Resenha | Rota da Morte (2003) – paradoxos, lendas urbanas e o Natal

Esse texto contém spoilers sobre o filme “Rota da Morte”, mas continuar lendo, não faz mal.

Há uma lenda na cidade de Belém sobre a jovem moça Josephina Conte, a qual anos depois de sua morte, na noite de seu aniversário, teria seu espírito a vagar vestida de branco à procura de um táxi que a levasse para um passeio, como costumava fazer quando estava viva. Essa lenda, conhecida como “A Mulher do Táxi”, já ganhou até mesmo uma adaptação narrada pelo apresentador Gugu no antigo programa “Domingo Legal”, no SBT. Se você nunca nem ouviu falar, deve ter visto algo parecido no piloto da série “Supernatural”. Você deve estar se perguntando: “o filme ‘Rota da Morte’ se trata de mais uma versão inspirada na lenda urbana?”. Não exatamente. A película é simples, instigante e, com muito humor negro, se fez um dos longas de terror natalino mais diferenciados que você verá.

rota da morte

Há vinte anos, em toda noite de Natal, Frank (Ray Wise) sempre percorreu pela mesma estrada com a família para passar a festa natalina na casa de parentes. Tudo parecia bem, mesmo depois que ele optou por seguir um caminho diferente, mas coisas estranhas começam a acontecer depois que decide ceder carona para uma mulher (Amber Smith) vestida de branco com um bebê no colo – com a diferença do bebê, é assim que A Mulher de Branco remete à Mulher do Táxi. Logo uma simples noite que prometia ser uma ceia em família se torna uma loucura sem volta.

Se você já conhece títulos como “Coherence” e “Donnie Darko” deve notar sem qualquer dificuldade que “Rota da Morte” se passa num universo paralelo, mas para isso é necessário muito cuidado e atenção para tudo o que acontece no filme, pois só assim será possível compreender toda a mitologia que é passada. Felizmente, assistir ao filme sem saber nada sobre a trama deixou a experiência ainda melhor, pois a película é o tipo que convida e desafia o telespectador a indagar os acontecimentos, criando um clima inquietante à medida que seu enredo vai desenrolado.

Ter um a um dos membros da família de Frank serem mortos das maneiras mais insanas e agonizantes possíveis foi além do terror visto que a fórmula se repetia, e nenhuma explicação lógica se aplicava por trás do que acontecia. Apesar de todos esses aspectos, enquanto a tensão só aumentava, “Rota da Morte” não foi capaz de entreter como um todo, mesmo sendo tão objetivo e se desdobrar por uma curta duração. Desde os primeiros minutos, o longa deixou claro o tom irônico que iria usar, mas nem assim tirou a sensação da mesmice que parecia interminável, ainda que a trama permanecesse instigante.

 

Rota da Morte: a Mulher e o Bebê

Menos de cinco minutos de filme, com todos dormindo, vimos Frank quase bater contra outro carro depois de cochilar e seguir a viagem pela estrada logo em seguida. Não demora muito, uma mulher vestida de branco com um ferimento na testa carregando um bebê no colo aparece sem dizer uma palavra. Visto que estava sozinha e sem nenhum carro à vista, Frank decide oferecer-lhe uma carona. Para isso, sua filha Marion (Alexandra Holden) cede o seu lugar – falarei mais sobre isso adiante – e diz que iria para a ceia andando, acreditando que já estava perto do local. No momento em que Frank avista uma cabana para procurar um telefone, a Mulher de Branco revela que o seu bebê está morto. Em seguida, ela e o namorado de Marion, Brad (William Rosenfeld), somem do carro.

 

O Carro Preto

“Se parar, morrerá”.  Esse é o primeiro sinal para sabermos quem será a próxima vítima do filme após um encontro com a Mulher de Branco. Além disso, vemos cada vítima perder a razão e serem mais honestas do que o normal por um curto espaço de tempo depois que fisgadas pela Mulher de Branco. Por fim, elas são levadas dentro de um carro preto que surge num lado escuro da estrada.

 

7:00 PM

Aos poucos, na tentativa de chegarem o quanto antes para a ceia de Natal, vemos Frank e sua família perceberem como se estivessem andando em círculos e que a estrada em que estavam não tinha saída, com todos os relógios parados num só horário: às 7:00 PM. Com isso, se a realidade alternativa não estava clara, visto que a única cabana no meio da estrada aparecia diversas vezes, o horário parado era o maior sinal que estavam presos nessa realidade e fadados a morrerem.

 

Trabalhando os paradoxos e a sina, “Rota da Morte” fala sobre pessoas encontrando seus destinos: por mais que tentassem encontrar uma saída, a estrada não tinha fim. Mesmo não sendo envolvente até o final, o filme vale a pena por fugir dos temas tradicionais de filmes de terror natalino, e, com simplicidade, é bizarro, assustador, inquietante e muito bem-humorado, de forma que “Rota da Morte” é imprevisível e acima da média.

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.