptação.

E sim, também tem muito autotune aqui. O refrão está a dois ajustes de ser cantado pela voz do Google Tradutor.

 

5) Hoje Eu Sei

Aqui é uma baladinha genérica dos anos 2000 com talvez o pior refrão do disco. Puxado por um “hey baby” bem amoroso em inglês, o resto do coro é um soco de glicose bem na sua cara: “preciso te dizer: eu amo você, você me faz tão bem, vem me fazer feliz”, porque o Rouge é pós-moderno demais para se preocupar com rimas.

Seja como for, Hoje Eu Sei quebra o ritmo intenso que o álbum constroi até o momento, com espaço até para gaitas construírem um ambiente country para o disco. Ela logo acaba, meio deslocada, abrindo o caminho para a próxima faixa do álbum.

 

6) Sou o Que Sou

Sim, outra música adaptada, assim como muitas das outras desse disco, pelo produtor Rick Bonadio, praticamente a fada madrinha do Rouge. Seja como for, a canção chega com atitude, e já abre com “vê se atende, eu cansei de me explicar, ou vai ser do meu jeito ou de nenhum jeito será”, e aí a vocalista manda o cara numa quest de RPG: “você tem que ir buscar no fundo do mar uma pérola pra mim”. Vai lá, Link. Vai ser gauche na vida.

Aqui, a faixa tem uma pegada mais R&B com elementos de pop rock. A letra tem a profundidade de um tweet do Trump, mas com estilo interessante, o que nos remete a outro elemento de sucesso do Rouge: a sonoridade. Em última análise, é isso que definiu o grupo, sua capacidade de gerar músicas radiofônicas que iam ao encontro dos do simples anseios de adolescentes dos anos 2000 que queriam se reafirmar enquanto dançavam uma música com atitude – meio o que a Hilary Duff foi para outros jovens ao redor do mundo, mas isso fica para outro texto.

7) 1000 Segredos

Outra música que expande o R&B, e aqui, mais carregadas de autotune do que a Rebeca Black, as meninas do Rouge se aproximam mais das Destiny’s Child do que as Spice Girls. A letra fala mais uma vez de um homem que foi visto, predado e atacado com volúpia pelas meninas que queriam pegar “seu amor para mim”. Mais um dia normal em “Rouge”.

 

8) O Que o Amor Me Faz

Música com pegada de balada esquecível com efeitinhos de mágica no início. Chata. Não confundir com Olha o que o Amor Me Faz, obra-prima da instituição nacional conhecida como Sandy & Junior.

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Vai arriscar?

 

9) Depois que Tudo Mudou

Finalmente o álbum pega ritmo de novo com esta faixa escrita principalmente por Bonadio – o artifície de estrelas das últimas décadas nas terras tupiniquins. Depois de oito canções sobre amores ligeiramente obsessivos e espíritos das profundezas que invadem corpos de Diegos, Depois que Tudo Mudou fala sobre a superação de um relacionamento possessivo que “não pode ser amor”, terminado e libertando o eu-lírico que “não sou mais assim”.

Inclusive é uma faixa pop bem legal até o momento que entra um rap e aí você passa a repensar suas escolhas de vida:

Hãhã ié!
Se liga no toque eu vou te dar
É melhor sair fora, aqui não é mais seu lugar
Você pra mim agora é passado,
Não vai mais colar esse seu papo furado
Já me liguei mudei, hoje sou mais eu
Só posso te dizer que você perdeu
Hasta la vista, baby, bye bye tchau
Cuida da sua que eu tô legal!

Não. “Hãhã ié”, “bye bye tchau”, não. Só não.

 

10) Deve Ser Amor

“Não” principalmente porque essa faixa não podia encaixar menos do que vindo depois da anterior. A canção abre com os versos “quando bate assim deve ser amor”. Depois elas até explicam que “deve ser o amor”, a paixão, que bate “tão rápido que eu nem sei como me apaixonei”, mas ainda assim… Se você estava falando que não era amor antes, provavelmente ainda não é. Não me parece muito saudável, é só o que estou dizendo.

Fora essa temática de gosto duvidoso, a faixa só cai em um vale de pop qualquer-coisa, sem nenhuma característica marcante, inflando o álbum de 14 canções – sim, ainda faltam quatro. Risos nervosos.

 

11) Quero Estar Com Você

É basicamente a Sou o Que Sou na vibe ombro amigo: “quando o sol não quer brilhar e a chuva insiste em cair… Por onde a vida te levar, quero sempre estar onde você precisar”. Merece uns pontos por usar a expressão “quero ser seu porto e seu cais” na abertura do refrão, mas perde esses mesmos pontos quando manda um “oh baby baby” depois. De qualquer forma, uma música com uma letra coerente e agradável, o que é digno de nota.

 

12) Olha Só

Estou olhando – ouvindo, na verdade. Esta composição, com referências a Harry Potter, se inicia com “posso ver, só de olhar, o que passa em tua mente”, indicando que a cantora praticou legilimência durante seu tempo em Hogwarts. Perscrutando os pensamentos de seu amante, ela nota que ele está incerto quanto ao relacionamento deles, mas ela observa que “dizem que quem teme a perda um dia acaba por perder” – o que é uma observação verdadeira e válida para o seu relacionamento, agora mesmo. Se você deixa o peso das suas inseguranças e receios, exatamente eles podem empurrar o recipiente de sua afeição para longe. A resposta é compartilhar os temores para que se construa um relacionamento saudável – como o Rouge aponta ao final do refrão com “entre nós não há segredo, tudo bem”. Compartilhar a verdade gera a confiança necessária.

E você achava que ia sair daqui sem um conselho para a vida.

 

13) Te Deixo Tocar

Apesar do título provocante, você realmente se importa com essa faixa quando a próxima conta com participação do KLB?!

Ok. É sobre sexo mesmo. Não é explícito, mas também não é discreto. Contente? Também é nessa música que as meninas ficam se chamando mutuamente pelo nome, sem nenhum motivo claro. Tudo bem, depois tem KLB.

 

14) Nunca Deixe de Sonhar

Kiko, Leandro e Bruno: a alegria da garotada e do Gugu Liberato, espero que por motivos diferentes. De qualquer forma, o KLB foi uma boy band com o mesmo poder e relevância que o Rouge teve na época. Desde 2000 até os dias atuais, o grupo já vendeu mais de sete milhões de discos (?!) e, tendo formação anterior ao Rouge, emprestou parte de seu sucesso para impulsionar a venda do álbum de estreia do grupo.

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…Luan Santana?

A canção é bem “acredite em fadas”: “algo em você vai despertar, não duvide nunca, você vai chegar” – despertar de onde, duvidar de quê, chegar onde, não sabemos. O que sabemos é que não devemos deixar de sonhar, porque logo depois chega o KLB, com um riff de guitarra, falando (com uma voz que só pode ser descrita como “o som de manteiga derretendo”) de uma luz que brilha o tempo todo dentro de nós e sobre uma “fantasia se realizar”, estando “além do sol ou além do mar, bem além do tempo” – em outras palavras, Nunca Deixe de Sonhar é a Lua de Cristal que merecíamos há quinze anos.

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Virando a esquina com seu jeito de Mallandro.

Para o Rouge

Sendo assim, a canção consegue encerrar bem os temas que o álbum se propõe a abordar: a persistência em busca do sonho – especialmente da fama – e a singularidade que cada adolescente precisa acreditar que tem se transformando em potencial artístico revelado. Apesar de diversas características constrangedoras (muitas mesmo, sério), “Rouge” é um disco que, por se comunicar muito bem com o público-alvo de 2002, também acaba por falar quem eram essas pessoas, e quais eram seus anseios. Um álbum interessante para lembrarmos de como era o mundo de quase duas décadas atrás, mas não particularmente bom para qualquer outra coisa.

Seja como for, foi assim que o Rouge veio ao mundo, e é por causa de seu disco homônimo de 2002 que hoje estamos aqui, em 2017, ainda falando sobre as meninas que continuam a virar a esquina, cheias de seu ritmo ragatanga.

Que Diego nos proteja.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.
  • Lucas Bulhoes

    ERIK, VOCÊ É INCRÍVEL.
    Texto ótimo, comentários sensacionais e me sinto muito feliz em ter sido parte do motivo pra você ter escrito essa maravilha. Verei esse texto como meu presente de aniversário.

    No fundo eu sei que você amou os hinos Beijo Molhado e Não Dá Pra Resistir. E nunca tinha percebido o quanto Olha Só não faz o menor sentido haha

    Apesar de musicalmente elas serem passíveis de dúvida, acho foda o quanto essas meninas conseguiram fazer sucesso com essas músicas relativamente simples e marcaram toda uma geração (anterior a minha, por que aparentemente sou bastante jovem).

    Super apoio uma análise de um disco delas por semana. Você deveria pensar nisso.

    • “relativamente simples” UHAUHUAHUAH que generoso você.

      É seu presente mesmo, feliz aniversário de birthday.

  • João Victor Fiorot

    eu to tremendo